É uma faca de dois gumes: se por um lado os talentos estabelecidos localmente encontraram formas de financiar e trabalhar com maior frequência na indústria do audiovisual, a escassez de técnicos especializados com experiência, que são requisitados pelo mercado streaming em detrimento da produção cinematográfica tradicional, está a dificultar a concretização de certos projetos no Egipto e no mundo Árabe, como nos disse o produtor e realizador Ahmad Abdalla durante o Festival do Cairo.
Considerado um dos nomes mais importantes da região, especialmente depois de atrair os holofotes em 2009 e 2010 com o lançamento de “Heliopolis” e “Microphone“, que lhe valeu o título de pioneiro de uma Nova Vaga do Cinema Egipcio, Abdalla apresentou no certame o seu mais recente projeto, “19B”, o qual foi considerado o melhor filme árabe da 44ª edição do Festival do Cairo.
“Só na Região Árabe temos três ou quatro plataformas a lutarem entre si e a contratar os atores que querem para essa luta. Tudo para séries de TV. Mas este não é o principal problema”, explicou-nos Abdella no Cairo, abordando um tema que o produtor Rani Massalha (Gaza Mon Amour), palestino radicado em França, já tinha falado ao C7nema em 2020. “Nós gostamos de procurar atores e se os que queríamos estão todos a trabalhar para a Netflix, não há problema. Sempre foi simples encontrar atores que virão, mais cedo ou mais tarde, a tornar-se estrelas. O problema é não encontrares membros qualificados para a tua equipa técnica. Por exemplo, tornou-se mais difícil encontrar diretores de fotografia. Claro que encontrei um diretor de fotografia para este filme, mas era a sua primeira experiência em longas-metragens. É muito jovem, tem 25 anos, e acho que fez um bom trabalho, especialmente com a luz natural”.

Curiosamente, o trabalho na fotografia do “novato” Mostafa Elkashef acabaria por sair premiado no festival com a distinção de Melhor Contribuição Artística.
Em “19B” seguimos Nasr, que leva uma vida reclusa numa vila abandonada que guarda com toda a atenção. Porém, um dia, ele vê-se obrigado a enfrentar uma situação com uma pessoa que mora na rua oposta, que marcará uma viragem completa na sua vida e forma de ser. “Fui inspirado num homem que, curiosamente, mora aqui perto.”, explicou o realizador. “Passava por ele todos os dias e, similarmente à pessoa do filme, estava sempre a alimentar os animais junto a uma casa quase demolida, que continuava a guardar. Todos os dias alimentava os cães e gatos ao pôr do sol, mas notava-se que ele mesmo não estava bem alimentado. Foi a partir dele que imaginei a história do filme e da personagem que vemos em cena. Que passado pode ter este homem? Ao começar a escrever sobre ele, dei por mim a escrever sobre mim próprio (risos). Este “19B” está cheio dos meus medos e questões sobre as mudanças na cidade”.
E nesses medos e mudanças está a decadência do parque habitacional, mas também das relações entre diferentes gerações, algo que para Abdella reflete uma sociedade contemporânea que o preocupa e inspira.
Depois da estreia mundial no Cairo, “19B” vai agora iniciar a sua tour no circuito festivaleiro e estrear comercialmente no país.
O Festival do Cairo decorreu de 13 a 22 de novembro.

