Já lá vão 10 anos desde que Emin Alper invadiu o Festival de Berlim com o seu primeiro filme, “Behind the Hills”, um objeto tão doloroso como intenso que revelava um talento nato prestes a deixar algumas linhas na História do cinema turco, algo que se confirmou nos filmes que se seguiram, “Frenzy” (2015) e “A Tale of Three Sisters” (2017).
Agora, 5 anos após esse seu último filme, ele regressa, mais acutilante e efervescente que nunca, mesmo que exista neste “Burning Days” (Dias em Chamas) muito do que já se viu no seu cinema, em especial “Frenzy”.
Eminentemente político, sempre subversivo e carregado de elementos simbólicos que transformam o microcosmos observado numa enorme alegoria a toda a Turquia e ao conflito político entre conservadores e liberais, e ao longo espaço (buraco) que existe entre eles, “Burning Days” é todo ele um neo-western esquadrinhado ao detalhe que nos leva ao confronto entre a tradição e modernidade, e como uma enraizada corrupção sistémica fragiliza o que se apelida de democracia.
Numa pequena localidade onde a água é um bem escasso e estranhas crateras invadiram a paisagem, a chegada do novo “Xerife” (na verdade, o procurador de justiça) é acompanhada por todo o tipo de corrupção e pressão social por todos os que lá habitam, a começar pelo líder político da região, que num “ato de boa vontade” convida o jovem procurador para um jantar regado a Raki (bebida sempre presente nos filmes de Alper). Porém, quando uma jovem cigana é violada nesse evento, e o procurador descobre que já é a terceira vez que isso acontece, ele tenta completar mentalmente os passos dessa noite, para tentar decifrar o que aconteceu, e punir os culpados. O problema é que ele mesmo, com poucas memórias dessa noite, é condicionado pelo crime em si, abalando todo o espectro político e social da cidade, que se prepara para eleições.
A isto acrescente-se o facto do antigo procurador da cidade ter misteriosamente desaparecido e de um jornalista – com quem o procurador vai manter uma relação repleta de homoerotismo não concretizado – se mostrar como mensageiro da verdade, mas também ele ter conexões com elementos políticos da oposição política da cidade.
Talvez Alper tenha sido demasiado ambicioso por querer introduzir tantos temas sensíveis para o mapa político turco na história do seu filme passado num local tão pequeno (homofobia, corrupção moral, racismo, misoginia, capitalismo selvagem, e busca pela manutenção do poder político para a eternidade), mas não deixa de ser absolutamente fabulosa e cinematograficamente espampanante a forma como encapsula tudo isso em pouco mais de duas horas, sempre num ritmo estonteante.
O resultado final é um filme absorvente, extremamente relevante e crítico para com a herança da governação Erdogan no país, e direcionada a todos os seus pequenos discípulos que em todas as cidades, vilas e aldeias continuam a querer ser donos e patrões sob a capa de verdadeira democracia.
Facilmente o trabalho mais conseguido de Emin Alper e até o seu filme mais aberto às multidões, “Burning Days” foi assim o filme mais fascinante que percorreu a programação do Festival de Antália, de onde saiu com 9 prémios, mas estranhamente perdeu o principal. Nada que manche a sua passagem pelo local e a sua relevância atual dentro do cinema turco.

















