Vencedor do Festival do Rio 2021, “Medusa” de Anita Rocha Silveira foi um dos filmes que mais deu que falar quando estreou em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, em julho passado. Passou por Roterdão e agora chega ao IndieLisboa.
Passado num futuro distópico, e seguindo uma rota entre o drama, a fantasia e o horror, Anita Rocha Silveira conta a história de uma sociedade onde a pressão sobre as mulheres na busca da perfeição é acentuada por verdadeiras milícias que tentam controlar tudo ao seu redor. Porém, a vontade das mulheres gritarem e saírem do padrão exigido vai chegar e no centro do “furacão” da mudança vamos encontrar Mariana (Mari Oliveira), uma jovem que juntamente com as amigas de uma igreja neopentecostal sempre tentou resistir à tentação e apregoar a virtude.
Foi em Cannes que nos encontramos com a jovem Mari Oliveira, a qual estava extasiada por estar ali presente com “Medusa”, a sua segunda colaboração com Anita Rocha Silveira, depois de “Mate-me Por Favor”, estreado em Veneza em 2015. “É complexo neste momento estar aqui, num momento muito grave do Brasil, mas temos de nos dar este direito de ser felizes, entendendo a complexidade das coisas e falar do que está a acontecer.”, disse-nos a jovem de 24 anos, acrescentando que era fã de Spike Lee [presidente do júri] e que adoraria conhecê-lo: “Eu sou da Zona Norte do Rio de Janeiro, que não é a parte da praia, mas da favela. Nunca cogitei estar aqui. Quer dizer, na minha cabeça eu me coloco onde quiser, mas o mundo assinar em baixo os seus sonhos, eu estar aqui presente, é muito louco. Surreal.”

Aqui fica, na totalidade, a nossa conversa com Mari Oliveira sobre a sua presença em “Medusa” e os seus planos para o futuro.
Qual foi a maior dificuldade que encontraste para a construção da tua personagem no “Medusa” e como foi o diálogo com a realizadora sobre o filme? O que te disse ela para assumires a personagem da Mari?
Acho que a maior dificuldade, e senti mesmo uma estranheza, foi em relação ao corpo. É um corpo muito diferente do nosso dia a dia, um corpo contido, uma postura quase de reclusão. Uma repressão interna que aparece de alguma forma na nossa postura. Essa parte foi muito difícil, pois não sabemos se isso funcionaria nas telas. Tive também uma questão pessoal, enquanto gravava. Fiquei com muito medo da exposição.
No “Mate-me Por Favor” estava mais protegida, pois havia outras meninas comigo. No “Medusa”, eu sabia que iam ser duas horas e tal só com a minha cara [em cena]. Fiquei com um pouco de receio, pois o que a Anita está a fazer é muito importante. Eu sou uma atriz negra, mas não estou a fazer uma personagem negra, e isso é maravilhoso. O meu problema com a exposição é que questionava se seria suficiente, não por minha causa, pois sou generosa comigo mesma, mas fiquei com medo da reacção das pessoas. Se elas pensavam que eu não seria suficiente e obrigar-me a voltar para o Brasil para fazer as mesmas coisas. Além das oportunidades, existe a necessidade de nos permitir seguir a tentar e a experimentar de nos verem além dos estereótipos.
Resumindo, as duas maiores dificuldades foram: as físicas, de entender qual é este corpo e como torná-lo natural, mesmo sendo muito diferente do meu; e a exposição, que assustou-me muito
Já está habituada a trabalhar com a Ana Rita desde o “Mate-me Por Favor”. Acha que se vai tornar a atriz ‘fetiche” dela e aparecer em todos os seus filmes? (risos)
Tomara (risos). Foi engraçado. Quando ela me chamou para fazer uma leitura eu não entendi o que ela queria. Ela chamou-me, fiz a leitura e fui-me embora sem entender o que ela pretendia. A Anita gosta de encontrar pessoas desconhecidas, não do público, mas dela mesmo. Por isso mesmo pensei que como ela já me conhecia, podia não me querer novamente. Mas depois ela escolheu-me e aí soube que tinha feito alguma coisa certa (risos). É muito bom como atriz ter este espaço e esta troca como a que tenho com ela. A Anita conhece-me desde os meus 15 anos e agora tenho 24. Ela é muito boa diretora e sabe como me pedir o que deseja. Depois da minha experiência no “Mate-me“, ela moldou a minha maneira de atuar e influenciou-me muito também. Fiquei encantada por cinema quando fiz o filme e hoje faço cinema na faculdade
Cresceu como atriz desde que trabalha com ela, mas qual é a sua ambição, para além de colaborar com o Spike Lee (risos)? É trabalhar no Brasil? Sair para Hollywood? Estar em Cannes?
Tenho muitas ambições. Espero que o filme abra os meus caminhos, mas igualmente o de outros atores e atrizes jovens que fazem sistematicamente as mesmas coisas. Acho que este filme vai ser muito importante para mostrar o nosso potencial. A minha ambição pessoal passa por trabalhar como atriz, seja em novelas, séries, etc. Quero fazer um pouco de tudo, mas hoje gostaria também de escrever. É bom, enquanto artista, ter essa autonomia, de se autoproduzir, de criar as coisas.
E esta colaboração com a Anita deu-te a vontade de um dia também dirigires um filme?
Com certeza, até porque ela escreve os próprios filmes. Ela alimenta-me muito nesse sentido, encoraja-me, lês as minhas coisas. Enquanto atriz quero fazer tudo, enquanto artista, de forma geral, quero escrever.

Mas no Brasil atual é mais difícil criar para cinema, visto estar Bolsonaro à frente do país e a cultura ter sido desmantelada pelo governo…
Sim, está tudo parado. Quem consegue produzir audiovisual no Brasil hoje são os grandes streamers, que não dependem de dinheiros públicos, as pessoas com iniciativa e financiamento próprio, as coproduções, ou obras financiadas colectivamente por doações. Odeio a palavra Resistência no cinema. RESISTIR é “um saco”, nós queremos é EXISTIR. Queremos trabalhar, ser levados a sério, como indústria. O cinema emprega muitas pessoas e alimenta muitas famílias. Não é apenas entretenimento, é uma vertente muito importante do país. Viu-se agora, durante a quarentena, que as pessoas assistiram a um milhão de filmes. Está tudo parado, mas dentro do cinema brasileiro temos esta característica de nos reiventar para continuar a produzir, existindo assim contra tudo e todos. Felizmente, o Bolsonaro irá sair, espero…
Mas mesmo saindo, há muita coisa que vai demorar a passar, entre elas o conservadorismo instituído.
Sim, tenho consciência que vai demorar tempo para consertar o estrago feito.
E como vês a sociedade brasileira, ou seja, além do regime patriarcal, a questão de à frente das coisas estarem ainda homens brancos. Falaste à bocado da questão das atrizes negras, vês um avanço nesse sentido? As coisas estão a mudar no acesso delas a outros papéis?
Dizem que sim, mas não acho que isso esteja a acontecer. Existe a consciência, mas não sei se ela chega a toda o mundo. A minha versão positiva, de quem precisa continuar a trabalhar e tem ainda muita vida pela frente, precisa acreditar nessa mudança, mas o processo de racialização do Brasil é muito complexo.
Para começar a conversa, nós não nos reconhecemos. Não sabemos de onde viemos, quem é quem. Há muita resistência a dar nome às coisas, de quem é negro e quem não é. E faz ainda falta uma responsabilização das pessoas brancas e das que estão no poder do que realmente é esse poder. Será apenas poder económico?
Há que falar do privilégio…
Totalmente. As pessoas têm de assumir que ele existe. Acho que as pessoas pensam que se trata de perderem os privilégios que têm, mas na verdade o que se trata é cederem um lugar à mesa. Creio que dá para todos coexistirmos. Neste tema estamos permanentemente a ferver, mas nunca explodimos. Falta muita raiva para agirmos. Estamos a caminhar para isso mas falta…algo
Um ‘punch’…
Isso. Algo que faça sair as coisas do mundo das ideias.

