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«Colo» por Duarte Mata

Portugal não sonha. Passa as noites a gritar em paragens de autocarro por um socorro nunca atendido. Divaga numa praia que lhe esconde os pecados dos pais. Olha para o Tejo cujas glórias há muito foram engolidas.

Colo de Teresa Villaverde é um profundo retrato realista sobre a entrada gradual de uma família portuguesa no poço da pobreza, em plena crise. Uma crise económica dantesca, que é também uma crise familiar e uma inevitável crise de identidade desconsolável. E fá-lo de uma forma silenciosa, onde a inação é cancelada pela palpabilidade de gestos que são também os de resistência ao do oblívio, como trevas que vêm para contaminar cada plano.

A filha pede dinheiro à mãe pelo passe porque já anda há vários dias de autocarro sem pagar; o pai, desempregado, tenta mudar a situação financeira de diversas formas, cada uma com resultados mais frustrantes que as outras; a mãe está exausta do trabalho de dois turnos por que tem de passar diariamente; a amiga da adolescente está grávida e determinada a trazer o seu bebé, mesmo que o país não lhe reserve qualquer esperança; e um canário solta o seu canto como única consolação.

É na forma, e como esta prevalece a qualquer dramatismo, que faz de Colo um filme profundo. As primeiras vezes em que vemos o apartamento, estão bem impressas as sombras das persianas, o traço característico do filme noir que anunciava a prisão do culpado no início. Mas agora não há culpados, apenas vítimas cuja cela que lhes guarda é a própria casa onde a força de vida de cada íncola seu se vai também desintegrando. Os planos picados (cada personagem deita-se, pelo menos, uma vez) são de uma comoção enorme, sem ser gratuita e é nelas que se observa a essencial necessidade de conforto que tarda em chegar. A dada altura, a eletricidade é cortada e as divisões passam a ser iluminadas por velas. Nasce uma ambiência pictórica e fantasmática, digna de quadros de Georges de la Tour. Esta é a casa assombrada pelo fim dos desejos de uma nação, uma metáfora crua e direta sobre o que se tornou o nosso país que persiste em andar às escuras.

E há o ritmo calmo, bem como a prevalência de planos de conjunto e gerais, ao invés de grandes planos, que mostram a vontade destas personagens se integraram no ambiente em que se inserem, para de seguida se deixarem abater por ele. Villaverde acarreta, mais do que nunca, os traços das vertentes antropológicas do nosso cinema, mesmo que a parte documental esteja ausente. O resultado é uma obra única e, indubitavelmente, a mais matura da seleção competitiva da Berlinale. Não víamos um filme português assim e com tanto destaque num festival de cinema lista A desde os tempos de Juventude em Marcha de Pedro Costa. E, francamente, não nos lembramos de um maior elogio que se possa fazer a um filme do que esse.

O melhor: A força da mise-en-scène.
O pior: Tal como Juventude em Marcha, trata-se de um filme que depende muito da sensibilidade de cada espetador. Mas isso, por outro lado, é também o seu ponto forte.


Duarte Mata



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