Depois de ter surpreendido com “O Homem que vendeu a sua pele”, um drama “político com forte mensagem social”, a cineasta tunisina Kaouther Ben Hania trouxe até Cannes “Four Daughters” , um filme de ficção que também é um documentário, entrando nesse processo pela casa adentro de Olfa Hamrouni, uma mulher com quatro filhas, mas cujas duas delas – Ghofran e Rahma – “foram levadas pelos lobos”, quando tinham, respetivamente, 16 e 15 anos, em 2015.
Os lobos que Olfa fala perante a câmara são o autoproclamado Estado Islâmico e a razão da mulher nos contar a sua história é porque que ela faz parte de um objeto híbrido que coloca 2 atrizes no papel das desaparecidas, juntamente com as outras duas irmãs que ficaram, Eya e Taysir. Todas elas, juntamente com Olfa, fazem parte de uma metaficção, um híbrido, que funciona não apenas como objeto cinematográfico, mas igualmente terapêutico.
Invariavelmente duro e frequentemente emocional, mas nunca exploratório, “Four Daughters” descose um pouco a educação que as quatro filhas de Olfa tiveram, não estabelecendo uma espécie de causa e efeito para a sua fuga, mas deixando apontamentos que indiciam a revolta generalizada de Ghofran e Rahma contra a mãe. E um desses apontamentos vem logo no início, quando Olfa acaricia uma gata grávida e diz que, às vezes, os felinos ficam tão assustados que comem as suas próprias crias. Com toda a força simbólica e metafórica que essa expressão tem, percebemos automaticamente que Olfa faz um mea culpa, viajando posteriormente pelos detalhes, muitas vezes sórdidos, que despertaram a atenção do seu país. É que antes das jovens fugirem, a mais velha já tinha sido levada pela própria mãe a uma esquadra por radicalização.
O core emocional de “Four Daughters” é a interação de Eya e Taysir com as duas atrizes que vão fazer os papéis de Ghofran e Rahma, com as primeiras impressões a irem dos riso às lágrimas quando as memórias começam a surgir em cena, motivados pelos reencenações de momentos do passado. Porém, é nas palavras de Olfa, às vezes interpretada também pela estrela egípcia-tunisina Hend Sabri, que somos confrontados com um verdadeiro exercício de terapia em função da forma cinematográfica que Kaouther Ben Hania impôs, atropelando o espectador com informação, emoção e uma análise sui generis à passagem hereditária da violência como um legado que tem de ser quebrado.
O filme lembra, e bem, a dificuldade de qualquer mãe, principalmente sozinha, de cuidar de quatro filhas entre a adolescência e infância, mas nunca toma um verdadeiro partido por ninguém, deixando essa tarefa para a nossa mente de juiz e carrasco exercitar-se. O resultado é um filme impactante, onde cinema e factos se misturam, provocando um carrossel de emoções.



















