“10 anos é muito para fazer um filme”, mas foi esse tempo que durou a construção de “Stepne”, produção ucraniana que valeu a Maryna Vroda o prémio de melhor realização no Festival de Locarno.
Passado nas paisagens de inverno ucraniano, numa região ainda não fustigada pela invasão russa do território ucraniano, “Stepne” segue o pulso de uma sociedade pós-soviética, abordando questões como a herança histórica de uma centena de anos de interferência russa e o sentimento de perda por parte de um homem, Anatoliy, que volta para casa para cuidar de sua mãe moribunda. Será a partir do encontro com seu irmão e uma mulher que ele ama que ele vai começar a pensar nas escolhas que fez ao longo do caminho.
Com a expectativa que o seu filme estreie na Ucrânia em outubro e surja comercialmente nas salas locais no próximo ano, Maryna Vroda falou ao C7nema sobre esta produção e o que é ser um realizadora no seu país nos dias de hoje.
As origens
“Sou muito ligada à família e esta história vem da vida do meu pai. Quando já era crescida e trabalhava, em 2011, o Viktor Yanukovych liderava a Ucrânia e já sentia que este não era o meu país. Estava bastante zangada e fiz uma curta-metragem, que de certa maneira era uma metáfora. Depois disso, comecei a pensar na minha primeira longa-metragem. Foi o momento em que a minha avó morreu.(…) As pessoas não têm bem noção do que aconteceu neste país nos últimos 100 anos, depois da invasão bolcheviques, passando pela Segunda Guerra Mundial e os tempos de Estaline. Por isso, pus-me a pensar o que é a Ucrânia? Depois, o Euromaidan chegou e muita gente morreu. A partir desse instante percebi que esta guerra ia acontecer. que a Rússia nunca iria aceitar perder o controle da região e que a Europa não iria ajudar. Foi nesta altura que escrevi um guião conectado com a minha herança familiar e rural, que se transformou em “Stepne”. Queria fazer uma observação da geração do meu pai e até do meu avó, da fome e da guerra que passaram, além da modernidade brutal com todos estes oligarcas e corrupção. (…) Este é um filme sem juventude, com idosos, o que leva sempre a críticas. Quis mostrar o desaparecimento de uma geração de idosos, fazendo também uma ponte entre os tempos numa zona geográfica que é uma área cinzenta brutal.”

A produção
“Tivemos 26 dias de filmagens e poucos dias de preparação, por isso foi tudo muito planeado. Olhamos muito para as pinturas de Bruegel e vários outros pintores. Todas as memórias da guerra e da fome foram contributos dos não-atores. Fazem parte da história do nosso país e, por isso, tinham de ficar. (…) A iluminação tinha um papel importante na construção do filme e era metafórica em relação ao humanismo. O arranjo da casa que vemos em cinema também era importante, em particular o seu vazio. (…) Em termos de cinematografia, olhamos para velhas pinturas, mas o estilo documental traz a sensação de estar a acontecer agora, de ser uma história do presente. Nunca fingimos que este é um filme do passado. É um filme de agora, minimalista. (…) o mais difícil foi unir o mundo de não atores e dos atores”
Ser uma realizadora na Ucrânia
“Nos últimos dez anos, desde a revolução, perdi a noção do tempo. Era alguém muito focada, mas desde aí sinto-me sempre na guerra. Na verdade, o único território que não sofreu com esta guerra é aquele onde filmei o “Stepne”. Só a Segunda Guerra Mundial os atingiu. De resto, a guerra vai comigo para todo o lado, mesmo quando estou em Berlim (…) Sinto-me sempre melhor quando estou em casa. Sinto-me viva. Se estiver muito tempo fora de Kiev, sinto-me mal. O meu país está na pior situação de sempre e quero ajudar. Mesmo fora do país, algures na Europa, tenho a necessidade de ajudar o meu país. Ir para as ruas, enviar dinheiro, etc. Nunca consigo esquecer os meus colegas que lá estão. Por isso, estando lá, aprecio bastante o boicote do consumo de cultura russa. Os meus colegas estão a desaparecer…”

Boicote ao consumo de cultura russa
Apesar de a maioria dos grandes nomes ligados ao cinema pedirem a todo o mundo que a cultura russa seja boicotada enquanto durar a agressão da Federação Russa ao território ucraniano, alguns proeminentes cineastas com raízes locais, como Sergei Loznitsa, são contra esse pedido. Sobre essa questão, Maryna Vroda discorda com a opinião do cineasta ucrâniano de origem bielorrussa: “O Loznitsa não vem filmar agora à Ucrânia porque sinto que tem medo de ser confrontado pela sociedade ucraniana. Não conheço colegas que partilham a sua visão e pessoalmente conheço-o bem, pois fui sua assistente no “My Joy”. Respeito-o como artista, mas não partilho as suas ideias. Estou maioritariamente em Kiev nos dias de hoje e quando estás no meio da guerra sentes coisas que não sentes quando estás longe, como ele. A maior parte dos meus colegas entenderam que, num momento em que a nossa cultura pode desaparecer, há que fazer isto. A propaganda atualmente na Rússia é muito intensa. Creio que nós, cineastas, temos uma grande responsabilidade em pedir isso.”
O Futuro
“O meu próximo projeto é baseado na juventude em mulheres numa idade de grandes decisões. Está ligado à revolução e à guerra. Vai ser parcialmente filmado na Ucrânia, em particular para mostrar o início da revolução. Depois, outro tópico será passado na Europa e envolve os refugiados, pois eu mesmo passei por isso quando fui estudante. Na Europa, não existia guerra na Ucrânia até fevereiro de 2023. Quero mostrar isto e a Europa tem de ver o que aconteceu.”

