Perdido no meio da pilha de conteúdos que Martin Scorsese falou recentemente, na Netflix encontra-se um documentário que, apesar de não abandonar o sistema habitual e banal de recurso a “talking heads” enfiados no meio de imagens de arquivo, faz uma incursão investigativa cirúrgica à epidemia de crack nos EUA, que se manifestou principalmente nos anos 80, e que contribuiu severamente até hoje para que grande parte da população prisional norte-americana seja composta por negros. 

Mas como é que uma droga pode estar relacionada com o racismo sistémico da sociedade norte-americana?. A resposta está em “Crack: Cocaine, Corruption & Conspiracy”, documentário de puro sentido jornalístico que analisa a massificação do consumo de crack nos EUA, mostrando-nos a sua “descendência” da cocaína, que socialmente era bem aceite naquele período, pois tratava-se de um produto para as elites, especialmente numa Wall Street a explodir na criação de Gordon Gekkos devido às políticas neoliberais de Ronald Reagan.

Já em “Dope is Death”, que cruzava a história dos Panteras Negras e de outros grupos, como os The Young Lords, na luta contra a toxicodependência nos anos 70 e 80, a imagem de Ronald Reagan saía borrada, mas aqui neste “Crack: Cocaine, Corruption & Conspiracy” vemos toda a hipocrisia de uma figura que iniciou um processo indirecto de destruição global de uma comunidade, que ainda hoje se sente severamente.

Com a cocaína em alta nos circuitos da arte e do mundo dos negócios, o crack surgia como a droga dos pobres. Compreenda-se que em meados dos anos 1980, a mensagem “Let’s Make America Great Again” foi redigida apenas para as classes mais abastadas dos EUA, havendo quase 9% de desempregados, a maioria dos quais afroamericanos ou hispânicos. Surge então uma droga extremamente aditiva, muito mais barata que a cocaína, e que é capaz de enriquecer facilmente alguém em escassos dias.

Como é natural, os pobres são os que se lançam em vender esta droga ilegal, a maioria negros, que curiosamente têm em ⅔ da sua clientela os brancos. Paralelamente a isto, e enquanto Nancy Reagan gritava na TV “Just Say No” às drogas, o seu marido e presidente dos EUA financiava clandestinamente os CONTRAS da Nicarágua, que lutavam contra o regime Sandinista de ideologia marxista recentemente colocado no poder no país da América Central.

O que acontecia – com o fechar dos olhos por parte da CIA – era que aviões seguiam para a Nicarágua recheados de armas e regressam aos EUA com toneladas de cocaína. Com uma epidemia em vigor, mas uma política que estava mais interessada em derrubar regimes externos do que resolver problemas internos, o país foi invadido pela droga, a que se associou um cultura da desinformação (invenção do termo “crack babies”, por exemplo), e por uma cada vez maior ação policial e judicial no combate a traficantes, mas também a consumidores.

Assim, e no meio das pressas, ainda no tempo de Reagan foram criadas leis para combater o flagelo que chegavam a dar a mesma sentença a quem tinha 500 gramas de cocaína ou 5 gramas de crack. “Achámos que era uma boa ideia na altura”, diz um ex-congressista sobre o tema, uma situação que encheu os presídios norte-americanos de pequenos traficantes e muitos consumidores, atingindo particularmente os afroamericanos, que por natureza eram por si só os mais pobres e com maiores dificuldades no acesso ao emprego.

Mas se Reagan ficou mal na fotografia pela hipocrisia latente (a droga é má, mas está a entrar cá com a nossa ajuda), George Bush e Bill Clinton, os senhores que se seguiram na chefia do país, acentuaram ainda mais as disparidades sociais e a destruição de uma geração. E sublinhamos o termo negro na aplicação de “geração”, pois só quando se percebeu que, apesar da maioria dos consumidores ser branca, nenhum branco foi detido durante vários anos por tráfico de crack, o país acordou para a verificação das suas políticas que geraram injustiças sociais tremendas. Só aí, e já depois de especialmente Clinton ter dado a estocada final com um proibicionismo cada vez mais severo, começou a existir um repensar da matéria. Mas entretanto, o mal já estava feito e contribuiu severamente para o fosso gigantesco racial, económico e social que ainda hoje perdura nos EUA.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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