“Atlantis”, uma distopia sobre uma Ucrânia devastada

(Fotos: Divulgação)

Filme de Valentyn Vasyanovych, produtor que deu nas vistas em 2014 com o filme-sensação The Tribe, apresenta agora uma distopia que chega ao Festival de Sevilha apenas dois meses depois do prémio de Melhor Filme da seção Orizzonti, do Festival de Veneza.

Uma certa escola de cinema do Leste europeu é especialmente devota do contemplativo e dos planos fixos. Em Atlantis, tais artifícios estão a serviço de uma distopia sobre a qual não deixa de estar presente uma estranha e asfixiante atmosfera comum a este tipo de registo.

Há um pano de fundo histórico recente – as invasões russas a regiões da Ucrânia a partir de 2014 – nomeadamente o Donbass, que já foi tema principal de um documentário do mais famoso conterrâneo de Vasyanovych, Sergei Loznitsa.

O realizador de Atlantis, no entanto, imaginou uma terra ucraniana situada em 2025, um ano depois de uma guerra catastrófica com os russos e onde a paisagem lembra a de Stalker, clássico de Andrei Tarkovsky. O que ficou para trás foram soldados traumatizados, suicídios, recordações e o sentido geral de inutilidade que combina com o interior do pais.

Sergiy (Andriy Rymaruk), o protagonista, é mais um dos sobreviventes que nada parece ter a perder – para além de sofrer de “stress pós-traumático” como consequència do conflito. Quando fecha a fábrica onde trabalha, ele une-se fortuitamente aos Black Tulips, um grupo de voluntários com uma curiosa missão, mas plenamente inserida neste contexto de destruição: exumar cadáveres com o objetivo de reconhecê-los e dar alguma dignidade aos soldados ucranianos mortos em combate.

A única chama no horizonte acaba por surgir fortuitamente e é justamente uma das “missionárias” do grupo, Katya (Liudmyla Bileka), que plana como um chama que tanto pode significar uma redenção afetiva como sexual no meio a penúria emocional e a completa falta de esperança no futuro.

Vasyanovych é adepto confesso do plano fixo. Numa entrevista ao Cineuropa, ele disse: “Para mim os movimentos de câmara não são naturais e eu queria fazer um filme com uma câmara estática. Foi o que fiz, exceto quando não era possível por causa das locaçãos. Meu desejo era alcançar um retrato de personagens não manipulado“.

Quando a câmara mexe de forma mais “vistosa”, é para acompanhar uma longa subida por escadas de um edifício em ruínas onde o protagonista vai encontrar os restos da sua vida perdida num passado impossível.

Mas o cineasta ucraniano não trabalha apenas a contemplação, mas também a repetição: às ações de exumação seguem-se longos exames de detalhes a propósito do cadáver e eventuais pertences, narrados com uma voz repetitiva, enquanto por mais de uma vez Sergiy é encontrado a treinar tiro ao alvo em espaços rigorosamente compostos por uma exuberante fotografia. Esta é do realizador, que ainda assina a montagem e assegura-se, desta forma, como o responsável pelos mais importantes aspetos autorais do projeto.

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