Depois de um par de curtas-metragens – “Confrontation” e “A Sunny Day”, que viajaram globalmente, a turca Selcen Ergun estreou-se nas longas-metragens com “Snow and the Bear”, uma visita ao microcosmo de uma remota cidade turca, cada vez mais isolada do mundo por um inverno rigoroso que não chega ao fim. E o filme começa mesmo com uma frase inscrita no ecrã sobre esse inverno sem fim, uma analogia política turca que imediatamente arrancou aplausos do público no Festival de Antália, evidenciando que pelas entrelinhas de uma uma narrativa convencional existiam muitos detalhes com um maior significado que aquele poderíamos imaginar.
No centro da história está uma jovem enfermeira que vem da cidade para este espaço em nenhures devido ao serviço obrigatório que tem de prestar ao estado. Apesar do Inverno continuar em força, há rumores de que os ursos saíram de hibernação mais cedo e, sem fontes de alimentação na floresta devido à gélida paisagem, começaram a invadir o espaço urbano. Um diz que disse que acaba por se revelar importante numa narrativa onde a sociedade patriarcal é alvo de críticas, bem como o estado militarizado, que na ausência de inimigos reais tem como único trabalho o lidar com os ursos (protegê-los) e os morcegos que teimam em os morder.
Humor não falta nesta investida dramática de uma cineasta que a certo momento guina o guião do seu filme em direção ao thriller psicológico, principalmente depois de um homem da região desparecer sem deixar rasto e, outro, a quem normalmente todos culpam de tudo o que acontece de mal, ser indicado como o principal suspeito.
Existe um verdadeiro sentido de claustrofobia num local onde ursos, homens e mulheres parecem estar retidos numa armadilha geográfica, política e social, um pouco como acontecia no brilhante “Brother’s Keeper“, que arrecadaria os principais prémios em Antália no ano passado. Mas ao invés da questão curda, “Snow and The Bear” investe noutras direções, arrastando o espectador numa viagem onde não vai faltar o célebre e muito presente no cinema turco atual dilema moral.
Um belo primeiro filme que deixa Selcen Ergun como um dos nomes da cinematografia turca a seguir no futuro.

















