A crise de opióides nos EUA é o “Crime do Século” para Alex Gibney

Estreia a 11 de maio na HBO

(Fotos: Divulgação)

Quer sejam atos de tortura após a invasão do Iraque (Um Taxi para a Escuridão), o terrorismo (My Trip to Al-Qaeda), a pedofilia na igreja (Mea Maxima Culpa: Silêncio na Casa do Senhor), o escândalo Wikileaks (Roubamos Segredos: A História da WikiLeaks), as psicopatias dos criminosos (Crazy, Not Insane), a interferência russa nas eleições norte-americanas (Agents of Chaos), ou a resposta do governo de Trump à pandemia Covid-19 (Totally Under Control), Alex Gibney tem dedicado grande parte do seu tempo como cineasta de marca no cinema documental a analisar alguns dos maiores problemas dos EUA no novo milénio.

Crime of The Century” é o seu novo projeto, com estreia programada para a HBO, focando-se no problema da toxicodependência nos EUA, movida por grandes interesses económicos de algumas das maiores farmacêuticas norte-americanas. Não estamos a falar da epidemia do tráfico e consumo ilegal do Crack (criteriosamente mostrada em Crack: Cocaine, Corruption & Conspiracy), que abateu-se nos EUA nos anos 80, afetando em particular a comunidade negra, mas sim da deliberada campanha de venda de opióides na forma de drogas prescritas legalmente. Gibney chama-lhe o crime do século e o seu documentário em duas partes não só traça uma história do consumo destas substância que atuam no sistema nervoso para aliviar a dor, como entra a fundo na questão de como eles conseguiram tanto sucesso e exposição aos norte-americanos nas últimas décadas. Não, essa dependência não é um ato isolado ou evento espontâneo que simplesmente não poderia ter sido evitado.

E tal como analisou a influência, poder e modus operandi da Enron (Enron: The Smartest Guys in the Room) e da Cientologia (Going Clear: Scientology & the Prison of Belie), Gibney estabelece uma ligação clara entre a toxicodependência nos EUA e as práticas comerciais exploratórias das farmacêuticas, com incidência no papel da família Sackler e da sua empresa, a Purdue Pharma, no desenvolvimento do analgésico OxyContin e no esforço de fazer os médicos prescreverem-no massivamente e a população os desejar como salvação. 

O papel de clara corrupção e tráfico de influências (termo complexo num sistema que privilegia o lobby) a reguladores do sector para impedir uma supervisão séria às suas práticas, bem como o travar de algumas investigações policiais através de acordos extra-judiciais, são outros elementos também foco no documentário, que serve como um complemento ao ensaio jornalístico “The Oxy Kingpins”, que estreou este ano no SXSW.

Movido a entrevistas, muitas imagens de arquivo, pequenos trabalhos de investigação caso a caso que se transformam em análises coletivas, e dados concretos sobre o vício nos EUA, Gibney consegue também, mais uma vez, mostrar que a falta de regulação do mercado aberto nos EUA levou à criação de uma cultura corporativa assente num capitalismo completamente selvagem. Falamos aqui da indústria farmacêutica, mas já vimos em tantos outros filmes a mesma forma de pensar e agir, centrada no lucro, no mercado das armas, nas tabaqueiras e no ramo das energias fósseis.

A crise dos opióides mostra “o perigo do que acontece quando misturas um tipo de capitalismo turboalimentado do século 21 com a saúde”, disse Gibney recentemente sobre este projeto, adicionando que percebe-se facilmente que todos “os incentivos são para ganhar dinheiro, em vez de cuidar dos pacientes.”

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