Adeus Senhor Haffmann: intenso thriller psicológico em plena Segunda Guerra Mundial

(Fotos: Divulgação)

Realizador experiente no campo dos thrillers, com títulos como “Pour Elle” e “À Queima-Roupa” a conquistarem audiências internacionais e a terem direito a versões em Hollywood, Fred Cavayé regressa às salas de cinema com “Adeus Senhor Haffmann”, também ele um filme de suspense, mas que desta vez prefere apostar na psicologia das personagens, ao invés do lado frenético da ação.

Com dois dos maiores nomes do cinema gaulês atual, Daniel Auteuil e Gilles Lellouche, no filme seguimos a história de um judeu (Auteuil) que devido à presença de nazis em França decide abandonar o país, deixando a sua loja a cargo de François (Lellouche), o seu empregado. Porém, ele acaba por não conseguir fugir, ficando confinado à cave da loja e casa onde habitava, tendo de pagar um preço muito alto por isso.

Falámos em janeiro com Fred Cavayé sobre este projeto, sua apetência para os thrillers e como foi trabalhar na história de um homem confinado numa cave durante a Segunda Guerra Mundial, num período em que o próprio mundo viveu um confinamento. Aqui fica a nossa conversa.

O seu “Pour Elle” teve um remake americano chamado “72 horas”. Logo depois, o “À Queima-Roupa” também teve um remake. Acha que o “Adeus Senhor Haffmann” é o próximo a ser refilmado? (risos)

(risos) Sim, os meus filmes têm tendência a serem escolhidos para remake nos EUA, mas este é mais complicado, pois passa-se em França. Porém, hoje em dia, tudo é possível. Até seria interessante ver como um outro argumentista e realizador iria trabalhar as coisas. Este filme é uma adaptação de uma peça de teatro, mas é bastante diferente dela. Por isso, até poderia haver um remake mais próximo da peça. Logo veremos se irá acontecer

Tendo em conta o seu currículo, podemos dizer que o thriller é o terreno que mais o fascina?

Sem dúvida. Mesmo no remake do “Amigos Amigos, Telemóveis à Parte”, que transformei em “Le Jeu” (Nada a Esconder) para a Netflix, o que mais me atraia era o seu lado de thriller. Ver até onde aquele grupo de amigos era capaz de ir até ao final do jantar. Sim, claro, é um filme com situações muito cómicas, mas que rapidamente cai no drama, passando pelo suspense.

Quando acabei esse filme quis fazer algo mais sombrio, mais parecido aos primeiros filmes, mas com uma maior intensidade psicológica. O próprio título “Adeus Senhor Haffmann” transpira thriller. Vamos dizer adeus ao senhor Hoffmann que é um judeu durante a ocupação de França pelos alemães. Existe uma promessa automática de que vamos dizer adeus a ele, mas como, em que circunstâncias? Isso inspira logo questões.

Daniel Auteuil,

Numa entrevista, disse que o que lhe interessava focar mais neste seu novo filme era o lado colaboracionista, e não seguir uma qualquer história de heroísmo. O que o atraiu para esse colaboracionismo?

Há muito tempo que o tema me interessa. Explorar o lado negro do ser humano. Observar as pessoas que se comportam erradamente, não por uma ideologia, mas simplesmente para tirarem proveito das coisas, seja por dinheiro ou mera inveja. Pessoas normais que se transformam em verdadeiros sacanas.

Não existem muitos filmes em França com este tema, mas há alguns muito bons. Por exemplo, o “Monsieur Klein” do Joseph Losey aproxima-se muito do tema. Interessava-me bastante partir de personagens normais no início, como a do Gilles Lellouche é, mas que progressivamente vai ficando cada vez mais malvada, ainda que não seja um vilão que estejamos habituados a ver no cinema – em termos de humanidade. E era importante observar essa transformação ligada à cultura do medo instituído na época. 

Falando do Gilles Lellouche, voltou a escolhê-lo para protagonizar um filme seu. O que lhe disse para ele entrar naquela personagem? 

Inicialmente até tinha medo de o escolher para o papel de alguém que vamos detestar profundamente, pois normalmente estamos habituados a vê-lo do outro lado da barricada, especialmente nos filmes em que colaboramos. 

Curiosamente, foi essa mudança no tipo de personagens que normalmente interpreta que o levou a interessar-se mais pelo filme, e estimulou a nossa colaboração e discussão de ideias. 

A mudança da trajetória da sua personagem, o François Mercier, alguém que vai da normalidade à canalhice, aumentou-lhe muito o desejo de participar.

E com o Daniel Auteuil, como decorreu essa colaboração?

O Daniel Auteuil é um dos maiores atores franceses da atualidade e o Gilles um dos maiores da sua geração. Interessava-me muito o encontro no grande ecrã de duas estrelas. Não conhecia o Daniel como o Gilles, mas o processo, o diálogo, foi semelhante. Falámos do papel antes do guião estar terminado. Depois disso, a colaboração decorreu de igual maneira a quando trabalhas com grandes artistas. Ele ama a sua profissão, por isso a nossa interação foi aberta como aquela que tenho com o Gilles. Como se já tivéssemos trabalhado antes. Os verdadeiros grandes artistas normalmente não são gente muito complicada para trabalhar. São normalmente aqueles que têm mais dúvidas e medo do papel que vão interpretar que dão mais trabalho. 

A personagem da esposa do François, a Blanche, interpretada pela Sara Giraudeau, sofre também uma transformação. No início, ela mesmo diz ao marido que o patrão é um explorador, mas depois há uma mudança na sua atitude perante ele. Como trabalhou esta personagem, tendo em atenção a peça de teatro que inspira o filme?

Na peça, a personagem Gilles Lelouch não é malvada. O filme difere da assim nas problemáticas que explora. O que queria era uma espécie de cruzamento de destinos. Inicialmente temos muito menos empatia por ela do que temos pelo marido. Mas depois as coisas mudam, tornando-se ela muito mais forte que no início. Interessava-me mostrar como as peripécias da vida vão levá-la a afastar-se do homem que ama, tornando-se simultaneamente mais independente. Achei interessante mostrar estes destinos que se enredam e cruzam, quase em sentido oposto.

O seu filme foi um dos que foi afetado pela pandemia. Estavam já em filmagens e “parou o mundo”. De que modo a pandemia dificultou as coisas?

Foi complicado, mas ao mesmo tempo deu-me algum tempo para reescrever certas coisas e até inventar novas cenas que não estavam originalmente no guião. Sinceramente, apesar de ter sido um período longo e fatigante, especialmente em termos mentais, pois interrompemos o trabalho 3 meses, acho que o filme ficou melhor do que seria se não tivéssemos tido o confinamento. Por exemplo, o Gilles, que é ator, permaneceu esse tempo com a personagem, com aquele bigode, etc. Todas as manhãs que olhava ao espelho, era o François Mercier.

Quando fazes um filme, o grande trabalho é pensar em todos os imponderáveis. No caso da pandemia, foi algo que apanhou o mundo desprevenido. Porém, um realizador tem sempre de estar atento a estes imponderáveis. Aos obstáculos e vantagens. O meu trabalho nesse confinamento foi transformar os obstáculos em vantagens, ou seja, transformar o filme em algo melhor do que era. 

Sara Giraudeau

E a personagem do Daniel Auteuil, em circunstâncias completamente diferentes, também ela está obrigada a um confinamento…

Uma das grandes interrogações que tivemos foi no lançamento do filme. Como disse, ele  foi lançado na França há dois dias e muitas vezes questionamos-nos se as pessoas queriam ver a história de um homem fechado numa cave. Não podemos de forma alguma comparar aqueles tempos com estes, mas é surpreendente contar uma história de um confinamento forçado. E de repente vivermos um. Foi uma verdadeira ironia dramática.

Muita gente da indústria do cinema fala deste período pandémico e de confinamentos forçados como uma “guerra”. E depois da “guerra” fala-se muito que o cinema que aí vem terá de ser mais ligeiro, mais “light”. Vai seguir isso nos próximos projetos? Vai apostar novamente em thrillers oucomédias? O que vem a seguir?

Não sei. Gosto de todos os tipos de cinema. Foco-me nas histórias e se elas me levarem para uma comédia, logo se verá. Porém, no “Adeus Senhor Haffmann” existe um interesse maior na psicologia das personagens, muito mais que nos filmes anteriores. Creio que à medida que também vou envelhecendo, existe em mim cada vez mais um interesse em seguir isso, de analisar o estado interior das pessoas. Digo isto, mas se calhar até farei outro filme de um homem a correr para salvar a esposa. (risos)É melhor dizer que não sei. 

O “Adeus Senhor Haffmann” saiu há dois dias em França e só nos próximos tempos verei o que farei. Neste momento estou na parte da escrita. Tenho várias histórias, mas só depois verei qual me agrada mais para avançar. 

E quando escreve ou filma, pensa ainda em cinema ou já em streaming? Pergunto isto porque já trabalhou para os dois meios.

Não penso de modo diferente. Na verdade, o “Le Jeu” estreou primeiro em cinema, em França, só chegando depois ao streaming, como em todo o mundo. Não é porque as pessoas vão ver num pequeno ecrã que vou filmar de forma diferente. Na conceção, vejo o filme sempre em grande. Acima de tudo são as histórias que contamos que influenciam a mise-en-scène. E naturalmente não imagino o Gilles Lellouche a correr no metro da mesma maneira que numa cave. Adapto a mise-en-scène a cada história que conto de forma a dar ao espectador a melhor experiência e levá-lo a atingir o máximo de emoções. Por isso mesmo, no “À Queima-Roupa” a câmara move-se muito e no “Adeus Senhor Haffmann” não, levando-nos a esquecê-la. É a história que contamos que determina como filmamos.

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