Maior festa do cinema francês no Brasil, o Varilux, maratona dedicada a longas-metragens, séries e workshops de roteiro, tendo a terra de François Truffaut em foco, ocupa agora as salas em 50 cidades do Brasil, com destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo.
O evento organizado sob a curadoria de Emmanuelle e Christian Boudier, traz 19 produções inéditas aos cinemas brasileiros, além de dois clássicos (“E Deus criou a Mulher”, de Roger Vadim, e “O Desprezo”, de Jean-Luc Godard) e uma série sobre Brigitte Bardot, uma das principais divas do cinema mundial. A programação vai até 22 de novembro. O destaque dos destaques é a passagem pelo Rio de Janeiro do thriller (com elementos de drama) jurídico “Anatomia de uma Queda” (“Anatomie d’Une Chute”), de Justine Triet, que conquistou a Palma de Ouro em maio, apoiado numa atuação avassaladora de Sandra Hüller no papel de uma escritora acusada de assassinato.
Eis as atrações imperdíveis da maratona francófona:
“Anatomie d’Une Chute”, de Justine Triet: Fala-se de uma nomeação ao Oscar para Sandra Hüller, a estrela de “Toni Erdmann” (2016), assim como há uma especulação de uma possível presença do guião da longa na disputa pelas estatuetas da Academia. Swann Arlaud vive o advogado de defesa da escritora que tem seu passado devassado após a morte do marido.
“Chronique d’une Liaison Passagère”, de Emmanuel Mouret (França): Eis “O” filme deste Varilux. Especialista nas fraturas do afeto, o realizador de “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait” (2020) joga no terreno da comédia com desenvoltura. O que ele arranca de Sandrine Kiberlain e Vincent Macaigne evoca Meg Ryan e Tom Hanks em “Slepless in Seatle” (1993). Taquicárdico e falador, o obstetra Simón, vivido por Macaigne, passa a fazer de tudo por um beijinho de uma mulher cheia de certezas chamada Charlotte, vivida por Kiberlain. Por ser casado, ele entra nesse romance cheio de neuroses. Mas a balança amorosa penderá para o acaso.
“Une Belle Course”, de Christian Carion: É jubiloso ver Dany Boon, comediante que vendeu 20 milhões de ingressos com “Bienvenue chez les Ch’tis” (2008) e hoje trabalha com Adam Sandler na Netflix, fazer um drama. E faz isso com garbo. Boon esbanja viço no papel de um taxista incumbido da missão de escoltar uma idosa (Line Renaud) Paris afora, ouvindo as suas histórias de resiliência.

“Orlando, Uma Biographie Politique”, de Paul B. Preciado (França): Livros como “Um Apartamento Em Urano” (2020) e “Eu Sou o Monstro Que Vos Fala” (2022) fizeram deste cineasta estreante um nome literário por trás da afirmação identitário dos corpos não binários. Por trás das câmaras, Preciado afirma a sua condição de trans, num diálogo – entre narrativa documental e o ensaio – com a obra de Virginia Wolf. Ganhou o Teddy (premiação queer de Berlim) e o prémio especial da mostra alemã Encontros. A montagem é um achado. O filme ganhou o prémio LGBTQIPA+ Félix de Melhor Narrativa Documental no Festival do Rio.
“Youssef Salem a du succès”, de Baya Kasmi: Quando o cinema francês quer fazer uma comédia inteligente, não há quem é o segure, vide esta aula de intercâmbios culturais protagonizada por Ramzy Bedia, numa atuação cheia de brio. O seu desempenho como Youssef Salem, um aspirante a autor de best-sellers, é cheio de nuanças. Salem é descendente de uma família de imigrantes argelinos e vive em Paris onde se dedica à escrita. Após uma série de contratempos, ele decide escrever um romance repleto de pigmentos autobiográficos, sobre os tabus que rodeiam a sexualidade no ambiente onde cresceu. Quando o livro bomba nas vendas e no gosto da crítica, ele gera um problema para seus parentes.
“L’Été Dernier”, de Catherine Breillat: Um dos concorrentes à Palma de Ouro deste ano, este drama é um remake do filme escandinavo “Rainha de Copas” (2019), de May el-Toukhy, repaginado agora pela realizadora de “Romance x” (1999). Léa Drucker tem uma atuação impecável. Ela vive Anne, uma advogada especializada em violência sexual contra menores. Ao conhecer o filho de 17 anos do seu atual parceiro, ela inicia um relacionamento com ele. Ao fazê-lo, corre o risco de pôr em risco a sua carreira e desmembrar a família.
“Le Nouveau Jouet”, de James Huth: Nova e deliciosamente incorreta versão de “Le Jouet”, comédia francesa de 1976, esta produção traz Daniel Auteuil na pele do homem mais rico da França. Ao abrir uma seção de brinquedos na sua loja, ele comunica ao seu mimado filho quepode escolher o que mais desejar como presente de aniversário. E o miúdo escolhe como novo brinquedo Samy, o vigia abilolado da loja, vivido por Jamel Debbouze.
“Ernest et Célestine: Le voyage en Charabie”, de Julien Chheng e Jean-Christophe Roger: Nesta trama animada, derivada da literatura da artista plástica e escritora belga Gabrielle Vincent, Ernesto leva a sua amiguinha Celestina para visitar o seu país de origem, Charabie, a fim de arranjar o seu violino. Esta terra exótica é o lar dos melhores instrumentistas do planeta e a música enche constantemente o ar de alegria. Porém, ao chegarem, os dois heróis descobrem que todas as formas de melodia foram proibidas no local, em decorrência de uma lei arbitrária.
“Revoir Paris”, de Alice Winocour: Conhecida por filmes centrados na resiliência feminina, como “Augustine”, de 2012, Alice transporta para o seu mais recente exercício autoral os horrores pessoais. Ela revive os atentados de 13 de novembro de 2015. Na data em questão, terroristas associados ao Estado Islâmico dispararam contra o público em diversos espaços de Paris. No guião, a cineasta aborda o incidente a partir das angústias existênciais de uma mulher, Mia (Virginie Efira, de “Benedetta”), três meses depois da violência num restaurante. Ela continua traumatizada e incapaz de se lembrar dos acontecimentos daquela noite. Numa tentativa de seguir em frente, ela começa a investigar as suas memórias e a retraçar os passos, descobrindo segredos daquele pesadelo.

