Se Cannes foi ontem dormir bem-disposto graças à simpatia comodista do seu filme de abertura, La Vénus électrique (2026), hoje acordou com uma chapada, tudo graças a Butterfly Jam, de Kantemir Balagov, que teve a honra de abrir a Quinzena dos Cineastas, num Théâtre Croisette cheio de público e de Cinema.
Seis anos passaram desde Beanpole(2019), e o realizador de obras como Tesnota (2017) chegou a Cannes mais próximo do universo masculino do que nos seus filmes anteriores, e desta vez em inglês. Passado em Nova Jérsia, nos EUA, Butterfly Jam mergulha na diáspora circassiana nos Estados Unidos, algo pouco explorado no Cinema contemporâneo. É aí que Pyteh (Talha Akdogan), um adolescente circassiano-americano de 16 anos, que vive em Newark, divide a vida entre os treinos de wrestling e o restaurante da família, que atravessa dificuldades financeiras. Quando o pai, interpretado por Barry Keoghan, toma uma decisão impulsiva, o rapaz é forçado a confrontar-se com a violência, a masculinidade e o legado familiar.
“No início escrevi esta história sem pensar necessariamente em Nova Jérsia”, disse o cineasta em Cannes, acrescentando que depois descobriu que existia uma comunidade circassiana muito forte ali e decidiu adaptar a escrita — inicialmente o filme passava-se na Rússia — a essa realidade.

Apesar dos seus dois filmes anteriores serem centrados em protagonistas femininas, Kantemir Balagov explicou que Butterfly Jam nasce de uma necessidade pessoal de explorar “o masculino”, “a sua própria masculinidade” e a ideia de que é natural “que os homens se sintam frágeis”, mantendo uma constante sensação de “estranheza” e desconforto emocional que atravessa as imagens, as interpretações e o próprio tom do filme.
“Queríamos abraçar o embaraço, porque acreditamos que o embaraço é uma forma de sinceridade”, afirmou. Balagov descreveu ainda a masculinidade em ambientes patriarcais como algo que “pode ser desafiante” e “até traumatizante”, sublinhando que o filme tenta precisamente encarar essa fragilidade masculina de frente. “Acho que se tivesse feito este filme no Cáucaso do Norte o resultado teria sido muito semelhante no que toca às relações familiares. Sempre tento quebrar os estigmas associados às pessoas do Norte do Cáucaso e, ao mesmo tempo, mostrar à minha própria comunidade que podemos olhar para estas questões de outra forma.”
Já sobre a presença de Monica Bellucci no filme, numa pequena aparição, o cineasta explicou: “A Monica Bellucci é uma figura mitológica do Cinema. E como o filme também trabalha muito a ideia do pai como figura mítica para o filho, parecia-me interessante essa relação entre figuras mitológicas do Cinema e figuras mitológicas da família.”
Finalmente, sobre os locais das filmagens, o realizador reconheceu que os exteriores foram filmados em Nova Jérsia, mas os interiores na Europa: “A maioria dos interiores foi filmada em França, sobretudo por razões financeiras. Hoje em dia é muito difícil financiar este tipo de filmes nos Estados Unidos. Na Europa existem fundos e sistemas de apoio muito mais acessíveis para Cinema independente. Filmámos os exteriores em Nova Jérsia com uma equipa pequena. No início, a comunidade circassiana ajudou bastante, sobretudo através de um centro comunitário em Wayne.”
O Festival de Cannes termina a 23 de maio.

