Existe uma categoria no cinema que talvez seja mais comercial que estética, com origens na própria indústria, mas bem ao encontro do público, que volta e meia aparece no grande ecrã, e que poderíamos designar por “filme fofo”, o tipo de longa-metragem que brinca com o nosso coração. Podemos afirmar que “Harold and Maude”  (“Ensina-me a Viver”), de Hal Ashby, é o símbolo maior dessa linhagem que nos deu, ainda não há muito tempo, um  Óscar de Melhor Filme: o belo Coda. São crónicas de comportamentos afetivos em que a rotina amorosa dos personagens se vai aprofundando pelo argumento, humanizando escolhas que parecem ser motivadas por certezas racionais ou por disparates da vontade. Cannes, atento a tudo, deu um espaço nobre a essa tradição ao selecionar “Chronique d’une Liaison Passagère” para a seção Première de 2022. E é espantoso que nessa linha se possa encontrar um flime de Emmanuel Mouret, um artesão mais preocupado com o desacerto do que com a alegria. 

Fazem parte da equipa do “querer bem”, um jogo que já vimos repetidamente em Cannes, como no “La Belle Époque”, de Nicolas Bedos; “Quarto 212”, de Christophe Honoré; e, mais recentemente, o genial “Duplo Amor”, de James Gray, também selecionado para o festival em 2008.

Chronique d’une Liaison Passagère” é mais um elemento deste grupo, um filme que é também um estudo sobre os “rituais” de sedução. É uma produção com uma narrativa leve, temperada com humor e cenas lúdicas de carícias e sonhos, não muito distante do registo que vimos naquela que foi a consagração de Mouret com “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait”, um autêntico íman de nomeações César, ainda em 2021. A desenvoltura que apresenta neste terreno,  que para todos os efeitos é o da RomCom – a comédia romântica –, é surpreendente, a avaliar pelo estilo de recorrente azedume que encontramos nos seus filmes. O que ele aqui consegue arrancar de Sandrine Kiberlain e Vincent Macaigne evoca Meg Ryan e Tom Hanks em “You’ve Got Mail (Você Tem uma Mensagem) “(1998).

Com barba desgrenhada, e uma figura taquicardíaca e sem primor, o obstetra Simón, interpretado por Macaigne (naquela que é a sua interpretação mais despojada e inventiva), é como um anti-herói romântico de Woody Allen deslocado de Nova York, uma daquelas pessoas que fala consigo mesmo.  É o tipo de personagem que convida ao riso nervoso quando reparamos nas suas inseguranças ao tentar conjugar o verbo “eu quero” numa primeira pessoa de um singular, cheio de reticências amorosas

No enredo, o protagonista – casado e pai – fica loucamente apaixonado por uma mulher empoderada, mãe solteira e cheia de certezas, chamada Charlotte, interpretada pela campeã de bilheteria Kiberlain. Durante a sessão da longa-metragem na mostra Cannes Première, o Palais des Festivals vinha abaixo com público a rir com os dois, pela cumplicidade que os seus protagonistas demonstram em cena, num ambiente a fazer lembrar “Barefoot in the Park”, a peça homônima de Neil Simon.

O título – “Chronique d’une Liaison Passagère” – traduz um acordo entre os dois para terem relações sexuais sem culpa: vai ser passageiro. Ou devia. Mas, não é. E a delicadeza com que Mouret, na realização, explora o modo nada “barthesiano” com que o discurso amoroso se fragmenta é envolvente. Nada no filme se rende ao cinismo dos tempos atuais, com o cuidado de não parecer ingênuo. 

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
chronique-dune-liaison-passagere-abram-alas-para-a-docura A desenvoltura que apresenta neste terreno  que para todos os efeitos é o da RomCom – a comédia romântica – é surpreendente, a avaliar pelo estilo de recorrente azedume que encontramos nos seus filmes. O que ele aqui consegue arrancar de Sandrine Kiberlain e Vincent Macaigne evoca Meg Ryan e Tom Hanks em “You’ve Got Mail (Você Tem uma Mensagem) “(1998).