Uma Mãe e o seu Filho: “Fazer cinema no Irão é extremamente difícil” — Saeed Roustayi

Estreia a 21 de maio

Facilmente um dos cineastas mais interessantes do panorama atual do cinema iraniano, Saeed Roustayi mostrou desde cedo, com Life and a Day/Forever and a Day (2016) que realizou, e Blockage (2017), que escreveu uma enorme inquietação e um talento para levar o espectador em jornadas cinematográficas eletrizantes, movidas pelas palavras, pelos conflitos familiares e por personagens femininas imperfeitas, sempre encurraladas por sistemas patriarcais, económicos e culturais.

Com o extraordinário A Lei de Teerão (2019), ele atingiu uma enorme projeção internacional, algo que cimentou com a estreia de Os Irmãos de Leila (2022), concorrente à Palma de Ouro, em Cannes.  “Aprendi cinema através da vida e aprendi a viver através dos filmes”, dizia-nos ele em 2022 e, três anos volvidos, regressou à Croisette com Woman and Child (Uma Mãe e o seu Filho, 2025).

Desta vez centrado numa enfermeira viúva, que é esmagada por uma sucessão de tragédias familiares e por uma sociedade estruturalmente inclinada a favor dos homens, Saeed demonstra a enorme responsabilidade em continuar a fazer filmes para o público iraniano, mesmo quando está sob ameaças constantes de processos judiciais, proibições de trabalho e de interferência governamental. 

Saeed Roustayi | Foto por Kaethe17 (CC BY-SA 4.0)

Da última vez que passou por Cannes, com Os Irmãos de Leila, teve problemas porque não foi autorizado e acabou por ser preso. Este filme está autorizado? Tem medo de regressar ao Irão e voltar a ser preso?

Este filme foi feito com autorização para filmar, mas ainda ninguém o viu no Irão. Espero que não haja problemas. Fazer cinema no Irão é extremamente difícil. O que aconteceu depois de Os Irmãos de Leila mudou completamente a minha vida — e não para melhor.

Quando tens de ir constantemente a tribunal, quando passas por um processo judicial durante dois anos, tudo muda. Não é apenas o futuro do filme que muda, é a tua vida inteira.

Mas isso já passou e espero sinceramente que o público iraniano possa ver o filme.

Quando decidiu tornar-se realizador já sabia que iria trabalhar numa profissão permanentemente difícil?

Na verdade, eu não queria ser cineasta. Queria ser músico.

Quando tentei entrar numa escola de música disseram-me para voltar seis anos depois. Então o meu irmão levou-me para uma escola de cinema e praticamente obrigou-me a inscrever-me.

Quando tinha 15 anos fiz uma curta-metragem para a escola e teve um enorme sucesso. Toda a gente adorou. Foi aí que me tornei realizador.

Como é trabalhar como autor sabendo que existe permanentemente uma sentença por cima da sua cabeça? Isso leva-o à autocensura?

Não. Acho que isto é difícil de compreender para quem não vive no Irão. Ou não trabalhas, ou trabalhas sob uma enorme quantidade de problemas e stress. Não há alternativa.

O sistema é completamente imprevisível. Dá-te uma autorização para filmar mas depois bloqueia o filme. Dá-te uma licença mas recusa outra. Às vezes parece mais fácil filmar sem autorização nenhuma, mas depois não consegues mostrar o filme.

O meu objetivo é fazer filmes que 85 milhões de iranianos possam ver no grande ecrã.

Não acredito que um filme que não funciona no seu próprio país possa funcionar verdadeiramente a nível internacional.

Portanto, não me censuro. Mas isso não significa que não existam restrições concretas às quais tenho de obedecer para conseguir terminar um filme e mostrá-lo.

Uma Mãe e o seu Filho

O que vemos neste Uma Mãe e o seu Filho, em termos do comportamento das mulheres dentro da família, reflete o que está realmente a acontecer na sociedade iraniana? As mulheres estão a ganhar mais poder, pelo menos dentro da estrutura familiar?

Eu digo sempre que é a sociedade que me ensina a fazer filmes e são os filmes que me ensinam a viver. Portanto, este filme vem diretamente do coração da sociedade iraniana e mostra uma pessoa iraniana a viver hoje no Irão.

As personagens da Leila (de Os Irmãos de Leila) e Mahnaz (de Uma Mãe e o seu Filho) pertencem à mesma geração? Como vê a relação entre elas?

Fiz até agora três filmes centrados em mulheres: Life and a Day, Leila’s Brothers e agora Woman and Child.

No primeiro filme, a protagonista feminina tenta apenas alcançar uma vida normal. Leila tenta melhorar uma vida que já é relativamente normal. Ambas ainda dependem dos homens e tentam, de certa forma, salvá-los.

Já Mahnaz não depende de homem nenhum. Ela desafia todas as categorias. É mãe, mas não é definida pela maternidade. É enfermeira, mas também não é definida pela profissão. Ela começa por tentar construir uma vida melhor, depois resiste a todas as desgraças que lhe acontecem e acaba por salvar não apenas a si própria, mas também a geração mais nova.

Essa evolução acompanha também aquilo que está a acontecer na sociedade iraniana.

Viver sob um regime repressivo dá-lhe automaticamente um sentido mais forte de justiça?

No Irão criamos uma espécie de pele grossa. Há coisas que assustariam muito outras pessoas, mas às quais nós já estamos habituados. Quando tens uma pena suspensa que pode significar prisão durante seis meses, proibição de trabalhar durante cinco anos, proibição de qualquer contacto com pessoas ligadas ao cinema durante cinco anos, tudo muda. No meu caso isso significaria, por exemplo, não poder sequer falar com a minha namorada.

Mas ao mesmo tempo sentes uma responsabilidade enorme de continuar no teu país e fazer bons filmes para o teu público. Não é culpa do povo iraniano não poder ver bons filmes no cinema. Então a questão é: fazes filmes que ninguém pode ver? Vais embora? Ou tentas fazer filmes que o público iraniano possa realmente ver, mesmo que isso implique lidar com restrições?

Acredito que um dia acontecerá o mesmo que aconteceu com as cassetes VHS. Antes eram proibidas no Irão e agora estão por todo o lado. Acho que o mesmo vai acontecer com a obrigatoriedade do véu. Só precisa de tempo.

Ao ver o filme, tive a sensação de que esta poderia ser uma história universal, capaz de acontecer em muitos países diferentes. Não há nada nele que pareça explicitamente provocador ou ofensivo. Nesse contexto, porque é que um filme como este pode ainda assim tornar-se problemático para as autoridades iranianas? 

Eu não faço filmes para irritar o governo iraniano. Não ando atrás deles.

Tenho constantemente ideias para filmes, algumas vêm da sociedade, outras da minha imaginação. Tudo o que quero é fazer filmes. Se há alguém a perseguir alguém, são eles que me perseguem a mim: avisos, problemas, pressões. Não sou eu que os persigo.

Mas porque seria este filme particularmente difícil para as autoridades?

Espero sinceramente que não seja, mas, normalmente, histórias sobre mulheres que enfrentam uma sociedade patriarcal não são particularmente bem recebidas.

Ao mesmo tempo, acredito que se o governo não interferisse, tudo seguiria naturalmente o seu curso. O problema é que o governo tende a interferir.

Uma Mãe e o seu Filho

Sempre sentiu essa responsabilidade de dar voz a personagens femininas enquanto realizador homem?

Desde criança que sempre estive do lado dos mais oprimidos. Até no futebol apoio sempre a equipa que está a perder.

E desde muito novo percebi claramente que as mulheres são mais oprimidas no Irão. Sofrem pressão da família, da sociedade e do governo.

Vivem situações mais trágicas — e isso cria grandes histórias cinematográficas — mas também significa que temos responsabilidade, enquanto cineastas, de dar espaço a essas vozes e tentar melhorar as coisas.

Quando diz que faz filmes sobretudo para o público iraniano, existem códigos ou metáforas que o público estrangeiro talvez não compreenda?

Se existe uma metáfora, então não devo explicá-la. Ela deve funcionar sozinha. E uma metáfora verdadeira ultrapassa nacionalidades.

Há pessoas que continuam sem compreender porque razão alguns sectores ligados ao cinema iraniano parecem irritados com a sua presença aqui em Cannes.

Primeiro, essas pessoas são muito poucas. E muitas nem sequer são cineastas.

Os grandes cineastas iranianos que conheço — Mohammad Rasoulof, Jafar Panahi e muitos outros — têm sido extremamente solidários comigo.

Depois da Segunda Guerra Mundial, uma das maiores conquistas humanas foi a ideia de respeitar todas as opiniões, excepto aquelas cuja única intenção é destruir os outros. E sinto que algumas dessas posições em relação a mim são precisamente isso: tentativas de destruição, sem espaço para diálogo. Além disso, muitas dessas pessoas nem sequer viram o filme.

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