Next Step Studio Indonésia: os novos cineastas do Sudeste Asiático que Cannes quer revelar

(Fotos: Divulgação)

Entre religião, superstição e sátira social, Holy Crowd transforma um acontecimento impossível numa reflexão mordaz sobre a fé coletiva e o oportunismo. A curta-metragem de Reza Fahriyansyah, da Indonésia, e Ananth Subramaniam, da Malásia, acompanha uma mulher que morre, regressa misteriosamente à vida e começa a curar pessoas, desencadeando uma reação caótica da comunidade à sua volta.

Na entrevista ao C7nema, os realizadores explicaram que a ideia nasceu diretamente da observação do quotidiano no Sudeste Asiático: “Sempre que acontece algo considerado milagroso, toda a gente aparece. Toda a gente tenta tirar algum proveito da situação.” A partir dessa premissa, os dois começaram a explorar não apenas o sobrenatural, mas sobretudo a forma como as sociedades reagem emocionalmente a fenómenos que não conseguem explicar.

E apesar da dimensão fantástica da narrativa, os dois insistem que o centro do filme nunca foi o milagre em si. “Desde o início tentámos concentrar-nos sobretudo nas personagens e não apenas na situação sobrenatural”, explicaram. O foco principal acabou por recair no marido da protagonista e na maneira como cada personagem tenta dar sentido ao acontecimento segundo as suas próprias crenças, fragilidades ou interesses.

A curta trabalha constantemente na fronteira entre superstição e religião, duas dimensões que os realizadores consideram impossíveis de separar. “Se retirarmos essa dimensão mágica, a própria religião perde parte daquilo que a torna especial”, disseram. Vindos de contextos religiosos diferentes — um muçulmano, outro hindu — os dois descobriram rapidamente semelhanças inesperadas entre os seus universos culturais. “Nós também fazemos isso”, disseram várias vezes durante o processo de escrita, enquanto misturavam referências e tradições das duas culturas.

Ananth Subramaniam & Reza Fahriyansyah

Essa lógica híbrida atravessa também a própria realização, com o arranjo visual a ser pensado numa lógica de liberdade e experimentação permanente: “Queríamos jogar com este universo, mas sempre mantendo a honestidade emocional.” O resultado é um filme que oscila constantemente entre o humor absurdo, a tensão espiritual e o comentário político.

Finalmente, ambos confessaram ainda que o processo foi surpreendentemente fluido, sem grandes conflitos criativos. “Às vezes um dizia: ‘Na minha cultura isto funciona assim.’ E o outro respondia: ‘Na minha é parecido, mas diferente.’ Então misturávamos tudo.”

Os realizadores revelaram também os novos projetos que estão atualmente a desenvolver. Reza Fahriyansyah prepara uma longa-metragem passada num colégio islâmico, centrada num rapaz que tenta compreender a própria identidade “de uma forma muito ambígua”. Já Ananth Subramaniam está a trabalhar num filme punk sobre uma jovem dividida entre a pertença cultural e a necessidade de afirmar a própria identidade: “Por um lado, ela não quer rejeitar a sua cultura porque isso a deixaria completamente sozinha. Por outro, quer viver dentro daquela identidade punk.


Entre o luto, o trauma e os horríveis silêncios que se mostram impossíveis de verbalizar, Original Wound nasce de uma colaboração profundamente íntima entre a indonésia Shelby Kho e o birmanês Sein Lyan Tun, que praticamente não se conheciam antes de integrarem o programa Next Step Studio Indonesia, apresentado na Semana da Crítica do Festival de Cannes.

Há coisas de que conseguimos falar e outras sobre as quais não conseguimos. Às vezes expressamos aquilo que sentimos, outras vezes não. Mas o sofrimento está lá”, explicaram os realizadores ao C7nema em Cannes, encontrando paralelos entre as suas experiências pessoais e aquelas que vemos no centro do filme.

O projeto começou com uma longa conversa online, em jeito de partilha. “O cinema só faz sentido quando fala de algo tão importante que eu simplesmente não consigo deixar de falar sobre isso”, afirma a dupla, que após essa troca de palavra partiu para a construção de uma narrativa marcada por uma forte dimensão autobiográfica. “É uma história de ficção, mas vem claramente de dentro.”

The Original Wound acompanha duas personagens que vivem o luto de formas radicalmente diferentes. “A irmã acredita que há uma forma correta de viver esse sofrimento”, enquanto “o irmão apenas quer chorar pela morte da mãe”. O conflito nasce precisamente desse choque emocional, mas os realizadores insistem que “essa colisão é também uma forma de afeto entre eles.”

Sein Lyan Tun & Shelby Kho

A influência de cineastas como Tsai Ming-liang é assumida sem reservas pela jovem indonésia. “Gosto daquele ritmo lento, silencioso, carregado de trauma e emoção contida. São filmes em que quase não se fala, mas tudo está presente nas emoções e nas imagens.”

Para Sein Lyan Tun, o cinema funciona também como uma forma de sobrevivência emocional e “terapia”. “Fazer filmes é uma forma de expressão. Sei que é aquilo que devo fazer porque sinto ao mesmo tempo medo e prazer.”

Mais do que uma curta isolada,The Original Wound representa também uma porta de entrada para o futuro. “Isto funciona como uma apresentação oficial de quem somos enquanto cineastas”, dizem sobre a passagem por Cannes, onde também apresentaram dois projetos que têm em carteira. Shelby desenvolve um filme centrado numa rapariga de 16 anos capaz de controlar o fogo, usando esse elemento como “metáfora do trauma e da violência familiar” num país à beira de uma guerra civil. Já o birmanês Sein Lyan Tun revelou um projeto inspirado na irmã mais nova, cruzando experiências traumáticas pessoais com a realidade política do Myanmar.


Realizada pelo indonésio Reza Rahadian e pela filipina Sam Manacsa, Annisa nasceu de uma figura real homónima; uma adolescente invisual que o primeiro conheceu durante a rodagem de uma produção há alguns anos.

Ela é invisual, mas extremamente apaixonada pela vida. Adora cantar e tinha uma energia muito especial”, explica-nos a realizadora filipina, acrescentando que a memória desse encontro permaneceu durante anos em Reza, até os dois perceberem que “essa curiosidade e esse afeto eram suficientes para construirmos um filme à volta dela.”

Afirmando que nunca viu Annisa “como alguém com uma limitação, mas como alguém com plena capacidade”, Manacsa acredita que essa decisão tornou-se o eixo central do filme: “Queríamos sobretudo observá-la. A forma como reage naturalmente às coisas já era suficiente para o filme.” na verdade, alguns dos momentos finais nasceram inclusivamente de improvisações espontâneas da própria jovem.

Com 14 minutos, na curta, acompanhamos Annisa durante a celebração do Dia Nacional num complexo habitacional. Perante o caos sonoro em seu redor, ela tenta encontrar uma forma de afirmar a sua voz, transformando-se o som tanto numa extensão da sua perceção do mundo, como também um território para a afirmação política e emocional. 

Reza Rahadian & Sam Manacsa

Quanto ao processo criativo dos dois realizadores, este foi marcado pela descoberta mútua: “O programa interessava-se sobretudo pela própria experiência colaborativa: duas pessoas que não se conheciam a encontrarem uma forma de fazer um filme juntas”. E apesar da barreira linguística, pois Manacsa não fala bahasa (língua indonésia), ela descreve todo o processo como orgânico: “Rapidamente percebemos que tínhamos sensibilidades muito semelhantes. Ambos nos interessamos por pequenos momentos mundanos, detalhes aparentemente banais da vida quotidiana.”

Outro destaque, segundo Sam Manacsa, é que a curta surge também como continuação de um percurso muito pessoal. “Só faço filmes quando sinto uma necessidade muito forte de dizer alguma coisa.”, diz-nos, falando de seguida no futuro.

Designer de produção que se estreou na realização com Annisa, ela trouxe até Cannes um pitch para uma longa-metragem. Ainda na fase de desenvolvimento e à procura de financiamento, no filme seguimos duas mulheres à procura de uma criança desaparecida depois de uma operação policial violenta num bairro de Manila. “O filme é uma exploração da feminilidade e da maternidade num contexto extremamente violento”, concluiu.


Com 17 minutos, Mothers Are Mothering é a mais longa — e talvez a mais ousada e conseguida — das quatro curtas do projeto Next Step Studio Indonesia. Correalizado por Khozy Rizal e Lam Li Shuen, o filme acompanha Nia, uma mulher de 50 anos presa num casamento abusivo, enquanto tenta reencontrar uma forma de liberdade num universo onde a memória, o desejo e a violência confundem-se constantemente. Interpretada por Happy Salma, a personagem move-se entre o real e a alucinação, num filme profundamente sensorial e emocionalmente fragmentado.

Funcionou muito bem porque o núcleo emocional do filme vinha diretamente das experiências profundamente pessoais do Ko-Zee, sobretudo da relação com a mãe”, explicou Lam Li Shuen. A partir dessa base íntima, os dois cineastas começaram a procurar formas de transformar esse material autobiográfico em algo mais abstrato e cinematográfico. “Foi aí que surgiram os elementos surrealistas, sci-fi e fantásticos”, acrescentou a realizadora de Singapura.

Entre texturas, criaturas, corpos e fantasmas emocionais, Mothers Are Mothering constrói uma linguagem visual marcada pelo body horror, pelo melodrama e pelo fantástico queer. “Queríamos capturar sensorialmente a ideia de alienação e de ‘otherness’, sobretudo em relação às mulheres queer na Indonésia”, afirmou a dupla. O resultado é um filme onde o desconforto surge apenas através das imagem, do som e da própria materialidade dos corpos, e absolutamente nada das palavras ditas.

Lam Li Shuen e Khozy Rizal

As influências assumidas pelos realizadores ajudam a perceber essa abordagem radical. Entre as referências citadas por Lam Li Shuen estão David Cronenberg, Shinya Tsukamoto e Possession, de Andrzej Żuławski. Já o indonésio fala de Pedro Almodóvar, particularmente pela utilização da cor e da mise-en-scène: “Os contrastes cromáticos eram um dos elementos centrais do nosso filme”.

Filmado em apenas dois dias e com mais de 70 planos previstos, o projeto tornou-se também um exercício de sobrevivência logística, o que os levou a quebrar algumas limitações impostas inicialmente pelo programa.

Mais do que uma narrativa sobre violência doméstica, Mothers Are Mothering transforma o trauma, o desejo reprimido e a exaustão emocional numa experiência de manifestações físicas. É um filme que parece contaminado pelas próprias feridas que retrata e talvez seja precisamente isso que o torna tão difícil de esquecer.

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