“A História do mundo é a História de dominadores e dominados”. Esta frase da realizadora Kaouther Ben Hania, dita em entrevista ao C7nema em janeiro passado, reflete o que tentou transmitir no seu “O Homem que vendeu a sua pele”, um drama “político com forte mensagem social” que traz “para o mundo elitista das artes a questão dos refugiados”.

Nascida em Sidi Bouzid, na Tunísia, Kaouther Ben Hania estudou cinema no seu país e depois em Paris, estreando-se na ficção com “Challat of Tunis” (2014), presente na mostra ACID que decorre em paralelo Festival de Cannes. Dois anos depois, o seu segundo documentário, “Zaineb Takrahou Ethelj” (Zaineb hates the Snow), ganhou prémios em Locarno e agora a realizadora estreia um filme que começou a projetar enquanto trabalhava noutro, “Aala Kaf Ifrit” (Beauty and the Dogs, 2017).
Ben Habia explica-nos que é alguém “que se interessa pelo que se passa pelo mundo, pela realidade” e que tudo começou apenas com uma imagem, fotografada mentalmente por si numa visita ao Louvre, algures em 2012. Foi aí que deu de caras com uma retrospectiva ao artista belga Wim Delvoye, destacando-se a sua obra TIM (2006-2008), que consistia num homem, Tim Steiner, sentado numa poltrona, exibindo uma tatuagem executada nas suas costas por Delvoye. “Esta imagem peculiar e transgressiva nunca mais me deixou”, disse Ben Habia, que – em 2014 – começou a escrever o guião, também impulsionada pelo que estava a acontecer na Síria. Nessa altura, a realizadora devia trabalhar na reescrita de “Beauty and the Dogs” (2017), mas “esta história impôs-se e não honrei o prometido, que era reescrever o outro filme. Foi mais forte que eu”.
Os dois mundos – dos refugiados e das artes – fundiram-se e para isso a realizadora e argumentista despoletou um gatilho narrativo faustiano, o pacto com o Diabo entre os privilegiados e os outros, “aqueles que nasceram no lado errado do mundo”, como o protagonista diz a certo ponto do filme, que conseguiu chegar à corrida do Oscar de Melhor Filme Internacional este ano.
Dominantes e dominados
Em “O Homem que vendeu a sua pele” seguimos a história de Sam, um jovem sírio impulsivo, mas apaixonado, que troca o seu país pelo Líbano para escapar à guerra. Quando se vê impossibilitado de seguir a mulher que ama, que partiu para a Europa com o marido, uma estranha tentação surge em cena, uma proposta indecente de um artista consagrado, Jeffrey Godefroi, que lhe promete o “visto” de passagem para a Europa, mas que em troca quer transformá-lo numa “obra de arte, num bem” ambulante. “Ele aceita vender as costas ao diabo porque não tem outra forma de conseguir o quer, seguir o seu amor, entrando assim por uma porta inesperada num sistema que o recusa por não ter papéis (…) Ele que no início recusava esse mesmo sistema, mas cuja vida vai transformando”, diz a realizadora, que depois do casting efetuado, onde durante 6 meses assistiu a dezenas e dezenas de atuações gravadas, não teve dúvidas em escolher o jovem sírio Yahya Mahayni para o papel, descrevendo-o com “um diamante em bruto” e alguém capaz de “passar da extrema sensibilidade à impulsividade” num ápice. Outro aspecto importante é que este homem transmitisse a “ingenuidade de alguém inserido num terreno que não o seu“, trazendo uma perspetiva de fora deste mundo para dentro dele.

Já para o papel do artista, Ben Hania queria alguém capaz de fugir aos estereótipos que aparecem frequentemente no cinema, nomeadamente a romantização comum do artista torturado que tem de lidar com os seus demónios internos. Ao invés, Jeffrey Godefroi, interpretado pelo belga Koen De Bouw, tem charme, carisma e o espírito de “provocação” necessário para representar estas figuras que se “movimentam em círculos fechados“, assentes no “privilégio”. “Os grandes artistas contemporâneos são vistos também como grandes empreendedores. Quis alguém extremamente cínico, detestável, mas ao mesmo tempo muito inteligente e que visse tudo isto como algo justo”.
Além da crítica óbvia à relação dominadores/dominados e à situação dos refugiados, a quem o sistema nega a sua entrada nele e ficam entregues aos dilemas da sobrevivência, Ben Habia lança abertamente farpas à relação entre arte, o negócio e o ego dos artistas: “Cinicamente, o Jeffrey diz ao Sam que transformá-lo numa mercadoria, num objeto do mundo da arte, vai permitir-lhe ser mais livre (…) É o capitalismo”, afirma Ben Habia, acrescentando que infelizmente o nosso mundo demasiadas vezes privilegia os bens em relação aos seres humanos.
Também com um papel de relevo no filme encontramos Monica Bellucci, que nos faz lembrar um pouco a sua postura snob e polida na saga “Matrix”, onde era Perséfone e acompanhava o bon vivant com gosto pela arte Merovingian. “Não vi esse Matrix, mas adoro a Monica Bellucci”. Ben Hania explica que partiu da própria atriz a sua construção visual, o seu “look” loiro sempre altivo de alguém que “domina os códigos daquele mundo“, como se vê desde a primeira abordagem que tem com Sam, quando este tenta se infiltrar numa exposição.
O Futuro
Depois de terminar “O Homem que vendeu a sua pele”, Kaouther Ben Habia tenta terminar um documentário “híbrido” que há cinco anos desenvolve sobre uma mãe e quatro filhas, duas das quais seguiram os seus namorados militantes da ISIS até a Líbia e que agora estão presas. Nesse projeto, algumas atrizes preparam-se para o papel das personagens reais num filme, estando em foco a interação entre elas e as figuras da vida real.






