«The Last Summer» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Num dos momentos chave deste filme, uma jovem adolescente – enfurecida com o seu interesse amoroso – diz-lhe que “pela primeira vez na sua vida começava a baixar a guarda” e que ele a enganou, traindo a sua confiança. Este momento – de uma jovem a falar como se tivesse 50 ou 60 anos – define este The Last Summer, a enésima produção que acompanha jovens na fase de transição do liceu para a faculdade, seguindo de perto todos os seus (não) problemas de classe privilegiada, transformados em “horrores” de vida. Há por aqui amores, desamores, finais e inícios de relações, sonhos de vida e muitas balelas para encher o catálogo da Netflix de mais uma comédia romântica derivativa e estupidificante.

Profundamente conservador, daquele jeito que só os filmes americanos conseguem ser, ao transformar o sexo como uma viagem à lua e a assumir – o amor e outras tangas – pela normatividade, The Last Summer tenta dar um ar de liberal e inclusivo num picar do ponto a vários temas contemporâneos sem qualquer ramificação séria para a sua narrativa.

Na verdade, já vimos este filme umas quinhentas vezes desde os anos 80, com populares e nerds afastados e estereotipados aos limites, jovens sonhadores que se acham únicos na existência, famílias disfuncionais, relacionamentos ocos e aparentes engatatões que afinal das contas são virgens.

É todo um conjunto de fórmulas sobre fórmulas, onde ainda se faz um retrato absolutamente ridículo desta geração, como o de uma rapariga com a ambição de estudar cinema em Nova Iorque, mas que não sabe mexer em programas de edição, que acha que quem sabe o nome de quatro filmes dos irmãos Coen “está a armar-se” em sabichão, mas que espera ganhar um festival de cinema para poder entrar na faculdade.

É toda uma simplificação da vida ao estilo Lady Gaga, daquelas em que apenas uma pessoa num milhão triunfa, mas se vende a todos que podem ser eles, os portadores do prémio da lotaria da vida. É o sonho americano reloaded e simplificado para manter a máquina ideológica do Tio Sam a funcionar.

O resultado é um asco manipulador e perigoso na venda de ilusões e na validação de não problemas como verdadeiros dramas existênciais. Um lixo coming-of-age todo embrulhado numa realização robotizada e sem qualquer marca distinta.


Jorge Pereira

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