A crise de opioides nos EUA é um caso sério, mas se estamos habituados a seguir dramas humanos derivados das dependências e adições, “The Oxy Kingpins” mostra o lado mais invisível, mas certamente o maior responsável pelo problema: o mundo dos negócios.
E observando todo este documentário, que funciona como uma peça jornalística de enorme dedicação e investigação, percebemos a razão porque tantos filmes de ficção sobre o tema estão já em desenvolvimento. Sim, este é um assunto de grande expansão e exploração a partir de histórias individuais (de consumidores e traficantes), mas existe todo um lado industrial, político e capitalista invisível que poderá efetivamente ser ensaiado através de thrillers que passam pelos tribunais como aqueles que tivemos no passado sobre tabaqueiras (O Informador) e outras grandes indústrias que intoxicaram milhares de povoações (Erin Brockovich; Dark Waters).
“The Oxy Kingpins” começa com o depoimento de um antigo traficante, onde nos explica os meandros do negócio de oxicodona, como se envolveu nele, as suas estratégias e, claro, a riqueza que daí extraiu, pelo menos até ser detido e condenado a prisão efetiva. Mas esse é apenas o ponto de partida para seguirmos de perto a luta do advogado Mike Papantonio contra um sistema político e judicial que ataca apenas o “peixe-miúdo”. Convém entender que a oxicodona, ao contrário de drogas tradicionais como a heroína e cocaína, era prescrita legalmente para o tratamento de dores moderadas a severas. O epicentro é Miami, onde aproveitando-se de estar perante uma droga viciante e legal, florescem anúncios no jornal a ela, sendo usadas clínicas de fachada, onde os médicos são contratados simplesmente para passar receitas deste poderoso analgésico. O nosso antigo traficante assim o fez: aproveitou-se da lei, usou médicos para passar receitas, comprou milhares de comprimidos, exportando-os depois para todo o país, em especial para a região de Boston.
Mas mais que ele, existiram várias empresas do ramo farmacêutico que enriqueceram no processo e é contra elas e os seus líderes (um dos quais recebeu 700 milhões de comissões pelo sucesso da empresa) que Mike Papantonio inicia uma longa batalha para que sejam responsabilizadas criminalmente e paguem – em vez de ser o estado/população norte-americana – a desintoxicação dos dependentes. Há também uma atenção central do advogado e do documentário em ligar o consumo desta droga aos condados mais empobrecidos, que como Papantonio apelida, são verdadeiras “áreas de desespero”. E também visitamos casos pessoais de dependentes, a maioria eventualmente detida para poder sustentar o vício.
“The Oxy Kingpins” é o primeiro projeto do The Young Turks, programa de notícias e opinião liberal e progressista americano no YouTube, e demonstra ter enorme relevância na investigação às grandes empresas norte-americanas (3 delas no top 5 da Forbes) e como elas lucraram com a tragédia alheia.



















