Já lá vão 11 anos desde que o realizador e historiador Emin Alper conquistou o Festival de Berlim com o seu primeiro filme, “Behind the Hill”, um objeto intenso, construído a partir de uma reunião familiar, que coloca tradição e modernidade em confronto, com segredos e mentiras a serem reveladas progressivamente.
Esse talento emergente começou assim a escrever algumas linhas na História do cinema turco, algo que se confirmou nos projetos que se seguiram:“Frenzy” (2015) e “A Tale of Three Sisters” (2017).
5 anos após esse seu último filme, ele regressou com mais acutilância e sentido crítico que nunca, abordando a polarização da sociedade turca e, mais uma vez, a dicotomia entre campo e cidade, tradição e modernidade. E mesmo que exista neste “Burning Days” (Dias em Chamas) muito do que já se viu no seu cinema, em especial “Frenzy”, nunca como antes o cineasta mostrou tamanha potência cinematográfica.
Foi em Antália, na Turquia, em outubro passado, que um grupo de jornalistas, onde o C7nema estava inserido, falou com Alper sobre o seu filme, o seu cinema e a sua Turquia.
O seu filme tem muitos códigos que encontramos nos westerns norte-americanos. Como conseguiu inserir a política do seu país nesse registo? Houve algum filme que serviu de inspiração?
Inicialmente não era a minha intenção, mas depois comecei a perceber as semelhanças com os filmes americanos ambientados no sul dos Estados Unidos. É uma região também muito conservadora e preconceituosa, onde os ‘outros’ são os negros. Isso criou muitos ‘Mayors’ e xerifes autoritários, muito parecidos com os daqui. Foi então que descobri que a literatura e os filmes americanos lidam com histórias semelhantes. Vejo o “Burning Days” quase como um filme americano.
O filme está cheio de simbolismos e metáforas, e o mais forte é mesmo aquele enorme buraco, fosso e abismo entre aqueles que querem liberdade e a mudança, e os que querem manter as coisas na tradição. Esse fosso é mesmo assim tão grande na sociedade turca?
Aquele buraco gigantesco, aquele fosso, simboliza todo o tipo de desastres que os autoritários e populistas nos levam, seja uma guerra, como Putin, ou uma crise económica, como Erdogan. Se olharmos para a história, vemos que este tipo de manipuladores conseguem obter o apoio do povo e, através do autoritarismo e da manipulação da população, levarão o país ao desastre. Por isso, de certa forma, o meu projeto é como um filme-catástrofe.
Um dos temas que aborda é a corrupção, mas também fala de minorias, como o povo cigano (Roma), e as atitudes negativas em relação a elas, de clara xenofobia. Existe assim, mais uma vez, um embate entre a corrupção conservadora e a luta pela democracia?

Os regimes totalitários têm aversão às minorias, aos imigrantes, às mulheres, às pessoas LGBTQ. Eles manipulam os sentimentos da população criando inimigos, e esses grupos são alvos fáceis. É uma estratégia testada e confiável. Todos esses elementos estão conectados no filme e levam a uma figura: o presidente da câmara que quer se eleger e manipula as pessoas para ver esses ‘outros’ como alvos. Sempre fui uma pessoa política e ativista. Isso continuou quando comecei no cinema, e sempre tive projetos e histórias que eram assim. Porém, o meu país não permite histórias não culturais. Ainda assim, na Turquia, ainda não vais para a cadeia por fazer filmes, mesmo que alguns mostrem ser tarefas arriscadas. Mas é muito difícil conseguir financiamento para eles e depois a distribuição. Depois deste filme, por exemplo, será difícil para mim encontrar dinheiro para fazer o próximo. Não irei para a cadeia, porque o sistema opressor é bastante arbitrário e os seus alvos são as figuras mais populares, não os realizadores.
Foi um pouco surpreendente ver três filmes turcos com elementos LGBTQ na competição do festival, que no total tinha dez títulos. E ver realizadores usarem esse tema com todos os riscos que isso envolve…
Nos últimos cinco anos a homofobia tornou-se uma política de Estado. Antes disso a homofobia já existia na sociedade turca, com certeza, mas agora é realmente uma política de Estado. E, como reação, os cineastas começaram a fazer filmes LGBTQ. O que é muito bom, porque mostra que queremos lutar. A homofobia e as cenas homoeróticas na verdade não faziam parte da primeira versão do guião, mas coloquei-as justamente no meu filme por causa dessa política de estado.
Sobre isso, a personagem do jornalista no seu filme também é rotulada como uma ameaça por causa da sua homossexualidade.
Não queria contar uma história simples do bem contra o mal. O procurador da justiça não é completamente uma boa pessoa e o jornalista igualmente. Na verdade, não temos a certeza sobre a sua honestidade e a integridade das suas intenções. Nunca podes ser completamente puro quando lutas contra o mal. É por isso que descrevi as personagens assim: esta é uma luta entre o mal e o menos mal.
A política sempre esteve presente nos seus filmes, mas também os beberetes de raki. É importante incluir pelo menos uma cena onde se bebe raki ?
Beber raki é importante (risos). Demora pelo menos três ou quatro horas e, à medida que ficas bêbado, todas as contradições que inicialmente foram mantidas sob a superfície começam a aparecer. Às vezes lutas, às vezes as pessoas até se matam, mas acho que é sempre uma boa maneira de criar tensão e trazer as coisas à tona. Portanto, é algo muito conveniente para mim e também pode ser muito engraçado. Gosto realmente de escrever essas cenas.

A cena de abertura lembra “Era uma vez na Anatólia”, de Nuri Bilge Ceylan, talvez por causa da paisagem. Foi uma homenagem?
Só queria abrir e terminar o filme com uma dolina. Mas existem cenas muito mais duras do que que as que vemos no cinema de Ceylan
Pode falar um pouco da juíza no seu filme, uma mulher muito bonita que também parece estar a jogar as suas cartadas num jogo muito próprio.
Ela simboliza o burocrata, e os burocratas sempre seguem o caminho da sobrevivência.
Além do seu filme, outros dois na competição nacional do Festival de Antália, o “Black Night” e o “Snow and the Bear”, abordavam temas semelhantes: o conservadorismo, a corrupção e muita opressão, numa enorme dicotomia entre campo e cidade. Existe na Turquia um “movimento” cinematográfico para abordar estas questões?
Também fiquei surpreso ao ver as conexões temáticas entre todos estes filmes. Todos eles não tendem a descrever a contradição entre a vida no campo e a vida na cidade, mas escolhem os seus espaços como uma metáfora para o país como um todo. Por exemplo, eu mesmo não tenho nada contra os habitantes rurais, e até nasci numa cidade pequena. Queria criar um microcosmos e ilustrar a solidão do intelectual e artista moderno, e colocar alguém assim nesse microcosmos. A Turquia tem muitas contradições em relação à tradição, modernidade, curdos, turcos, minorias religiosas, e este governo tem grande apoio dos elementos conservadores da sociedade turca.
Enquanto via o “Burning Days”, lembrei-me muito de países como a Polónia, onde também existe uma grande divisão entre o tradicional e o conservador, a modernidade e o progresso. Com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, qual foi o impacto na sociedade turca?
O problema que fala, do conservadorismo Vs progressismo é obviamente muito universal. Infelizmente, a reação do povo turco à guerra foi decepcionante. Este país tem uma forte tradição de antiamericanismo. Se a América apoia uma coisa, há um forte hábito de apoiar a outra. Algumas pessoas, infelizmente, ignoram a tragédia humana e se solidarizam com Putin, justamente por causa desse antiamericanismo. As coisas estão a melhorar, mas metade da população não se identifica com os ucranianos.
Tem esperança para o futuro do país?
Este é o meu filme mais otimista (risos), mas a luta vai continuar. A situação é sombria. Nos meus filmes anteriores, os protagonistas eram pessoas mais desesperadas. Neste queria enfatizar que vamos lutar, e os buracos (referência ao filme) serão a sua ruína. O atual governo está a perder popularidade por causa da crise económica, e esperamos que depois das próximas eleições possamos olhar para o futuro com mais esperança.
Na cena internacional, é considerado como um dos pontas de lança do novo cinema turco. Qual é a sua opinião sobre a nova geração de realizadores turcos? Talvez seja precoce falar de uma nova vaga turca, mas sente uma conexão geracional?
Não me considerava mais velho que os meus amigos e não me via como parte de uma geração até chegar a este festival. Talvez devêssemos conversar mais (risos). As condições estão a empurrar-nos para algum lugar, e talvez devêssemos discutir entre nós essas condições mais conscientemente. Estilisticamente e tematicamente, especialmente em comparação com o cinema iraniano ou romeno, o cinema turco é mais heterogéneo. Nos dez títulos em competição, temos vários estilos e géneros. Quinze ou vinte anos atrás, por causa da forte influência do Nuri Bilge Ceylan, havia mais homogeneidade, mas de repente tudo mudou. Nos últimos dez anos, surgiu uma nova geração de realizadores, cada um com a sua maneira distinta de fazer filmes. Talvez isso se torne uma desvantagem em termos internacionais, porque o cinema turco é mais difícil de definir, pois já não temos um verdadeiro estilo “turco”.
Falou anteriormente sobre as dificuldades de encontrar financiamento para os seus filmes. Com a chegada de plataformas de streaming como a Netflix, Amazon e MUBI, ficou mais fácil conseguir financiamento, mas simultaneamente isso também é prejudicial para os cinemas. Qual é a sua opinião sobre isso?
A pandemia COVID mudou tudo. Tanto a Netflix quanto a MUBI vieram para a Turquia nos últimos anos, e a sua entrada foi muito difícil. Alguns filmes de arte que o público estava realmente ansioso de ver, foram lançados diretamente na MUBI. A Netflix não tem nenhum interesse real em cinema de arte. Existem alguns rumores de um interesse crescente da parte deles, mas veremos. E agora a Disney+ também entrou em cena. Isto pode ser uma fonte de financiamento, com certeza, mas não vai ser bom para os cinemas.
No ano passado, os números das bilheteiras dos filmes artísticos foram horríveis, e não apenas por causa da COVID. Como disse, alguns dos títulos mais populares estavam no MUBI. É uma plataforma muito boa para assistir ao cinema de autor, e o seu efeito nos cinemas arthouse será ambíguo. Claro que eles, sendo uma plataforma menor, não podem ser uma grande fonte de financiamento.
Atualmente está a filmar uma série para a Disney+. Pode falar um pouco mais sobre esse projeto?
O meu objetivo é encontrar financiamento para os meus filmes. A produtora para a qual estou a filmar é a mesma que investiu no “Burning Days”, ou seja, não estou a trabalhar diretamente para a Disney ou a ser pago por eles. Estou a fazer esse projeto para poder arranjar dinheiro para os meus filmes.
A série é centrada numa mulher que entra numa espécie de culto moderno e que vive numa ilha. Na verdade, acabamos de filmar e agora estamos a trabalhar na montagem e na pós-produção.

