A imagem de Paris, longe dos subúrbios, tem tendência no cinema para o cartão-postal. Essa imagem foi abalada – principalmente – no ano passado com o documentário “Un pays qui se tient sage“, de David Dufresne, que pega no aumento insatisfação com as injustiças sociais – La Rage, como diria a marselhesa Keny Arcana – que geraram inúmeras manifestações civis, e convida os cidadãos a aprofundar, questionar e comparar os seus pontos de vista sobre a ordem social e a legitimidade do uso da violência pelo Estado, em particular pela polícia gaulesa, que acumula casos de repressão à margem da lei. E o cineasta mistura imagens cruas e muitas vezes caóticas com outras sustentadas por palavras e pensamentos, onde ação e reflexão, imersão e distanciamento conjugam-se para um dos documentários mais importantes de 2020.
“Max Weber dizia que ‘o estado reivindica por conta própria o monopólio da violência física legítima’. A palavra importante é ‘reivindicar’. A essência de uma reivindicação é que nela há discussão.“, disse Dufresne sobre a temática do seu filme, acrescentando: “Onde é que a polícia obtém a sua legitimidade? E por quanto tempo e com que critérios?“.
Mas o filme de David Dufresne não é o único a mostrar a “nova” Paris (será mesmo nova?), em particular depois dos atentados terroristas do Charlie Hebdo ou do massacre no Bataclan. Apresentado no último Festival de Cinema de Veneza, em setembro passado, a segunda longa-metragem do italiano Giovanni Aloi, “La troisième guerre“, desenrola-se no centro da capital após a onda de ataques de 2015. Anthony Bajon, que brilhou em “Não Deixeis Cair Em Tentação” e “Teddy“, Karim Leklou (O Mundo é Teu), e Leïla Bekhti (Ama Perfeita) são soldados da “Operação Sentinela” numa Paris que teme novos ataques.
No filme seguimos em particular Léo (Bajon), um jovem soldado bretão que acaba de terminar a recruta e que tem como primeira missão a operação Sentinela em Paris. Juntamente com dois colegas, patrulha a cidade, mas vê-se confrontado com inúmeras limitações, assistindo ao crime sem poder intervir porque essa é tarefa para a polícia. A sua missão é procurar eventuais terroristas, enquanto lida com problemas pessoais, uma grande solidão e – talvez – um problema com o álcool. “Sinto-me mais estrangeiro em Paris que em Barcelona“, diz ele a certo momento, mostrando a sua situação como um “peixe fora d’água“.
Quando os três soldados têm de atravessar uma manifestação e são confrontados com combates violentos entre manifestantes e a polícia, as coisas complicam-se e o dever moral e a ética colocam-se lado a lado num confronto direto com o sentido de missão. E tudo no meio do caos.
“A Terceira Guerra é um conflito que podemos já estar a ter sem sabermos. Um novo tipo
de guerra, não uma guerra de posições, mas de poder. Isto significa uma guerra de imagens. Uma
guerra que pode não ser exatamente como pensaríamos que fosse, mas uma fantasia de guerra. A tensão
que move o filme vem desta constatação: ninguém sabe exatamente como é que uma guerra
parece. Todos nós vimos imagens de guerra. Vimos filmes de guerra. Nós vemos a guerra nos noticiários, mas qual é a imagem “certa” da guerra? Este é precisamente o ponto que o filme envolve. Parece-me que uma arte nunca é tão poderosa como quando confronta os seus limites e um dos limites específicos do cinema é
que se contenta em registar mecanicamente a aparência das coisas. Essa aparência
é o que nosso filme questiona. Os nossos personagens foram vestidos como soldados,
foram ensinados a agir como soldados, a manusear armas, a responder em situações de guerras. Agora que temos os soldados, a questão é esta: pode Paris parecer um teatro de guerra?“, diz Giovanni Aloi sobre o seu filme.
Sem fim à vista para a “guerra” contra a pandemia, “La troisième guerre” ainda não tem data de estreia.

