Com uma carreira prolífica entre a televisão e o cinema desde a década de 1990, a atriz Sidse Babett Knudsen teve este ano um dos seus mais impressionantes desempenhos, ao atuar no poderoso “Filhos” (“Vogter”, no original) sob a liderança de Gustav Möller, um cineasta que nos surpreendeu há uns anos com o thriller “O Culpado”.
Famosa, principalmente no seu país, pela presença na série de televisão “Borgen”, onde interpretava a primeira-ministra Birgitte Nyborg, Sidse conta nos seus créditos com dezenas de participações no cinema, incluindo alguns projetos internacionais, como “Inferno”, de Ron Howard, “Clube Zero”, de Jessica Hausner, “Le Fil”, de Daniel Auteuil, além de duas obras do britânico Peter Strickland (In Fabric; The Duke of Burgundy).
Em “Filhos” ela desempenha nos pícaros da excelência, entre raiva e contenção, o papel de Eva, uma guarda prisional que vê chegar à cadeia um jovem com ligações obscuras ao seu passado, iniciando um thriller psicológico em que a moralidade e o seu futuro podem estar em risco devido ao impulso de vingança.
Foi em Berlim que nos encontrámos com a atriz e falámos sobre o seu papel e como ela se preparou para este desafio.
O que a atraiu a este papel?
Acho que existe algo de tabu na figura da “mãe má” que me interessava explorar. O tema da culpa também é muito interessante, algo com que Gustav anda a lidar nos seus filmes. Na verdade, é um tema que fascina os escandinavos. Mas, acima de tudo, a minha participação no filme vem de um pedido que fiz ao Gustav depois de ter visto o “O Culpado”, um filme onde senti que ele usou tudo – de maneira económica – o que tinha à sua disposição. Tudo o que ele podia aproveitar, ele aproveitou. Quando vi o filme pensei para mim mesma: porque razão estou nos limites do meu assento? Porque razão quero saber já o que vai acontecer daqui a 5 minutos? A construção do storytelling tinha algo de físico que me impressionou. Quando vês esta “musicalidade” de processos logo num primeiro filme, sabes que tens pela frente alguém que será um grande realizador. Isso fez-me querer trabalhar com ele. Anos depois, ele ligou-me e disse que tinha um papel para mim.
E como se preparou para dar vida a esta guarda prisional? Investigou nas prisões? Falou com guardas prisionais?
Sim, falei com guardas, pois queria captar bem os seus movimentos. Esta mulher vive na prisão, não é apenas um emprego. Existe a farda, o cinto, a forma como fecha as portas, etc. Essas coisas não são meras ferramentas de trabalho, mas da sua vida. Quando a observamos, ela não vai às compras, anda de carro, encontra-se com os amigos. Ela vive no trabalho. Mas nessa investigação, não senti que tinha de saber o que era a vida e ser um guarda prisional. Vi a prisão mais como uma arena limitada e claustrofóbica, do que uma prisão mesmo.

O que deu de si a esta personagem inserida num mundo muito masculino, o prisional?
Creio que a transformei numa mulher de parcas palavras, movida ao silêncio. Nem no seu interior ela fala, nem é alguém muito cerebral. É puro instinto, animalesca. É como se tivesse um animal enjaulado nela. Quanto mais eu me aproximava disso, menos palavras necessitava de usar. E o relacionamento que ela tem com o detido é muito sensorial, como se se cheirassem para perceber eventuais ameaças. Eu vejo tatuagens e o diabo. Ele vê uniformes e castigos. Aos poucos, vamos vendo outras coisas, mas, de certa maneira, fiz um desafio a mim mesma de mostrar uma mulher que se sente invisível. Ela perde um filho, o seu sentido de missão, o valor por si mesma.
Senti um luxo em poder entrar num mundo tão diferente do meu. Estamos numa prisão masculina e o filme acaba por o ser também. Se virmos, a forma dela ser é uma reação ao ambiente, que é temeroso a toda a hora. Mas ela está lá por questões emocionais, escondendo as suas razões. A prisão que vemos em cena é real, embora esteja desativada desde 2016. Foi uma produção muito agradável, filmamos tudo cronologicamente e o realizador esteve sempre muito presente e disposto em nos ajudar.
Além de contar uma história, o filme também fala do sistema prisional na Dinamarca…
É também um filme sobre como nós que estamos em liberdade vemos aquele espaço. Por que razão nós, enquanto sociedade, precisamos da prisão? É suposto ser um espaço de reabilitação, mas também de punição. E é um espaço capaz de te quebrar. Há muitas mensagens sobre o sistema prisional no filme.
O filme chama-se “Filhos”, mas podia chamar-se “Mães”, já que nos dá duas perspectivas diferentes de mães a lidarem (e sofrerem) com os filhos.
Gosto do termo “Filhos” porque é recorrente utilizar, até quando falamos dos filhos da nação. Neste caso, o meu filho é que está em falta, enquanto o outro filho que vemos em cena, é um mistério. Apenas temos acesso a ele através do meu olhar, o qual vai também mudando ao longo do filme. Para mim ele passa de vítima a não tanto vítima, a algo que não consigo controlar, quase um inimigo.
Atualmente, o cinema parece estar mais disposto a colocar mulheres de meia idade em papeis poderosos, fora dos estereótipos. O que sente em relação a isso?
É ótimo que o cinema se esteja a abrir a contar histórias ligeiramente diferentes com diferentes géneros, cores e idades a surgirem em cena de forma cada vez mais frequente. Até podemos achar que é uma história que já vimos, mas com um elenco diferente ou a desenrolar-se numa área diferente acrescenta novos elementos e visões. Creio que existem ainda muitas histórias para serem contadas.
Com uma carreira intensa na TV e no Cinema, como escolhe hoje em dia os seus papéis? Tem um plano? Segue a intuição?
Não tenho um plano, mas dedico muito tempo a estudar os projetos, a pensar se consigo fazer alguma coisa.
E fazer cinema ou TV, trabalhar para um projeto para o grande ecrã ou pequeno é igual para as suas escolhas?
O meu amor é Cinema. Mas há coisas muito boas que vejo no formato televisão. Fazer de primeira-ministra no “Borgen” durante tantos anos fez-me aprender muito. O que temos de pensar bem quando temos um projeto é onde é que ele se encaixa melhor. Será melhor contá-la num filme ou numa série? Qual é a melhor forma de mostrar a história? É isso que temos de pensar, ao invés do formato como questão em si.

