Richard Donner, o cineasta que salvou Krypton

(Fotos: Divulgação)

De “Goonies” a “Maverick”, de memoráveis episódios de “Kojak” ao tristíssimo ensaio sobre a solidariedade chamado “16 Quarteirões” (2006), Richard Donner Schwartzberg (1930-2021) escreveu o seu nome na História como um cineasta capaz de exercitar todos os tópicos das cartilhas de género com uma desenvoltura e uma propriedade que poucos artesãos consagrados jamais conseguiram.

Bilheteiras astronómicas asseguram o seu lugar no panteão de Hollywood. E a sua insistência em acreditar que os X-Men poderiam sair das BDs e virar filme, numa franquia que ele e a sua mulher, Lauren Shuler Donner, produziram, oxigenou o trânsito dos “comics” Marvel para o audiovisual, criando um dos filões mais rentáveis já filmados.

Mas há nele uma marca autoral na aposta recorrente em figuras leais, seja um amigo, seja um ideal. Lealdade é o tema que fez de Donner um autor, como se viu n’ “O Mundo aos seus Pés” dos filmes de ação: “Arma Mortífera” (“Lethal Weapon”, 1987). A produção de 15 milhões de dólares, que faturou 120 milhões, edificou para sempre a ideia do “two cops action dramedy“. Ela ainda fez de Mel Gibson a inspiração do diretor. E veio num momento em que Donner já havia salvo Krypton da atomização, após ter transformado o último filho vivo daquele planeta num ícone global, em “Superman – O filme”.  

Filmado na Califórnia, “Arma Mortífera” nasceu de um argumento do então jovem Shane Black, realizador de “Homem de Ferro 3” (2013). Nele encontramos uma fórmula que reformulou a representação da violência no grande ecrã: o “buddy movie”, um protagonismo dividido por heróis de temperamentos diferentes.

De um lado, na trama, temos o experiente sargento Roger Murtaugh, confiado a Danny Glover: trata-se de um homem da lei centrado, ocupado com a sua família. Do outro lado vem o destemperado Martin Riggs, que catapultou Mel Gibson ao status de astro rei: trata-se de um ex-combatente do Vietname, hábil em lutas marciais e bom nos tiros, que anda com pensamentos suicidas por conta da morte da sua mulher.

Murtaugh é obrigado a unir forças a Riggs durante a investigação do suicídio de uma jovem, que pode estar articulada a uma rede de tráfico ligada ao ex-militar Peter McAllister (Mitchell Ryan) e o seu braço direito, o assassino Joshua (Gary Busey). Essa conexão, que coloca os dois em risco, inicia uma amizade crucial, que gerou, na indústria do audiovisual, uma franquia milionária, rendendo 953 milhões de dólares e inspirando uma série homónima.

A direção de Richard Donner, que vinha desde o filme de culto “A Mulher Falcão” (1985), é um primor. Chegaram a cotar Leonard Nimoy (1931-2015), o Sr. Spock, para a direção, mas ele preferiu investir em “Três Solteirões e Um Bebé” (1987). Todos ganhámos com isso, pois Donner, que já havia brilhado em “O Génio do Mal” (1976), esbanjou intimidade com as narrativas policiais.

A Warner chegou a considerar a escolha de Bruce Willis para ser Riggs, mas o interesse de Gibson em trabalhar com RD mobilizou o cineasta, estabelecendo uma parceria seminal, que rendeu ainda “Maverick” (1994) e “Teoria da Conspiração” (1997). Vale destacar que Rorion Gracie treinou Gibson e aos outros atores nas artes de jiu-jitsu, para emprestar mais realismo à narrativa. Uma nomeação ao Oscar de melhor som trouxe mais prestígio ao projeto.

Desde segunda, com a notícia da morte de Donner, a obra monumental que edificou nos ecrãs, começando pela TV, em 1960, e migrando para os cinemas, em 1968, com “Sal e Pimenta”, está renovando a sua fortuna crítica, com novos olhares. Mas todos multiplicam o mesmo eco: a excelência de sua imersão no universo do Homem de Aço. Há uma centelha lúdica em tudo o que Donner e o escritor Mario Gianluigi Puzo (1920-1999), autor do romance “O Padrinho”, imprimiram no script da mais famosa transposição do guardião de Metrópolis para as telas.

De março de 1977 a novembro de 1978, o cineasta que acaba de nos deixar utilizou um orçamento de 55 milhões de dólares para filmar e finalizar uma adaptação cinematográfica das BDs de Jerry Siegel (1914-1996) e Joe Shuster (1914-1992). Antes dele, Guy Hamilton e Steven Spielberg foram falados para assumir a direção. Vindo do sucesso de “Génio do Mal” (1976), Donner rodou “Superman — O filme” em locações em Nova Iorque, no Arizona, em São Francisco e no Novo México, além de Alberta, no Canadá. Usou ainda os estúdios Pinewood e Shepperton, na Inglaterra, para filmar algumas cenas da longa-metragem. É uma oportunidade de matar as saudades desta obra-prima do “pop” e rever Margot Kidder (1948-2018), atriz canadiana que deu de presente aos cinéfilos a mais lúdica Lois Lane.

James Caan, Burt Reynolds, Kris Kristofferson e Nick Nolte foram cotados para viver Kal-El, o único (supostamente) sobrevivente do planeta Krypton. Este alien reside na Terra sob a identidade de Clark Kent, um repórter. Mas o papel acabou com Christopher Reeve (1952–2004), cuja atuação (irretocável) só é ofuscada pela de Gene Hackman como o criminoso Lex Luthor. Dali nasceu um clássico e Donner deixou claro que jamais poderá ser esquecido.

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