Nomeada ao Oscar de Melhor Filme Internacional pelo doloroso A Voz de Hind Rajab, a realizadora tunisina Kaouther Ben Hania prepara-se para lançar já este ano Mimesis, um novo projeto que já está filmado e vai entrar agora na fase de montagem.
Desenvolvido ao longo de vários anos, Mimesis foi descrito pela cineasta ao C7nema, à margem do Rendez-Vous da Unifrance em Paris, como um projeto sobre o ato de contar histórias e sobre a forma como as narrativas, ainda mais do que os factos, moldam a perceção da verdade. “O filme decorre em duas épocas distintas, nos anos 1940 e nos anos 1990, na Tunísia, e constrói-se como uma saga familiar atravessada por uma lenda local”, explicou a cineasta. Ao longo do tempo, essa história vai sendo repetida, transformada e amplificada, até se tornar uma verdade absoluta para a comunidade. Mimesis interroga assim o mecanismo pelo qual a ficção, o mito e o relato oral se sobrepõem à realidade factual, criando crenças coletivas difíceis de desmontar.
Segundo Ben Hania, o filme funciona como uma metáfora direta do mundo contemporâneo, onde a sedução da “boa história” frequentemente vence a complexidade dos factos. Quando questionada se o filme estaria pronto a tempo de Cannes ou Veneza, a cineasta escusou-se a comentar, atirando apenas um “veremos”.
Reconhecida internacionalmente pelo seu cinema situado entre o documentário e a ficção, como se viu em Quatro Filhas, Kaouther Ben Hania tem construído uma filmografia coerente e politicamente consciente. Filmes como O Homem que Vendeu a Sua Pele (nomeado ao Óscar), onde fala dominadores e dominados, afirmam-na como uma das vozes mais relevantes do cinema árabe contemporâneo, com forte presença nos grandes festivais internacionais.

