Realizador de filmes como “Irreversível”, “Enter The Void” e “Clímax”, Gaspar Noé sempre foi visto como um enfant terrible e um provocateur no cinema. Por isso, o surgimento de “Vortex” no seu currículo foi uma das maiores surpresas de 2021.
Ao abordar o envelhecimento e a perda de capacidades físicas e mentais, através da história de um casal, ele doente cardíaco, ela com uma doença neurológica degenerativa, Gaspar Noé claramente mudou a direção do seu cinema. Bem, pelo menos para já.
Foi no Festival de Locarno que o encontrámos e falamos sobre o seu filme, a colaboração com Dario Argento e Françoise Lebrun, e a importância do tema musical de Françoise Hardy na obra. E falámos também do cinema que vê, especialmente aquele que assistiu após ter tido uma hemorragia cerebral, que o colocou em casa em recuperação durante largos meses. Aqui ficam as palavras de Gaspar Noé.
O Dario Argento tem uma performance incrível. Como trabalhou com ele neste “Vortex”?
Eu disse-lhe: ‘Tu és o realizador, eu sou só um estudante. Tu tomas conta da personagem, eu da câmara (risos)“. Ele é muito carismático, além de ser muito simpático. Não há muitos realizadores em que tenha o desejo de os filmar e almoçar e jantar todos os dias. Talvez exista um, além dele: David Cronenberg, que é um bom ator também. Mas há pessoas na vida que acolhes como ser humano, como artista e como showman. Sempre que Argento está em palco as pessoas riem e aplaudem. Fiquei muito surpreendido que ninguém, antes de mim, tenha lhe proposto um grande papel num filme. Ele tem imenso carisma.
Mas como se processou a chegada dele ao elenco e o que aprendeu com ele?
Filmámos o filme totalmente em Paris e ele estava alojado num apartamento a um quarteirão de distância. Ele não vinha almoçar connosco. Filmava e seguia. Ele estava a preparar o “Dark Glasses”, que ia filmar brevemente, mas felizmente para mim, por causa do Covid, as filmagens dele foram adiadas. A Wild Bunch, que financiava o meu filme e o dele, avisou-me desse adiamento e tentei convencê-lo a participar no “Vortex“.
Sabia que ele tinha gostado dos meus filmes anteriores, mas não estava convencido que o conseguia ter no meu filme. Ele estava a preparar o seu filme e quando estás assim, todo o teu cérebro dedica-se a ele. Com a ajuda da Asia (Argento), que o convenceu, aceitou. E foi maravilhoso tê-lo comigo. Eu disse-lhe que ele é o realizador e sabe construir uma personagem. ‘Vais dirigir-te a ti mesmo’. Foi assim.

Uma das cenas mais intensas do “Vortex” é a do ataque cardíaco. Como foi trabalhada essa cena. Foi improvisação?
Estão todos a improvisar, até o miúdo. Habituei-me a essa forma de filmar, pois a performances que consigo extrair são mais livres. Os atores que conheço também gostam mais assim. Por exemplo, vejo frequentemente o Benicio del Toro e perguntei-lhe uma vez qual o realizador com quem gostou mais de trabalhar. Ele disse o Steven Soderbergh, pois era o único que não lhe dizia o que fazer. É assim que um realizador ganha o respeito do ator. Desde então faço assim nos meus filmes.
E com a Françoise Lebrun. A personagem dela é muito mais silenciosa, sendo a expressividade corporal e o olhar muito mais importantes que as palavras. Como foi a colaboração com ela?
Nesse caso, ela está a compor uma situação e um personagem muito mais distante da sua vida que a do Dario. O Dario aqui é um crítico de cinema, mas vemo-lo sempre como o Dario Argento.
Quando propus o papel à Françoise tinha em mente os papéis excecionais que a vi fazer no cinema desde os anos 70. Perguntei-lhe se ela já tinha tido alguém próximo com Alzheimer ou doenças similares que afetam a mente. Ela disse que não e que também não gostava muito de se aproximar dessas doenças, apesar de ter uma mãe com 100 anos hospitalizada. Mostrei-lhe vários documentários e vídeos do Youtube sobre isso, além de vídeos pessoais que tinha com a minha mãe, onde vislumbramos uma permanente dor no olhar. Momentos de cinco, seis segundos em que não há uma palavra, mas um olhar de verdadeiro terror. Usei esses vídeos para ela preparar essa atuação do olhar. Ela é muito faladora, intelectual e o seu uso da língua francesa é muito superior ao meu. O trabalho dela foi compor uma personagem que nunca quererás ser.
Sobre a sua escolha de utilizar o Split Screen, pensou no filme sempre assim? E que efeito psicológico procurava ao mostrar as personagens, sempre separadas?
Fiz um filme há três anos, o “Lux Æterna“. Era para ser uma curta, mas cresceu. Filmei-o com várias câmaras e na montagem decidi que iria usar o split screen. No início não estava planeado, mas gostei do efeito que gerou. No ano passado fiz uma curta para uma casa de moda, o “Summer of ‘21”, e também uso isso. No “Vortex“, o pleno era filmar durante três dias algumas cenas com duas câmaras e outras só com uma. Ao fim desses dois dias, as cenas filmadas com as duas câmaras eram muito mais interessantes do que aquelas só com uma. Por isso pensei em fazer o filme todo assim.
No quarto dia de filmagens refilmei algumas coisas dos primeiros dias que tinha só filmado com uma câmara, sempre com atenção ao tempo. “Daqui a 10 segundos tens de estar na Cozinha”, etc. Dizia coisas assim e continuei nisto até ao final. Mas a decisão final é sempre na mesa de montagem. É aí que as coisas se tornam evidentes. Por exemplo, quando queres meter música numa cena, tentas com várias, mas no final é sempre a mesa de montagem que decide. Torna-se uma evidência qual a música que funciona melhor. Neste caso, com o split screen funcionava melhor. (…) Tens de trabalhar muitas vezes com o instinto e não com o cérebro.

Uma das coisas que o split screen também dá é isto: os olhos do espectador movem-se da direita para a esquerda consecutivamente. Para as desordens pós traumáticas, usa-se muito o Rapid eye movement (REM). Passados alguns momentos de longas sessões com esse exercício, consegues mover memórias de uma das partes do teu cérebro para a outra. Confesso que não sei muito sobre o tema, mas sei que há terapias assim. Fazem-te questões, fazes o movimento contínuo e a tua memória começa a ser transferida. Provavelmente, ao veres um filme em que os teus olhos movem-se assim consecutivamente, isso ajuda o espectador a entrar mais facilmente num estado de hipnose.
O set de filmagens naquele apartamento é extraordinário. Como pensou e foi construído aquele espaço?
Estive com o meu pai este verão na Argentina. Ele é um artista, escritor e pintor. A minha mãe tem Alzheimer. Este filme não é baseado neles como casal, mas mesmo assim assisti ao envelhecer e o surgimento de doenças mentais com grande proximidade. (…) O meu pai não queria que eu me fosse embora da Argentina e nem queria que fizesse um filme sobre isto, mas estava falido e precisava de fazer um filme rápido (…) Tinha 10 páginas escritas do guião e tanto a Wild Bunch como o CNC mostraram interesse e financiaram o filme. Quando juntei o dinheiro, encontrei um espaço, um prédio que estava para venda. Um dos apartamentos fascinou-me e os produtores aceitaram alugá-lo. Na altura não tinha ainda atores, mas já havia espaço para as filmagens. Falei com o meu diretor de fotografia e o responsável pela direção de arte e num mês criamos aquele espaço intelectual para o casal. O trabalho que eles fizeram foi extraordinário, pois o apartamento funciona como uma quinta personagem. Quando vemos o apartamento a despir-se de tudo o que lá foi colocado, sentimos como uma morte. A morte desse apartamento.
Depois do problema de saúde que teve, passou muito tempo a ver filmes, especialmente japoneses, certo?
Foi há um ano e meio atrás, um pouco antes do ano novo (2019-2020). Fui a um restaurante, comi ostras e tive uma intoxicação alimentar no dia seguinte. Tinha outro jantar com o meu pai nesse dia e ao terceiro dia continuava a sentir-me mal. Saí com um amigo, bebi três gin tónicos. A 29 dezembro tive uma hemorragia cerebral. Felizmente a ambulância chegou rápido ao bar onde estava, pois nestes casos temos 50% de hipóteses de morrer, ou de ficar aleijados para toda a vida, ou até ficar num estado mental como o da personagem interpretada pela Françoise. Agi muito rápido e felizmente agora está tudo bem, estou normal.
Passei um mês hospitalizado. Senti que fui até ao lado negro da lua e voltei. Também tive a chance de experimentar morfina pela primeira vez na vida, o que me ajudou a deixar de fumar e afastar-me das bebidas brancas. Vi o “Gravidade” em francês na TV, enquanto estava sedado a morfina, e tive a maior trip da minha vida.
Segui as recomendações dos médicos e fiquei um mês a repousar em casa. Foi ótimo pois sempre sonhei em passar um mês a ver filmes em casa. Vi muitos clássicos, como o “Andrei Rublev”, que nunca tinha visto. Via dois filmes por dia. Entretanto, surgiu o Covid-19. Com a paranoia da pandemias, as ruas ficaram vazias e eu ficava em casa. Passei 5 ou 6 meses em casa a ver filmes. Vi tudo do Mizoguchi, clássicos do expressionismo, etc. Vi muitos filmes japoneses e um dos que mais me emocionou foi “A Balada de Narayama”, do Keisuke Kinoshita.
Que aborda a velhice e tem elementos similares ao seu filme…
Sim, é um filme muito cruel. E houve outro com um tema semelhante, que não me fascinou tanto como o do Kinoshita, mas que gostei. “A Promise” do Yoshishige Yoshida, sobre uma mulher a perder a saúde mental. Há situações que são muito comuns na vida, mas que não estão representadas no cinema. Ninguém quer ver pessoas dementes pois sabemos que um dia teremos de lidar com isso; connosco ou com alguém próximo de nós. Claro que temos alguns filmes assim, como o “Amour”, mas comparativamente ao que acontece na vida real, devíamos ter cem vezes mais filmes sobre o tema. Veja quantos assaltos a bancos temos numa cidade por ano. Uns dois ou três. Olhe-se para o número de filmes que falam sobre isso.
Continuando no tema, a primeira música que aparece no seu filme é da Françoise Hardy, que por sua vez luta atualmente pela vida e também o direito a morrer…
Sim, ela tem cancro. Está em casa. Ela ajudou a mãe a morrer (eutanásia) e agora quer isso para ela. Quando estávamos na montagem, quis experimentar essa música. Tinha também o vídeo que gravou para a TV suíça a cantar esse tema (Mon amie la Rose). Quando o vi pensei em inserir o vídeo no filme, pois seria uma boa abertura. Foi quase um acidente. Vi o vídeo e telefonei logo aos supervisores da música a questionar quanto custaria usar essa música no filme. E também tínhamos de falar com a Françoise e a TV suíça para ter a autorização de usar o vídeo.
Telefonei-lhe pessoalmente e pedi. E depois mostrei-lhe o filme e ela mandou-me mensagens maravilhosas. Ela está na situação em que quer morrer pacificamente, mas a família não deixa. Ela está a sofrer e podemos encontrar várias entrevistas dela a falar da mãe, da morte, a promover a eutanásia e o direito de morrer no seu próprio país. Tudo o que escreveu no passado é tão melancólico que o facto de eu agora escolher esta música só depois da edição me levou a pensar no que ela está a passar nos dias de hoje. Este filme ressoou muito nela. Por essa razão quis colocar as fotos do Dario, nos seus 20 anos, no fim do filme. E também as dela. O filme é exatamente a história da sua música. Sei que é algo cruel, mas frontal o meter a data do nascimento nos atores e em mim nos créditos. Mas quando nasces, o relógio começa a contar e não sabes quando o alarme vai soar.
Este filme marca uma nova direção para si como cineasta? Os anteriores eram um pouco mais selvagens, loucos e coloridos. Este é bastante diferente. Vai continuar neste registo?
Não sei. Cada vez que tento fazer algo, não forçosamente novo, mas que de alguma forma me surpreenda. Se não te consegues surpreender, não consegues surpreender o espectador. Não viemos ao mundo para surpreender, mas para aproveitar o jogo que é a vida.

