“Na generalidade, a situação é catastrófica”, disse ao Screen Daily Roman Isaev, responsável para a Rússia da Comscore, empresa de medição de audiências da indústria do entretenimento (incluindo cinema) a nível global. “Há dois cenários discutidos no seio da indústria. Um é um boicote de dois meses de Hollywood à Rússia. Isto significa que em algum momento de maio podemos voltar a receber e exibir filmes de Hollywood, o que é um resultado mau em termos de resultados financeiros, mas viável. Porém, se esse cenário se estender por seis meses, a maioria dos cinemas russos vão morrer“.
Estas palavras refletem o impacto, no mercado de exibição e distribuição cinematográfica na Rússia, com a suspensão prolongada da estreia de filmes de Hollywood no país. “The Batman“, “Paw Patrol” e “Morbius” são alguns dos filmes ausentes das salas russas, com o primeiro a afetar diretamente 2 mil salas onde estava planeada a sua exibição.
E embora este boicote não afete a distribuição e exibição de filmes independentes norte-americanos, a força destes no mercado é reduzida, preferindo as salas russas substituir os grandes títulos, entretanto suspensos, por obras locais.

Roman Isae aponta ainda para o risco de se perder permanentemente o público russo que ia às salas. “Alguns não querem ir ao cinema, talvez por um longo período de tempo, e alguns estão a recorrer à pirataria… Todos os grandes resultados alcançados nos últimos anos no combate à pirataria na Rússia e internacionalmente, infelizmente, podem ter ido para o lixo.”
Por outro lado, a exportação de filmes russos está parada ou é demasiado ténue, com o mundo dos festivais de cinema a ser severamente afetado com este boicote. Cannes, Locarno e Veneza já avisaram que não vão impedir a presença de cineastas russos nas suas próximas edições, especialmente dos filmes que têm sido feitos à margem do financiamento estatal, mas irão manter longe as delegações institucionais e impedir filmes financiados pelas entidades russas de serem exibidos nos seus certames, independentemente de serem ou não serem apologistas do poder instituído.
“Decidimos pausar o trabalho de vendas dos nossos filmes russos por enquanto, e não podemos dizer como será o futuro. Ao mesmo tempo, não descartamos os nossos cineastas russos que estão agora numa situação difícil e que não apoiam de forma alguma esta guerra – não é culpa deles o que está a acontecer. Esperamos que as pessoas possam ver além das nacionalidades e passaportes”, comentou ao Screen Daily um porta-voz da M-Appeal, empresa sediada em Berlim.
Uma das “vítimas” desse boicote, pedido pela Academia Ucraniana de Cinema “em todas as suas dimensões“, foi “The Execution” (Казнь), thriller policial de Lado Kvataniya que é negociado pela M-Appeal. Estava programada a sua exibição no Festival de Glasgow, na Escócia, tal com o de “No Looking Back” de Kirill Sokolov, mas o certame retirou-os da programação devido às ligações do seu financiamento ao Kremlin. Também o Festival de Cinema de Estocolmo confirmou que não selecionará nenhum filme que tenha beneficiado de financiamento estatal russo quando retornar em novembro para a sua edição 2022.

Em Portugal, o Fantasporto também anunciou a retirada do único filme russo selecionado para a 42ª edição do festival: “Vladivostok“, uma grande produção da Mosfilm, o maior estúdio da Rússia, entidade estatal para o cinema da Rússia, e que integrava a Secção Oficial Semana dos Realizadores. Ainda em Portugal, quer universidades, quer outras instituições, têm sido pressionadas a pôr um freio na exibição de obras russas, algumas inseridas em ciclos de cinema.
Certo é que com as sanções atuais, toda a indústria russa prevê uma recessão, que certamente afetará a produção, mesmo dos chamados “dissidentes” do regime. Apesar dos pedidos de boicote pela Academia Ucraniana de Cinema, posteriormente repetidos por nomes como o do cineasta Oleh Sentsov, que atualmente está na frente de combate, alguns nomes do cinema da Ucrânia, como Sergei Loznitsa, estão contra um boicote indiscriminado: “O que está a acontecer diante dos nossos olhos é horrível, mas peço para não caírem na loucura. Não devemos julgar as pessoas com base nos seus passaportes. Podemos julgá-los pelos seus atos. Um passaporte está ligado ao lugar onde nascemos, enquanto um ato é o que um ser humano faz de boa vontade”.

