Na habitual conferência de imprensa no dia anterior ao arranque do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, delegado-geral do certame, admitiu que espera pelo regresso dos grandes estúdios de Hollywood à Croisette, numa edição marcada pela ausência de grandes estreias mundiais de blockbusters norte-americanos. “Espero que os filmes dos estúdios regressem.”, disse Frémaux, sublinhando, no entanto, que cada estúdio, produtor e autor tem a sua própria estratégia de lançamento, recusando comentar filmes que não integram a seleção.
Este ano, a presença dos estúdios norte-americanos surge sobretudo pela via da celebração: uma sessão da meia-noite para assinalar os 25 anos de The Fast and the Furious (2001), ideia que Frémaux classificou como “maravilhosa”, descrevendo a saga como “um fenómeno da história contemporânea do cinema”. A Paramount terá também uma sessão comemorativa dos 40 anos de Top Gun (1986), integrada no Cinéma de la Plage.
Lembrando que Hollywood continua a reorganizar-se depois da pandemia, das greves e de fusões empresariais, Frémaux pediu paciência, mas lembrou que o cinema norte-americano está bem representado por James Gray, com Paper Tiger, Ira Sachs, com The Man I Love, e Steven Soderbergh, com o documentário John Lennon: The Last Interview.
Na mesma conferência, o delegado-geral defendeu Wim Wenders das críticas recebidas após as declarações sobre cinema e política na Berlinale, considerando que este foi alvo de comentários “injustos”. Nas suas palavras, Wenders queria apenas sublinhar que, enquanto presidente de júri, “a política está no ecrã”.
Já naquilo que lhe concerne, Frémaux também rejeitou a ideia de colocar Cannes ao serviço de opiniões pessoais, defendendo que a dimensão política deve caber aos filmes e aos cineastas. Recordou, contudo, a história política do certame, da fundação no pós-guerra à Palma de Ouro atribuída a Man of Iron (1981), de Andrzej Wajda, em plena emergência do movimento Solidariedade na Polónia.

Quando questionado sobre a menor presença de filmes realizados por mulheres na competição à Palma de Ouro, recordou que Cannes seleciona obras “pelo seu mérito” e recusou acusações de “feminist-washing” relacionadas com o cartaz de 2026, inspirado em Thelma & Louise (1991). Já sobre a inteligência artificial, o francês alertou para riscos laborais e criativos, dizendo estar “do lado” dos profissionais prejudicados por esta tecnologia.
Finalmente, Frémaux falou ainda sobre a nova regra dos Óscares, que permite que determinados vencedores de alguns festivais de cinema sejam automaticamente submetidos à corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional. Até agora, apenas os filmes escolhidos pelos respetivos países podiam ser indicados nesta categoria, mas o delegado-geral considerou a mudança positiva. Como exemplo deu o de Anatomia de uma Queda (2023), vencedor da Palma de Ouro que acabou por não ser a escolha francesa para os Óscares. Ainda assim, ele admite que outros festivais poderiam ser incluídos no processo, uma vez que a lista atual lhe parece demasiado centrada na Europa.
O Festival de Cannes arranca hoje, 12 de maio, e termina a 23.

