Com mais de três décadas de carreira, Pierre Salvadori (Après Vous, 2003; Hors de Prix, 2006, En Liberté!, 2018) regressa ao território que melhor define a sua filmografia: o da mistura entre o romance e a comédia humana, onde não faltam personagens emocionalmente perdidas, relações feitas de equívocos, mentiras e desejo, sempre embrulhados num humor tão leve como melancólico.
Como que insistindo que uma boa comédia nasce do sofrimento, Salvadori parte do luto, da culpa e da depressão de Antoine (Pio Marmaï), um pintor devastado pela perda da sua companheira, para procurar a luz. Será numa daquelas feiras populares onde as “artes ocultas” são vendidas como entretenimento e salvação que ele vai encontrar uma médium, a quem vai pedir para entrar em contacto com a falecida. Essa mulher, que na verdade é Suzanne (Anaïs Demoustier), conhecida na feira como “La Venus Electrificata”, cujo espetáculo consiste em homens pagarem para a beijar e receberem um choque elétrico, decide fazer-se passar por uma colega médium, iniciando uma relação com Antoine que, após acreditar que está a falar com a antiga companheira, recomeça a pintar, para satisfação do seu marchand de arte, Armand (Gilles Lellouche), que vê em Suzanne uma forma de ganhar mais dinheiro à conta da confabulação do pintor.
A partir daqui, Salvadori entra no reino de caminhar, sempre de forma ligeira, por entre ficção e realidade, vivos e mortos, amor e manipulação, arte e mentira. Ilusão, representação e performance são as armas que Suzanne usa para “enganar o pintor”, com a conivência e parceria de Armand, mas à medida que vai descobrindo mais sobre a história do pintor e da sua falecida mulher, Irène (Vimala Pons), começa a ter uma nova visão sobre tudo e, progressivamente, a apaixonar-se por ele.
Muito interessado em promover estreias comerciais francesas nos últimos anos como filme de abertura — Corta!(2022),Jeanne du Barry (2023), O Segundo Acto (2024), Partir Um Dia (2025) —, Cannes abriu esta edição com La Vénus électrique, uma típica comédia screwball onde Pierre Salvadori regressa ao seu terreno mais confortável.
Entre espiritismo e romance, o filme encontra momentos divertidos dentro de uma mise-en-scène cuidada, mas nunca sai de uma fórmula demasiado familiar, que nunca chega a fascinar (e agarrar) na sua ambição entre o romance de época e a comédia de enganos. Ainda assim, destaque para os atores, com Pio Marmaï a transitar entre o humor e o drama com um savoir-faire digno, e Gilles Lellouche a acompanhá-lo naquela estranha zona entre o verdadeiro amigo e o agente que vende as suas obras. Mais tarde, o espectador descobre que não é apenas o triângulo Antoine-Suzanne-Armand que transforma Armand numa das personagens mais interessantes de todo este imbróglio.
E há aqui também uma atenção evidente à mise-en-scène. O filme trabalha uma estética de época (1920-30) marcada por feiras populares, ocultismo, sessões espíritas, teatros, espelhos, cortinas e transições entre épocas, compondo um universo visual assumidamente cinematográfico, mais estilizado e visualmente elaborado do que grande parte dos trabalhos anteriores do cineasta. Mas nada disto eleva o filme para lá da qualidade de uma sessão da tarde: entretém em piloto automático, sem grande destreza formal ou rasgo emocional, deixando a sensação de uma obra simpática e competente, mas demasiado acomodada.
Ou seja, nada que exponha as palavras aguerridas da cerimónia de abertura do festival que Eya Haïdara usou, citando Jean-Luc Godard: “não fazemos um filme para sermos cautelosos”. Salvadori escolheu a cautela. Resta saber se o público francês lhe responderá com o mesmo conforto ou com a indiferença que tantas vezes recebe o cinema demasiado satisfeito com a sua própria elegância e conforto histórico.














