Depois de se estrear em 2016 com “Life and a Day”, a história da filha mais nova de uma família que, ao decidir se casar, provoca um rebuliço nos parentes, o iraniano Saeed Roustayi conquistou o primeiro reconhecimento internacional com “Blockage”, drama que escreveu e foi exibido em Portugal no FEST em Espinho.
Foi, porém, através de “A Lei de Teerão”, filme policial que se transforma em drama prisional e filme de tribunal, que o cineasta firmou o seu nome na nova vaga de cineastas iranianos, todos eles saídos da label Iranian Independents, onde já constavam nomes como Shahram Mokri e Mohsen Gharaei (que realizou Blockage), e recentemente se juntou Houman Seyedi (World War III).
Foi já este ano que Roustayi deslumbrou Cannes, com a sua terceira longa-metragem, “Os Irmãos de Leila”, em competição à Palma de Ouro, um filme que acompanha uma família em plena crise e à beira de um ataque de nervos quando a figura patriarcal decide aceitar o convite de um primo e doar 40 moedas de ouro. Com capacidade monetária reduzida, mas o orgulho abalado à espera de reconhecimento alheio, pouco interessa a esse homem se a oferta coloca em risco o frágil património que detém, e ainda menos o que poderá deixar como legado aos 4 filhos e à filha, Leila, que dá título ao filme.
Foi na Croisette que nos sentámos à mesa com Roustayi, o qual falou deste seu mais recente projeto e como ele se insere no seu cinema.
O Irão é sempre uma personagem nos seus filmes, com maior ou menor visibilidade. E até nas invisibilidades. Como lida com essa personagem?
Se o que quer dizer é que acompanhamos uma família que se sente inserida na sociedade do Irão, obrigado. Era essa a minha intenção. Estamos só a falar de uma família, mas ela dá-nos um olhar global da sociedade iraniana. Foi por essa razão que comecei na fábrica com os problemas que afetam várias pessoas, mas seguimos só uma a partir daí, Na verdade, podíamos seguir outra família que certamente não estaria numa situação melhor que esta.
Nos seus filmes – “Life and a Day”, “Blockage”*, “A Lei de Teerão”, “Os Irmãos de Leila” – existe sempre um elemento de suspense e tensão, mas as suas obras nunca se afirmam como exercícios de género, preferindo uma rota diferente. O que o move no cinema?
Os meus filmes têm sempre esse elemento, mas a resolução é normalmente imediata. Apenas no “A Lei de Teerão” não é assim. A verdade é que o que me interessa principalmente são as relações humanas e as relações intrincadas familiares. É esse o cinema que me interessa e faço. No “A Lei de Teerão” existe sim uma inflexão para o thriller e multiplicam-se os elementos de suspense, pois para mim essa era a melhor maneira de tocar na figura ausente. É muito mais conveniente para o espectador acompanhar esta personagem desaparecida.
Anteriormente, disse que se inspirava bastante na tragédia grega para o seu cinema. Que outras influências tem?
Aprendi cinema através da vida e aprendi a viver através dos filmes. Os meus filmes são feitos a partir do que a vida me dá. Até os meus diálogos vêm de pessoas e situações que testemunhei ao meu redor. É isso que alimenta o meu cinema. Quando estou em baixo, vejo um filme. Quando me sinto esperançoso, vejo um filme. É através do cinema que perco e recupero a fé para seguir com a minha vida . Para mim, existe uma grande relação de reciprocidade entre cinema e vida.
E como é lidar com tantas personagens num filme, criar ligações entre eles e o seu trabalho com os atores? Ou seja, acompanha-os no trabalho de textos definidos à partida ou dá espaço para eles acrescentarem algo?
Acima de tudo, tento dar a cada uma dessas personagens uma forma única. Cada um com características muito próprias e falas independentes uns dos outros. As ações de um, não podiam ser repetidas por outro. Todos são únicos e específicos. São esses os meus princípios na escrita e criação das personagens.
Quando escrevo já tenho os atores em mente e trabalho com eles imediatamente durante a escrita do guião. Depois de terminar o argumento, tenho longos ensaios com eles, individualmente e em conjunto. É aí que definimos a praticidade e eficácia do guião. Quando começamos a filmar, seguimos apenas o guião.
Este é um filme cheio de diálogos, palavras, gritos e são eles que movimentam a ação e o filme. Porquê essa opção? Existe algum tipo de paralelismo com a sociedade iraniana na histeria generalizada que assistimos a partir de determinado momento?
Os diálogos multiplicam-se no filme por causa da tensão. Sempre desejei filmar este filme em locações muito limitadas. O set que usámos tinha cerca de 100m2, pois queria este nível de proximidade que as pessoas estão a viver. Não existe distância e privacidade entre eles, e não há forma de escaparem a isso. Eles veem-se sempre em planos muito fechados. Não existe intimidade, algo que os coloca em permanente tensão. Por isso mesmo eles falam, gritam, esperneiam para que os outros entendam o seu ponto de vista. Não conseguem o que querem, mas expressam a sua tensão.
A histeria não representa em nada a sociedade iraniana, pois não sou uma pessoa de simbolismos. Acima de tudo queria autenticidade para as cenas.
A figura da irmã, que é uma personagem tão ativa e progressiva, poderia seguir a sua vida e deixar aquela família para trás. Mas ela não faz isso…
Ela não os queria deixar para trás. Ela quer ajudar a família e fazer algo por todos eles. Não quer ser alguém que os abandona e segue com a sua vida. O que mostrava no meu primeiro filme é que podemos pensar que o que acontece às pessoas parte das nossas próprias más decisões. Mas aqui, apesar das suas ações arriscadas, qualquer decisão que tomem depende sempre de fatores externos, de coisas que saem do seu controle.
As crises no Irão multiplicaram-se da noite para o dia e não há nada que possas fazer, qualquer que seja a decisão que tomes. És engolido completamente por fatores externos.
Sobre isso, quão importante era mostrar aquele momento em que o Donald Trump aparece na televisão? Como esse momento reflete a situação internacional do Irão e a crise generalizada?
Algo muito impressionante no Irão é a ligação direta – muito nefasta – entre as condições de vida das pessoas e as decisões tomadas a nível internacional. Essas figuras internacionais influenciam diretamente a vida de todos. As sanções têm um impacto imediato na inflação, que tem um comportamento muito variável diariamente.
Cada vez que uma destas figuras internacionais diz qualquer coisa sobre o Irão, tem um impacto imediato na economia e nas pessoas. Claro que existem erros e más decisões do governo do Irão, mas o bloco de sanções ao Ahmadinejad e depois impostas pelo Trump fazem parte do dia a dia das pessoas e das suas conversas. Queria mostrar isso, algo que afeta o quotidiano das pessoas. São elas quem mais sofrem com as sanções.
Existem sanções, bombardeamentos e agora tweets. São esses tweets contra o Irão novas formas de bombas? Existe nessa abordagem aos Tweets uma crítica às redes sociais?
A cena do filme a que se refere é bastante óbvia. Tínhamos algo que estava com o valor de 6 milhões. Depois houve um discurso na televisão e o preço subiu para 7 milhões. E depois foi lançado um tweet, que fez subir para 8 milhões. O que a cena demonstra é que o que está a acontecer é mais grave do que aconteceria numa guerra com bombas.

