Saeed Roustayi: “Aprendi cinema através da vida e aprendi a viver através dos filmes”

“Os Irmãos de Leila” chega aos cinemas a 8 dezembro

(Fotos: Divulgação)

Depois de se estrear em 2016 com “Life and a Day”, a história da filha mais nova de uma família que, ao decidir se casar, provoca um rebuliço nos parentes, o iraniano Saeed Roustayi conquistou o primeiro reconhecimento internacional com “Blockage”, drama que escreveu e foi exibido em Portugal no FEST em Espinho.

Foi, porém, através de “A Lei de Teerão”, filme policial que se transforma em drama prisional e filme de tribunal, que o cineasta firmou o seu nome na nova vaga de cineastas iranianos, todos eles saídos da label Iranian Independents, onde já constavam nomes como Shahram Mokri e Mohsen Gharaei (que realizou Blockage), e recentemente se juntou Houman Seyedi (World War III).

Foi já este ano que Roustayi deslumbrou Cannes, com a sua terceira longa-metragem, “Os Irmãos de Leila”, em competição à Palma de Ouro, um filme que acompanha uma família em plena crise e à beira de um ataque de nervos quando a figura patriarcal decide aceitar o convite de um primo e doar 40 moedas de ouro. Com capacidade monetária reduzida, mas o orgulho abalado à espera de reconhecimento alheio, pouco interessa a esse homem se a oferta coloca em risco o frágil património que detém, e ainda menos o que poderá deixar como legado aos 4 filhos e à filha, Leila, que dá título ao filme.

Foi na Croisette que nos sentámos à mesa com Roustayi, o qual falou deste seu mais recente projeto e como ele se insere no seu cinema.

Se o que quer dizer é que acompanhamos uma família que se sente inserida na sociedade do Irão, obrigado. Era essa a minha intenção. Estamos só a falar de uma família, mas ela dá-nos um olhar global da sociedade iraniana. Foi por essa razão que comecei na fábrica com os problemas que afetam várias pessoas, mas seguimos só uma a partir daí, Na verdade, podíamos seguir outra família que certamente não estaria numa situação melhor que esta.

Posso começar por dizer que filmes como  A Lei de Teerão e este trabalham sempre personagens que parecem estar numa corrida contra o tempo. O que o atrai neste lado thriller dos seus filmes e, ao mesmo tempo, nas questões familiares?

Sou um grande fã de thrillers, mas aquilo que realmente me interessa são as relações humanas. As relações familiares, mas também as relações complexas entre pessoas.

Talvez A Lei de Teerão seja um caso um pouco diferente, mas em geral eu não diria que os meus filmes são verdadeiros thrillers, mesmo que exista suspense. Normalmente o suspense resolve-se bastante depressa. O que me interessa realmente é explorar as relações humanas. Esse é o cinema que gosto de fazer.

No caso de Os Irmãos de Leila, esse aspeto de suspense ajudava-me sobretudo a trabalhar a figura ausente. Há uma personagem ausente e, precisamente por não estar presente, o suspense torna-se uma maneira prática de construir essa figura e permitir que o espectador se concentre noutras dimensões da história.

Porque era importante mostrar no seu filme um momento em que Donald Trump aparece na televisão? Como é que a situação do filme reflete a crise económica e a desvalorização do dinheiro no Irão?

Uma coisa muito marcante no Irão é a relação extremamente directa entre a vida das pessoas e os políticos internacionais. Essas figuras internacionais estão presentes no quotidiano das pessoas, nas conversas diárias.

As sanções estão em todo o lado. A inflação diária, que afeta imediatamente a vida das pessoas, está ligada às decisões, aos comportamentos e às declarações dessas figuras internacionais.Claro que também existem erros do governo local, mas as sanções começaram com Ahmadinejad e houve uma segunda vaga durante Trump.

As pessoas falam disto todos os dias, como se fizesse parte da vida delas. Por isso interessava-me incluir isso como algo completamente banal, mas profundamente ligado à vida das pessoas.

O dano causado pelas sanções e pela crise internacional atinge primeiro as pessoas comuns. São elas que sofrem as consequências.

E numa cena de Trump, menciona tweets e inflação. Estava também a fazer uma crítica às redes sociais?

Não exatamente. A fala diz que algo custava um valor, Trump fez um discurso e o preço aumentou; depois Trump escreveu um tweet e o preço voltou a subir.

E depois a personagem diz: “Se ele tivesse mandado uma bomba, talvez fosse menos grave.”

A ideia é mostrar que a situação económica é pior do que uma guerra. Há países em guerra cuja situação económica parece melhor.

Uma das cenas mais fortes do filme é a cena do ouro, quando eles o vão comprar. Isso ajuda quem não conhece o Irão a perceber como a vida pode mudar de um dia para o outro. Queria perguntar sobre a figura do patriarca e esse ritual ligado ao ouro. Isso existe mesmo no Irão urbano moderno?

Sim, isso existe. Não sei bem como justificar, mas existe realmente. O filme mostra isso.

O Irão parece quase uma personagem invisível do filme.

Fico muito feliz se isso passar para o espectador, porque trabalhei muito para isso.

Por exemplo, em Os irmãos de Leila, quando mostro trabalhadores na fábrica, a ideia era percebermos que seguimos uma personagem, mas que os outros trabalhadores provavelmente vivem situações iguais ou piores.

Queria que o espectador sentisse uma visão geral da sociedade iraniana.

O contraste entre a vida miserável da família e o luxo absurdo do casamento é muito forte. Isso é real no Irão?

Sim. Porque aquele casamento é uma aparência. É completamente baseado em ostentação e fachada.

O problema é precisamente esse: as pessoas querem manter uma aparência social mesmo quando tudo está a desmoronar-se.

Na conferência de imprensa falou muito da personagem feminina principal. É uma mulher muito forte, que sustenta praticamente a família inteira. Porque é que ela não abandona aquela situação?

Se ela quisesse, podia ir-se embora. Mas, como vemos no filme, ela não quer abandonar a família. Há um momento em que ela fala do homem por quem estava apaixonada e diz que ele voltou para a ex-mulher e que ela não quis voltar a vê-lo. Isso mostra que ela decidiu ficar e tentar organizar aquela família.

Até certo ponto podia dizer-se, como em Forever and a Day (2016), que às vezes as pessoas também cometem erros e sofrem as consequências desses erros. Mas hoje já não se pode reduzir tudo a isso. Mas xiste uma pressão exterior que afecta directamente a vida das pessoas.

Quando os preços aumentam diariamente, quando tudo muda de um dia para o outro… já não estamos a falar de uma inflação de 10%. Em poucos dias o petróleo aumentou 300%. Algo que custava 30 mil passou a custar 140 mil.

Já não há muito que as pessoas possam fazer. Não depende apenas dos erros individuais. Mesmo que as pessoas não cometessem erros, as circunstâncias exteriores empurravam-nas para situações como as  que vemos no filme.

Li no dossier de imprensa que se inspirou em tragédias gregas e em Shakespeare. Mas queria saber se houve influências vindas do cinema, iraniano ou internacional.

Em geral, faço filmes a partir da vida. E aprendo a viver através dos filmes.

Tudo o que existe nos meus filmes pode ser encontrado numa rua da cidade. Todas aquelas frases podem ser ouvidas na boca das pessoas.

Mas é através dos filmes que aprendo a viver melhor. Quando estou desesperado vejo certos filmes, quando estou feliz vejo outros. Aprendo com os filmes como reagir, como não perder a esperança, como acreditar em certas coisas, como voltar a acreditar.

Portanto, os meus filmes nascem da realidade.

Num filme com tantas personagens diferentes, é difícil dar identidade e voz próprias a cada uma?

Não acho difícil, porque acredito que cada pessoa tem características próprias, uma identidade própria, uma voz própria.

Os diálogos da Mahnaz, por exemplo, só podem sair da boca dela. Não poderiam sair da boca de outro. Tentei respeitar essas regras básicas de escrita: que cada personagem tenha a sua própria linguagem e comportamento.

Outra coisa que chama à atenção é que as personagens estão constantemente a gritar. O filme vive numa tensão permanente.

Filmámos numa casa verdadeira, muito pequena, talvez com menos de cem metros quadrados. Queria mostrar que aquelas pessoas não têm privacidade. Estão constantemente em cima umas das outras. Não existe distância suficiente entre elas para que possam respirar.

São obrigadas a viver em “close-up” permanente umas com as outras. Isso cria tensão.

E a vida delas já é naturalmente tensa. As pessoas vivem preocupadas, ansiosas e estressadas. Por isso, às vezes gritam, porque estão a tentar fazer-se ouvir e impor as próprias emoções.

Podemos dizer que esse ambiente histérico e nervoso representa o estado atual da sociedade iraniana?

Não gosto muito de símbolos. Não acredito muito em simbolismos. Eu tento apenas mostrar a realidade como ela é.

Os atores estão sempre extraordinários nos seus filmes. Qual é o seu método de trabalho com eles?

Quando escrevo já estou a pensar nos actores. Normalmente trabalho com os atores para quem escrevo.

Depois ensaiamos muito. Em Os Irmãos de Leila ensaiámos durante dois meses antes da rodagem. Todos os dias.

Ensaios coletivos, individuais, em pares. Falávamos muito, analisávamos muito as cenas, sobretudo as mais difíceis. Mas no resultado final quero que tudo pareça natural.

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