Não houve filme em Veneza, na sua exibição à imprensa, que tenha causado tanta comoção como The Voice of Hind Rajab, o novo projeto da realizadora tunisina Kaouther Ben Hania, nomeada aos Óscares por Four Daughters (Quatro Filhas, 2023) e The Man Who Sold His Skin (O Homem Que Vendeu a Sua Pele, 2020).
Baseado na história verídica de Hind Rajab, uma menina de seis anos que, em janeiro de 2024, ficou presa dentro de um carro alvo de disparos das forças israelitas em Gaza, o filme parte do registo de uma chamada real. A criança telefonou para os serviços de emergência e manteve contacto com voluntários do Crescente Vermelho, que tentaram enviar uma ambulância para a salvar. Horas depois, Hind foi encontrada morta. O filme recria os momentos da chamada telefónica e transforma-os numa narrativa cinematográfica.
“O cinema tem a capacidade de contrariar a amnésia das notícias”, disse Kaouther Ben Hania há momentos em Veneza, numa sala de imprensa que a recebeu de pé com uma enorme ovação. “Quando ouvi pela primeira vez a voz de Hind Rajab, percebi que não era apenas a voz dela, era a voz de Gaza a pedir ajuda, e ninguém podia entrar. Este filme nasceu da raiva e do sentimento de impotência, mas também do apoio da família de Hind e dos trabalhadores do Crescente Vermelho, que são os verdadeiros heróis.”
Recentemente, Brad Pitt, Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Alfonso Cuarón e Jonathan Glazer juntaram-se ao filme como produtores executivos — algo que a realizadora considerou natural: “O facto de todos esses nomes se juntarem ao filme significa algo. Mostra que as coisas têm de mudar. Durante demasiado tempo, as mortes em Gaza foram tratadas como ‘danos colaterais’ pela comunicação social. Isso é desumanizante. É por isso que a arte — cinema, expressão, música — é essencial para dar rosto e voz a quem é silenciado.”

Quando questionada sobre a ética de usar a voz e imagens reais, e se isso não poderia ser visto como uma exploração da dor, a tunisina respondeu sem complacência: “Já ouvi esse argumento. Sempre que se amplifica a voz palestiniana, surgem acusações de exploração. É apenas mais uma forma de silenciamento.”
Desejando que a justiça no caso de Hind Rajab não seja apenas simbólica, Kaouther sublinhou que no seu cinema não acredita na separação rígida entre ficção e documentário, mas sim na procura da forma certa de contar cada história: “Quando ouvi a gravação da Hind, pensei em documentário. Mas percebi que, para transmitir o sentimento de impotência e raiva, precisava de dramatizar a perspetiva dos trabalhadores do Crescente Vermelho. O filme é uma dramatização muito próxima do que viveram. (…) Foi o sentimento de injustiça perante a desumanização dos palestinianos e a forma como os media ocidentais falam deles que me moveu. Às vezes pergunto qual é o sentido de fazer filmes, mas acredito que é importante falar, resistir, dar voz.”
Os atores presentes em Veneza falaram ainda da dureza e emotividade das filmagens: “Praticamente todos os dias havia lágrimas”, recorda Clara Khoury. “Quando ouvimos a voz da Hind, a fronteira entre realidade e ficção desapareceu. A Kauter decidiu que só a escutaríamos no set, nunca nos ensaios, e isso intensificou o impacto.” Amer Hlehel acrescenta: “Houve momentos em que tive ataques de pânico e não consegui continuar. Mas sentia que era uma responsabilidade. Se não contássemos esta história, quem o faria? (…) Sou palestiniano, da Cisjordânia. Quando ouvi a voz da Hind, voltei à minha infância, quando tinha dez anos. Senti que morri mil vezes. Não era ficção: era a vida que já vivi.”
O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

