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«A Casa Tutti Bene» (Cá por Casa Tudo Bem) por Hugo Gomes

Gabrielle Mucchino, italiano de gema partiu para Hollywood em busca de um sonho comum, vingar na tão rentável indústria norte-americana. Perseguindo as jornadas de anteriores pedestres europeus, Mucchino conheceu o sucesso temporário com The Pursuit of Happyness (Em Busca da Felicidade), filme que conquistou uma nomeação aos Óscares na categoria de melhor desempenho masculino (Will Smith). Mas o sol foi de pouca dura e, sequencialmente, seguiram-se projetos que pouco apelaram a público e à crítica. Mucchino regressa à terra natal, frustrado com a carreira que vacilou em Terras do Tio Sam, mas retorna a Itália sob a capa de herói.

Com isto, quero dizer que A Casa Tutti Bene foi o maior êxito do cinema italiano de 2018 (até à data desta crítica), reunindo nesta aventura tragicómica um leque de caras conhecidas do público conterrâneo. É uma história burguesa com certeza, que bem poderia inspirar nas ácidas alusões de Buñuel, onde barricou um bando deles numa sala de estar, onde a saída era impossibilitada por forças ocultas. O espectador mais cinéfilo relembrará esse Anjo Exterminador quando se deparar com uma família impossibilitada de sair do convívio numa ilha remota devido a forças não ocultas; a um simples percalço meteorológico. Estes “náufragos” forçados aos poucos transformam o que aparentava ser um belo serão de reencontros familiares num turbilhão emocional, onde segredos são revelados, compaixões são dissipadas e todo o tipo de trafulhices surge com apelos de ajuda.

Contudo, após a premissa que demora e demora a lá chegar, aquela felicidade artificial, que Mucchino teima em nos presentear até chegar ao ponto de ebulição, revela a pior característica do realizador: a sua falta de timing. Por mais tempo que Mucchino demore numa elipse inicial quase introdutória a este conjunto que chamamos personagens, difícilmente consegue construir com solidez um exemplar que seja, sendo que, em alturas de enfases dramáticas quase ridicularizadas por tons esquizofrénicos, nenhuma delas consegue sobressair da sua caricatura.

É bem verdade que numa ilha cheia de miseráveis, nenhum deles causa a empatia devida (exceto a personagem de Gianmarco Tognazzi, o verdadeiro miserável, no sentido literal da palavra). Por um lado, tal falta de compaixão do espectador por essas personagens poderia indiciar armas acidamente apontadas por parte de Mucchino a estes estereótipos, mas a natureza melosa e extremosa do realizador (sempre fora) prejudica por completo qualquer julgamento, ou melhor, ensaio crítico do espetáculo presenciado. A juntar a isso, os quantos pores-do-sol sparkianos e a banda sonora sem personalidade assumem-se como cúmplice perfeito destas aguarelas emocionais.

Ao contrário do que uma das personagens refere quanto à natureza dos relacionamentos (flirt para ser mais preciso), os primeiros 20 minutos são o tempo mais apaixonado e caloroso destas. No caso de A Casa Tutti Bene, os primeiros 20 são pura perda de tempo.

Hugo Gomes



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