Habituada a lidar no seu cinema – “Lourdes”, “Amor Louco“, “A Flor da Felicidade“ – com a obsessão, fé e insegurança, sempre com um humor desconcertante que põe o ridículo e o trágico lado a lado, a austríaca Jéssica Hausner regressa aos cinemas com “Clube Zero”, um drama visualmente poderoso, como é apanágio da cineasta, sobre como um grupo de jovens que depois de aderirem à disciplina de “comer com consciência” começam a desenvolver uma série de desordens alimentares e psicológicas.
Tudo isso é fomentado pela professora Novak (Mia Wasikowska), contratada por um colégio interno, a qual se posiciona na vida dos alunos como um farol moral, relegando os pais para as margens do processo de educação dos seus filhos.
Foi em Cannes que nos sentámos à mesa com a cineasta e falámos deste “Clube Zero”, um dos filmes mais poderosos do ano a chegar às nossas salas.
Frequentemente, no cinema, pensamos sempre nas razões individuais que levam um conjunto de pessoas a se juntarem a grupos que, como neste caso, começam a ter comportamentos semelhantes a seitas. Como trabalha essas razões individuais que levam à criação de um movimento coletivo?
Neste caso são muitas as razões porque estes miúdos acolhem com facilidade as ideias da professora Novak. No início do filme, quando explicam a razão de terem escolhido aquela aula, há uma aluna que fala logo no tema do melhorar o ambiente. Outros falam de controlar o que comem, melhorar a saúde, ser mais bonitos, sempre associado ao ser mais magro. Cada um tem a sua razão, que acaba por se colar à dos outros num propósito comum.
Existe uma crítica implícita no filme à relação entre pais e professores na educação dos jovens, no sentido do que é responsabilidade de cada um na educação dos miúdos. É uma crítica focada neste caso ou é mais geral?
O alcance da minha crítica é mais abrangente e abarca toda a sociedade. Quis questionar quanta responsabilidade os pais assumem na educação dos filhos e o que transferem para a escola. Se esse for o caso, vão esses professores fazer bem a tarefa que deveria pertencer aos pais? Não é uma crítica implícita à escola assumir o lugar dos pais, e acho mesmo que deveríamos valorizar mais o trabalho dos professores e tutores. Creio que é um assunto que ainda não está completamente resolvido na Europa, porque evidentemente, os país, por causa do trabalho, deixam muitas vezes a sua tarefa para a escola. Temos de encontrar uma solução, pois todos admitimos que os filhos são o nosso bem mais precioso, por isso deveríamos cuidar melhor deles.
O humor nos seus filmes, no meio da tragédia, tem sempre um tom muito peculiar. Como encontra esse tom para os seus filmes?
Sempre que faço um filme tento encontrar imediatamente o seu tom. Chego a ele quando sinto que existe algo de trágico, mas também de humor. É como um riso constrangido que vem com a sua dose de absurdo. Adoro todas as personagens que crio, por isso nunca iria simplesmente rir delas.
Temos que entender que, todos nós, muitas vezes, caímos no ridículo e que nos levamos demasiado a sério. Há coisas que levamos demasiado a peito, que vistas de outro ponto de vista são irrelevantes. Esse humor “estranho”, que muitas vezes dizem que os meus filmes têm, vem da perspectiva dos outros ao que fazemos e como agimos. Trabalhei com a Géraldine Bajard no guião e muitas vezes líamos em voz alta os diálogos para sentir se tínhamos conseguido uma boa dose de estranheza e humor seco que provoque agitação no público. Gostamos de provocar a audiência com a questão do quem está certo, numa e noutra situação. Assim, uma personagem que no início até podemos gostar, tem depois uma atitude errada que nos faz ver que não a apoiamos. Na vida real, não existem pessoas completamente boas ou completamente más. As coisas vão mudando consoante as circunstâncias. Ninguém é só bom ou mau.

E quando não encontra esse tom, desiste dos filmes?
Muitas vezes tenho ideias para filmes que nunca concretizo, pois não encontro o tom correto, entre o trágico e o ridículo. Preciso da “estranheza” e de contradições complexas para conseguir fazer um filme. Tem a ver com a minha perspetiva sobre a vida. Não sou uma pessoa capaz de dizer se esta é toda a verdade ou é totalmente falso. Interessa-me estudar o que é verdade dentro do que se diz ser a verdade.
O visual dos seus filmes é muito particular e poderoso. Como o desenvolve?
Trabalho há muitos anos com o Martin Gschlacht, diretor de fotografia, e a nossa ideia sempre é não nos resumimos a criar uma linguagem cinematográfica que meramente sirva a história, personagens e emoções. Procuramos um visual que tenha algo para dizer muito próprio e não esteja apenas ao serviço das coisas que referi. O visual dos meus filmes é também ele uma personagem, com identidade própria. É como se estivesse alguém presente em cena, com as suas necessidade e interesses particulares. Creio que a forma como o fazemos cria um desnível com o storytelling e leva-nos a uma reflexão sobre o que estamos a tentar mostrar.
Todos os elementos, décors, guarda-roupa, etc, parecem estudados ao mais ínfimo pormenor…
Começo a trabalhar muito cedo em todos os detalhes, durante 7 ou 8 meses. Fiz o storyboard das cenas e com o Martin Gschlacht criámos um livro de imagens. Depois passamos esse livro a todos os elementos da equipa, onde figura, naturalmente, a responsável do guarda-roupa, a Tanja Hausner. Pensamos em todos os detalhes e particularmente os atores ficam um pouco chocados com esse livro de imagens, onde está exatamente o que têm de fazer cena a cena. Alguns atores gostam de ter mais liberdade, mudar as coisas e até improvisar. Por isso, alguns deles olham para o livro com má cara. No meu cinema, os atores têm de se integrar nas minhas composições. Na verdade, tento sempre encontrar atores que consigam “sobreviver” a mim. Sou alguém que detalha muito cada coisa que quero deles e isso não é fácil de gerir. Mas quando entram na coreografia do que pretendo, deixo-os respirar. Com as repetições, este processo torna-se natural.
Escolheu a Mia Wasikowska para o papel principal do filme. O que havia nela para essa escolha?
Para este papel queria uma atriz que tivesse uma espécie de inocência e jovialidade intrínseca, algo que Mia transmitia com a sua aparência. E queria também uma estranheza, uma impenetrabilidade. Alguém que à partida associamos a ser uma boa pessoa e que é incapaz de fazer o mal.

Também está em cena o que é a nossa identidade individual e o que vem de fora e absorvemos como nosso. Como lida com essas questões?
Gosto de mostrar como todos nós estamos constantemente sob influência dos outros. Qualquer um de nós é realmente ele mesmo durante a sua vida? Ou vamos mudando a forma de ser ao longo da vida e estamos sempre sob influência dos outros? Desde os pais, aos amigos, passando pelos desconhecidos com quem trabalhamos e lidamos no dia a dia, todos eles nos influenciam e muitas vezes manipulam. Na verdade, nunca é fácil entender o que uma pessoa pensa e sente, pois todos somos o resultado de múltiplas pessoas com que nos cruzamos. Nesse aspeto, acaba por ser assustador quem realmente és. O que é mesmo teu e o que é influência dos outros.
Quando a professora diz literalmente que as pessoas nem têm necessidade de comer, e isso é acatado como uma realidade, temos aqui uma bela base para a propaganda e obediência…
Sim, é propaganda e manipulação, mas o interessante é entender porque as pessoas aceitam isso e entram nesse mundo. Por exemplo, para uma personagem, o decidir não comer torna-se uma questão política contra o capitalismo. E o que ela diz é verdade, quando diz que a indústria alimentar está a destruir a nossa saúde e o planeta. Por isso, para ela, uma greve de fome torna-se uma afirmação política.
Somos realmente donos do nosso corpo ou também ele é uma construção influenciada pelos outros?
Não sei se é possível ser autêntico. Muitas vezes olhamos para um ator e ele é tão real, mas está a atuar. Da mesma maneira, acho que somos todos atores na nossa vida .Não é fácil chegar ao que realmente queremos, pensamos, ou sentimos, separando o nosso do que os outros nos influenciam.

