“O Que Vemos Quando Olhamos Para o Céu?”: Fábula do novíssimo cinema da Geórgia

(Fotos: Divulgação)

Evocava-se muito Michel Gondry, realizador de “Eternal Sunshine of The Spotless Mind” (2004), no curso das exibições de “What Do We See When We Look at the Sky?” (O Que Vemos Quando Olhamos Para o Céu?) na Berlinale de 2021, de onde a produção georgiana saiu coroada com o Prémio da Crítica dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci). A analogia vinha de um tom fabular e de uma indisfarçável “artesania” (o que poderia ser resolvido com efeitos visuais era solucionado “à antiga”, com trucagens de câmara, com jogos de lentes, com prestidigitações) tal como o realizador francês aplica. Mas numa conversa com o C7nema, via Zoom, o realizador Aleksandre Koberidze, responsável por dar ao recente cinema da Geórgia (o mesmo que nos abrilhantou em 2020 com uma gema do quilate de “Beginning“) confessa não ter conexões com o herdeiro pós-moderno de Jacques Tati nem com fabuladores mais pop. As suas raízes estão fincadas numa lógica histórica da sua terra.

Estivemos ligados a um bloco, o soviético, que experimentou muito, que produziu muitas imagens, nos seus tempos de glória e, em paralelo ao que a URSS lançou, prosperamos nos ecrãs, num período de euforia de cineastas que fizeram uma ou duas experiências muito particulares, livres, de retumbância internacional. Cineastas que filmavam livremente. Foi assim até que o colapso do regime criou uma paralisia na nossa produção, onde pouquíssimos longas-metragens foram rodadas até bem recentemente, quando houve uma movimentação para que algo de novo acontecesse, graças às novas tecnologias digitais. Mas mesmo nesse regresso, sempre preservamos essa marca de cultivar a existência de filmes muito distintos entre si, celebrando a hegemonia da autoralidade”, disse Koberidze ao C7nema, numa conversa anterior à invasão da Ucrânia.

O Que Vemos Quando Olhamos Para o Céu?

Mas a sua voz é uma das expressões de lucidez contra a guerra. O seu filme é contra a violência, numa celebração do amor, em forma de um minicurso de História, que reflete a potência audiovisual da sua pátria.  Das 15 repúblicas reunidas sob a égide da União Soviética, entre 1922 e 1911, a Geórgia de Koberidze foi um dos países que mais preservaram o legado do grande cinema eslavo do século XX, mesmo com os rearranjos geopolíticos daquele território, avançando as suas pesquisas audiovisuais para além dos códigos realistas e documentais do passado. De lá saíram vozes autorais como Mikhail Kalatozov (vencedor da Palma de Ouro de Cannes, em 1958, por “The Cranes Are Flying”); Nutsa Gogoberidze (a primeira mulher daquele país a realizar filmes, conhecida por “Bulba” (1930); e Serguei Paradjanov (realizador do premiado “The Legend of Suram Fortress”). Mas, nos últimos dois anos, vitaminada por uma retrospectiva (mundialmente badalada) no DocLisboa, em 2020, a indústria georgiana não apenas foi (re)descoberta como anda emplacando vitórias nos grandes festivais da Europa e também no streaming. Primeiro foi o já citado “Beginning” (Dasatskisi), da estreante Dea Kulumbegashvili, que saiu de San Sebastián com a Concha de Ouro e os prémios de realização, argumento e atriz, em 2020. Depois veio a love story de tons mágicos de Koberidze, que encantou a Berlinale há um ano, mostrando a cidade ribeirinha de Kutaisi.

O que tento neste filme é deixar uma cidade falar, com todos os seus ruídos e com todo o seu silêncio. É uma forma de se prestar atenção ao mundo ao nosso redor e às pessoas que o habitam”, disse Koberidze.
Na Kutaisi do cineasta, o clima ameno do verão e a febre do Campeonato do Mundo aquecem a rotina dos seus moradores. Depois de se esbarrarem algumas vezes por acaso, os planos da farmacêutica Lisa (Ani Karseladze) e do jogador de futebol Giorgi (Giorgi Bochorishvili) são frustrados quando acordam magicamente transformados, sem meios de se reconhecerem. Da noite para o dia, mudam de forma, constantemente, sem descobrir como reverter esse estado, capaz de refletir as transformações sociais e políticas daquela nação.
O que me interessava falar aqui era a incapacidade que as pessoas têm hoje de repararem no outro, de tirarem os olhos dos smartphones e atentarem para o esplendor humano de uma cidade e das conexões que podem acontecer. Essa é a magia que me interessa, aplicada à realidade de um país como a Geórgia”, diz o realizador, que no currículo tem filmes como “Colophon” (2015).

Batizada “Ras vkhedavt, rodesac cas vukurebt?” no seu país de origem, o filme de Koberidze tem uma narrativa que se guia pelo inusitado, pela surpresa, beirando a fantasia, mas sem abrir mão de um tom de crónica do quotidiano. Mesmerizante, a fotografia de Faraz Fesharaki abusa do colorido de aparência sépia ao retratar tanto espaços abertos quanto ambientes íntimos. “Há um universo de angústias ao nosso redor”, diz o realizador, que diz se reportar ao cinema mudo como principal referência, em especial os filmes de Buster Keaton (1895-1966). “Todas as ideias que hoje operacionalizam o cinema estão em Keaton, testadas décadas atrás, a partir da maneira como ele brincou com os códigos da cinemática”.

Prestes a estrear nos cinemas em Portugal, “What Do We See When We Look at the Sky?” pode ser visto no Brasil na Mubi.

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