A dupla Ernest & Celestine, cujo primeiro filme foi nomeado a um Óscar®, está de regresso aos cinemas para uma nova aventura, com forte dimensão política.
Perfeito na sua construção para todas as idades, das crianças aos adultos, a nova aventura do urso Ernest e da roedora Celestine leva-nos a Charabie, o país do primeiro. Esta terra exótica, repleta de música, é o lar dos melhores músicos do mundo, mas ao chegarem ao destino, os dois heróis descobrem que toda e qualquer forma de música está banida há vários anos. Para eles, a vida sem música é impensável e, juntamente com os seus amigos e um misterioso bandido mascarado, a dupla têm de dar o seu melhor para trazer de volta a música e a felicidade à terra dos ursos.
Foi em Paris, na semana passada, que nos sentámos à mesa com a dupla de realizadores de “Ernest & Célestine: A Viagem em Charabie”, Jean-Christophe Roger e Julien Chheng, os quais nos falaram dos desafios que encontraram para executar esta nova pérola do universo da animação.

O primeiro Ernest & Celestine” foi um grande sucesso. Sentiram algum tipo de pressão ao continuarem esse legado e fazerem este novo filme?
Julien Chheng: Sim, sem dúvida. Comecei a minha carreira como animador no primeiro “Ernest & Celestine”. Por isso mesmo conheço muito bem essa equipa, muitos dos quais se juntaram a nós neste segundo filme. Mas queríamos nos afastar o suficiente do primeiro filme para esta nova produção. A história também exigia isso. A mise-en-scène era diferente, o ritmo também. Este era para nós um filme completamente novo.
Jean-Christophe Roger: É verdade que existia essa pressão, mas queríamos aproveitar a ocasião para fazer um filme que nos agradasse e com o qual nos identificássemos. Não hesitamos nem um momento na criação de algo novo, de criar um país que nunca tinha sido desenhado. A nossa abordagem foia de criar algo novo, executando o melhor filme possível dentro da liberdade que tínhamos. Eu e o Julien tivemos a capacidade de discutir as nossas ideias e construir assim uma outra ideia, uma nova obra.
Existe uma forte dimensão política neste “Ernest & Célestine: A Viagem em Charabie”, num período da história do globo em que há um certo regresso às autocracias. Era importante para vocês abordarem esta temática (um país onde a música foi interdita)?
JC: Sim, sem dúvida. Esse elemento estava no guião e através da direção adicionamos todas as influências do mundo atual que queríamos falar. As crianças conseguem compreender certas coisas, a partir do ângulo e informação. Sempre numa forma ligeira.
Existem muitos temas com dimensão política neste filme, como o regresso ao país em que nascemos. Isso foi muito forte para a origem deste projeto. Depois, nesse regresso, vemos que o país tornou-se uma autocracia em que a música é interdita. Abordamos isso com bastante humor e ação, sempre numa toada familiar que permite um diálogo entre as crianças e os pais. Este é um filme que fala de regras impostas pelos adultos e as crianças saem do filme com muitas questões. Isso é apaixonante.
E a escolha da técnica de animação (2D)? Vocês continuam uma tradição…
JCR: Sim, é um pouco quando olhamos para uma pintura ou para a fotografia de uma pessoa. Existe uma diferença. E essa diferença está nas emoções que sentimos ao olhar para cada um dos casos.
Quando olhamos para uma pintura de Van Gogh, as emoções são diferentes daquelas quando olhamos para uma fotografia. Nós sentimos que através do cinema de animação e o 2D existe algo que passa do desenho que é diferente se fosse em 3D. O 3D pode ser muito atraente para as crianças, mas existe igualmente uma emoção artística muito particular quando um animador desenha uma personagem em movimento. Escolhemos assim essa forma de expressão para este filme, pois isso transmite sensações muito específicas.
Um filme de animação pode demorar largos anos a ser feito. Com a situação atual do cinema, e a massificação do streaming, creem que existe futuro para a animação no grande ecrã?
JC: Existe um lado bom e mau nesta questão do streaming. Sempre vivemos na História do Cinema e da animação ciclos bons e maus. Isso levou permanentemente os realizadores e produtores a questionarem-se e a fazerem filmes realmente originais, bem feitos e que atraíssem público. Para mim, hoje em dia, quando um filme de animação chega ao cinema tem de realmente ser uma proposta muito forte. Terá forçosamente de ser um trabalho original e, paralelamente, tecnicamente muito bom. Para este filme, quer a técnica escolhida, quer as cores, tinham uma marca, uma assinatura de originalidade. O “Ernest & Célestine: A Viagem em Charabie” é diferente do que se faz hoje em dia em 3D. A nossa arma para existir é sermos diferentes, únicos. São estas diferenças que forçam os criadores a se afirmarem.

E esta guerra do streaming, de enorme concorrência entre Amazon, Netflix, Disney, HBO, etc, mudou a indústria da animação? Sentem essa mudança?
JC: Sim, existem múltiplos projetos e é difícil ter as pessoas mais talentosas neles. No nosso caso tivemos a sorte de ter connosco a equipa que queríamos, mas hoje em dia os artistas têm muito trabalho de animação por onde escolher. Isso é bom.
JCR: Simultaneamente, existe uma maior probabilidade de certos projetos, que não encontraram espaço na indústria do cinema, serem feitos. Com esta realidade, temos de procurar uma maior qualidade e originalidade nas nossas propostas para chegar ao cinema.
JC: Convém dizer que para este filme tivemos imensa liberdade criativa, mas as plataformas servem principalmente para dar oportunidades a jovens criadores. Nas plataformas existe uma outra questão, digamos problemática, pois os projetos podem ser cancelados por uma mudança do mercado. E a demanda de originalidade depende sempre dos clientes dessa plataforma. Liberdade plena nas plataformas só para criadores já firmados na indústria, pois essas plataformas precisam do nome dessa pessoa para cimentarem a sua marca.
E qual foi o maior desafio que encontraram para fazerem este “Ernest e Célestine: A Viagem em Charabie”?
JC: A história.
JCR: Sim, foi isso. Encontrar uma história totalmente credível para estas personagens. Falamos de conflitos familiares (com o pai) e sociais (com o país). As personagens têm de fazer escolhas importantes. E quando fazemos cinema para crianças, as escolhas destas personagens têm de ser credíveis. Paralelamente, a forma e o ritmo do filme tinha de ser moderna para que o espectador não se aborreça, mas divirta-se com as sequências e a aventura. E tínhamos de, a tudo isto, juntar a música, que é extremamente importante.
A música é essencial para o filme. Como trabalharam esse elemento?
JC: Trabalhamos com o Vincent Courtois, que era o compositor do primeiro “Ernest e Célestine” e do projeto para tv (Ernest et Célestine, la collection) realizado no passado. O “Ernest e Célestine: A Viagem em Charabie” era um grande desafio para um músico e o Vincent estava muito entusiasmado com isso. A música tinha que contar a história das personagens, mas também mostrar a interdição da música e a sua libertação. O Vincent reuniu múltiplas influências, da música dos Balcãs à oriental, para entregar um trabalho – que começou na criação dos storyboards– fortemente identitário. Um trabalho de verdadeira assinatura autoral.
Quando falamos de premiações, como os Oscars, existe claramente um domínio norte-americano no cinema de animação. Claro que ocasionalmente temos um filme de Miyazaki ou um Ocelot na corrida, mas Disney, Pixar e outros que tais dominam. Vêem o “Ernest e Célestine: A Viagem em Charabie” numa eventual corrida a este tipo de prémios? Estão preparados para as mil e uma promoções que têm de fazer ao filme para lá chegar?
JC: Bem, seria formidável. Como em todos os festivais e competições, as escolhas são sempre muito subjetivas. O importante é que esses prémios, onde naturalmente surgem mais os norte-americanos, trazem uma enorme visibilidade para os filmes.

