Depois de filmes como “Autumn” (2008), “Future Lasts Forever” (2011) e “Memories of The Wild” (2015), Ozcan Alper regressa com “Black Nights“, um drama pedregoso passado numa região montanhosa algures na Turquia onde as tradições e a masculinidade tóxica comandam os destinos de todos os que por lá vivem e passam.

No centro da ação encontramos Ishak, um jovem músico que regressa ao local para ver a sua moribunda mãe. Afastado há sete anos, este regresso é marcado pelo sentimento de culpa e os remorsos pela responsabilidade da morte de um jovem guarda florestal, um ato em que participou juntamente com os amigos de infância.

Black Nights” move-se tematicamente pelos caminhos de obras como “Snow and the Bear”  e “Burning Days“, também presentes no Festival de Antália e focados em espaços presos no tempo, nas tradições e em conceitos de moral e imoral arcaicos que fazem as leis locais sobreporem-se às nacionais. E Ozcan captura bem esse enclausuramento num jogo de planos e sequências de confronto entre o homem e natureza, mas também com ele próprio.

Neste lugar dominado pelos homens, a misoginia, homofobia e os valores “morais” são uma capa sempre presente em todas as conversas e ações, algo que atormenta o protagonista e que o cineasta visita também através de flashbacks, que vão descosendo uma história de exclusão, do nós e “eles”, com consequências trágicas e o fardo do dilema moral.

Mate Herbais na fotografia captura de forma esplendorosa o local onde decorre a ação, enquanto Yorgos Mavropsaridis e Doruk Kaya montam o filme de forma a manter o ambiente de thriller dramático que progressivamente deixa o seu lado psicológico e passa para ações físicas. Por isso mesmo, e apesar de todas as semelhanças, “Black Nights“,  “Snow and Bear”  e “Burning Days” formam um tridente de luxo na sua análise à interioridade e ao peso do passado e da estrutura social nas decisões e leis contemporâneas. Mais um interessante filme da colheita 2022 do Festival de Antália.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
black-nights-culpa-e-redencaoUm drama pedregoso passado numa região montanhosa algures na Turquia onde as tradições e a masculinidade tóxica comandam os destinos de todos os que por lá vivem e passam.