É com uma frase atribuída a Mark Twain que arranca uma das maiores pérolas da seção Orizzonti de Veneza, “World War III”, um objeto cinematográfico que transita com toda a fluidez entre o drama social, a comédia negra e o filme de vingança, e que marca a sexta incursão do ator e realizador iraniano Houman Seyyedi nas longas-metragens.
“A História não se repete, mas rima frequentemente” dá o pontapé de saída a um filme que parte do pessoal para atingir uma esfera universal (mudam-se os tempos, mantêm-se as formas de poder absoluto vertical), jogando-se permanentemente com as expetativas do espectador ao se estabelecerem paralelismos entre os factos narrados em “World War III” e um filme sobre a Segunda Guerra Mundial dentro dele mesmo.
Shakib (o absolutamente estonteante Mohsen Tanabandeh, antagonista em “Um Herói”) é um trabalhador à jorna que diariamente procura trabalho, como tantos outros, num local repleto de tubos de cimento (como aqueles que víamos em “Just 6.5”, onde pernoitavam os sem-abrigos). O seu rosto carrancudo e os olhos “apagados” escondem um homem fragilizado que há anos perdeu a esposa e o filho num terremoto, mas são ocasionalmente iluminados quando inicia um relacionamento com Ladan (Mahsa Hejazi de “Zalava”), uma trabalhadora do sexo surda e muda.
Depois de ser contratado para ajudar numas obras num local onde está a ser filmada uma produção cinematográfica sobre a II Guerra Mundial, ele é obrigado a fazer de figurante nesse filme. Porém, o realizador vê qualquer coisa nele e, logo após o ator que interpreta Hitler sofrer um ataque cardíaco, ele é repescado para assumir esse papel.
Se o trabalho para o qual foi contratado inicialmente (um faz tudo, pago ao dia) já nada tem a ver com o que desempenha agora (um ator), as suas parcas condições de vida mantêm-se intactas, tal como a estrutura das relações de poder, pelo menos até o mudarem para uma habitação com as marcas do Terceiro Reich, isto após lhe negarem pernoitar no set da “câmara de gás”. É nessa altura que Shakib recebe a visita de Ladan, em fuga de um proxeneta. Ela pede-lhe guarida, algo a que ele acede com reservas, pois está impedido de ter visitas. O problema é que escondida nessa habitação dos olhares da produção, tal como Anne Frank se refugiava dos nazis nos tempos do Holocausto, Ladan vai acabar por ser uma vítima trágica, levando Shakib a atingir o seu ponto de ruptura e entrar numa espiral de revolta e caos com consequências inimagináveis.
Houman Seyyedi escolhe o rumo da comédia negra repleta de dramas sociais e pessoais nos primeiros momentos, mas num ritmo imparável de transições orgânicas entre géneros, o cineasta acima de tudo desconstrói a personagem de Shakib, reconstruindo-o posteriormente de tal forma que ele acaba por invocar uma “Solução Final” para as injustiças e problemas em que se viu envolvido e abusado.
Claro está que, nessa viagem tensa e sempre imprevisível, Mohsen Tanabandeh é a estrela maior da constelação de Houman Seyyedi, carregando no seu Shakib o peso da dor do passado, a irrelevância no presente, mas uma caricata opção de transformar o seu futuro, mesmo que para isso ele se transforme em algo ou alguém muito diferente do que era.
Por isso mesmo, “World War III” é mesmo um dos grandes filmes do Festival de Veneza e certamente fará um interessante percurso pelos festivais de cinema pelo mundo fora.



















