O Festival de Cinema de Antália (Antalya Golden Orange Film Festival), cuja 60ª edição deveria começar no próximo dia 7 de outubro, foi cancelado pela organização devido a intensa pressão política em torno da exibição do documentário turco “The Decret” (Kanun Hükmü).
O filme, que retrata a situação de duas pessoas que sofreram na pele com a purga executada nas instituições estatais pelo governo turco, na sequência de um golpe de estado fracassado em 2016, deveria competir na Competição Nacional de Documentários, mas foi retirado da programação após pressão do governo direcionada ao principal organizador do evento – o Município de Antália.
O diretor do festival, Ahmet Boyacıoğlu, entretanto demitido, afirmou que a remoção do filme se devia a alegações de que um dos retratados fazia parte de um processo legal a decorrer. Porém, a realizadora Nejla Demirci, negou, afirmando que não havia nenhum processo legal a decorrer e classificou a remoção do filme como um “golpe para o cinema”.
A medida gerou uma onda de protestos, em meio a acusações de censura, com a renúncia de 20 membros do júri da competição. Os cineastas de 27 títulos presentes no programa decidiram igualmente retirar as suas produções das competições nacionais de longas-metragens de ficção, documentários e curtas-metragens. “Consideramos a retirada do filme da programação… uma ameaça direta à liberdade de expressão artística. Acreditamos firmemente que é inaceitável que os festivais, que pertencem inerentemente à sociedade, se rendam à censura.” Apesar de nunca terem sido anunciados os concorrentes da competição internacional, o Screen Daily avança que alguns cineastas que viram os seus filmes selecionados decidiram também se juntar ao protesto.
A organização do festival recuou e, na na manhã de quinta-feira, afirmou que “The Decret” seria reintegrado ao programa, o que levou o Ministério da Cultura e Turismo turco a acusar a organização do festival de fazer propaganda “para uma organização terrorista através de a percepção de vitimização.” O ministério acrescentou ainda que “não faria parte do esforço para desacreditar a luta épica da nossa querida nação no dia 15 de julho e usar a arte como elemento de provocação”.

Numa ação coordenada com os parceiro comerciais do evento, o ministério retirou os apoios financeiros ao certame. Após esta tomada de decisão, o município de Antália decidiu cancelar o evento. “Devido à confusão criada pelas próprias mãos”, a administração do festival, o diretor artístico e toda a equipa artística foram despedidos“, disse Muhittin Bocek, presidente da área metropolitana de Antália. “A responsabilidade do festival é garantir que ninguém na indústria cinematográfica se torne alvo de um regime tão repressivo. O Antalya Golden Orange Film Festival sempre permanecerá firme contra a censura e defenderá a liberdade de expressão.”
Não foi a primeira vez que o festival de cinema mais antigo da Turquia enfrentou problemas com as forças políticas. Em 2017, o antigo presidente da câmara da área metropolitana turca decidiu eliminar a competição nacional do certame, sob a estratégia de tornar o festival mais internacional e transformar a estância balnear de Antália num importante hub cinematográfico internacional, com os seus próprios estúdios. Isso levou a um boicote às edições de 2017 e 2018 por parte de cineastas e produtores turcos e à criação de uma competição nacional paralela em Istambul. A situação só foi revertida quando o partido AKP de Recep Tayyip Erdogan perdeu as eleições locais, que deram como vencedor o candidato de centro-esquerda Muhittin Böcek, que além de repescar a competição nacional para o festival, voltou ao nome histórico de Antalya Golden Orange Film Festival.

