Karin Viard é sublime nesta adaptação ao cinema do livro Chanson Douce (Canção Doce)

“Escrevi em três dimensões. Eu vejo a cena. É como um pequeno teatro na minha frente, com as personagens, as suas roupas e as suas ações. É uma escrita que fala com os cineastas.” Assim dizia Leila Slimani, vencedora do Prémio Goncourt pelo seu Chanson Douce (Canção Doce), quando em dezembro de 2017 surgiram relatos que o filme chegaria aos cinemas pelas mãos de Maïwenn.
Dois anos depois, a obra literária que se inspirava numa sórdida notícia que aconteceu nos bairros ricos de Nova Iorque, chega às salas, sem a responsável por Polissia e Meu Rei na liderança, mas com Lucie Borleteau, atriz transformada em realizadora, que surpreendeu em 2015 com Fidelio, l’odyssée d’Alice, como timoneira.
A adaptação ao cinema de uma obra literária cujas primeiras palavras anunciam a tragédia não era fácil. Ao invés de seguir essa estrutura narrativa anacrónica, Borleteau decide enveredar por uma linearidade temporal, abdicando assim do choque inicial para se concentrar num crescendo de tensão à medida que a “ama perfeita” contratada por uma família com dois filhos começa a revelar o seu lado obscuro.
Karin Viard, uma atriz que inspira confiança no grande público, assume aqui o papel chave de construção de toda a tensão e horror que decorre em pleno dia. Ajuda o ambiente claustrofóbico que se vive devido à maioria das cenas decorrerem num único espaço, mas Viard transporta com a sua performance carregada de uma contenção de neuroses e frustrações (sexuais e sociais) que aos poucos se vão libertando, por todas as frames. E esse semblante carregado de desconforto permanente num microcosmos familiar é o maior triunfo de Lucie, que transforma uma obra catalogada de drama num objeto enraizado na estrutura do thriller, perdendo algum grau de complexidade e profundidade, mas ganhando no mistério dos silêncios e gestos.
Por isso, A Ama Perfeita afasta-se com alguma esperteza do material original, e embora o respeite (na questão da transferência da maternidade, das relações de classe e sociais) dá-lhe uma dimensão diferente que certamente não agradará a todos os fãs do livro, mas que certamente levará muitos cinéfilos a tentar descobri-lo, nem que seja por todas as vibrações de clássicos do género, como A Mão Que Embala o Berço, que por aqui nos revisitam a memória.

Jorge Pereira

