Atriz, cantora e agora realizadora. O nome de Charlotte Gainsbourg no cinema é sempre associado a riscos, arrojo, mas também uma certa fragilidade. E é isso que mais uma vez mostra com uma mestria inabalável em “Les Passagers de la nuit” (“Os Passageiros da Noite”), o novo filme de Mikhaël Hers, que nos leva ao coração dos anos 80 e a Paris.
O filme começa em 1981, com a vitória de François Mitterrand e o anúncio da chegada de novos tempos de esperança e renovação. Depois passamos para 1984 e terminamos em 1988. Charlotte Gainsbourg interpreta Elisabeth, uma mulher abandonada pelo marido que fica a cuidar sozinha dos dois filhos, Matthias (Quito Rayon Richter) e Judith (Megan Northam). Como tantas outras mulheres da sua geração, dedicou a sua vida à família, nunca teve um emprego fora do lar e agora tem de enfrentar o mercado de trabalho sem qualquer experiência. Acaba por ter uma oportunidade num programa de rádio noturno, passando as chamadas dos ouvintes para a apresentadora do programa, interpretada por Emmanuelle Béart. É aí que conhece Talulah (Noée Abita), uma mulher de 18 anos que vagueia pelas ruas. A história desta jovem comove-a e ela decide acolhê-la na sua casa, onde a jovem se transforma também ela em parte da família e interesse amoroso de Matthias.
Marcada pelo passado, psicologicamente e fisicamente, Elisabeth terá de lidar com as circunstâncias dos tempos, das mudanças sociais e lidar com as diversas facetas da sua vida: as de mãe e mulher.
Após a estreia mundial na Berlinale, onde o filme está a concorrer ao Urso de Ouro, falámos com Charlotte Gainsbourg sobre este “Les Passagers de la nuit”, a sua experiência de vida nos anos 80 e a sua participação em outros projetos, como “Suzanna Andler” de Benoit Jacquot, e “Jane Por Charlotte”, a sua primeira experiência na realização.
A sua personagem em “Les Passagers de la nuit” nunca trabalhou e depois do divórcio encontra emprego numa rádio. Como é a sua relação com esse meio, a rádio, desde a juventude?
Quando era jovem, sinceramente, nunca ouvia rádio. Ouvia CD’s e videocassetes. Agora ouço rádio e aprendi isso com a minha mãe (Jane Birkin), que está sempre com ela sintonizada. Esta atração à rádio é algo recente, mas consigo ligar-me aos anos 80 e à forma como um meio como a rádio era muito atraente para todos, às vezes só pelas vozes. Por outro lado, lembro-me de promover filmes nos anos 80 e 90 e não existiam tantas câmaras. Essa é uma liberdade que entretanto fomos perdendo.

E como foi este regresso com alguma nostalgia aos anos 80?
Foi muito interessante voltar aos anos 80, em especial para os atores mais jovens que não reconheciam nada (risos). Os telefones, as revistas da nossa juventude, os gitanos, que não vemos no filme, mas estavam nos sets. Senti-me atraída a esta família que represento. Cresci em St Germain, onde tudo era bom gosto. Adorei o facto da minha personagem não saber se vestir muito bem. Toda esta família é muito genuína, muito real, sem medo de se revelarem.
Quais foram as suas melhores recordações dessa época?
Em 1984 tinha 13 anos, em 1988 nos 17 anos. Já estava envolvida no cinema aqui. Adorei a minha juventude até aos 12 anos e sou muito sentimental em relação a essa era. Os anos 80 foram maravilhosos com o meu pai (Serge Gainsbourg), porque ele mimou-me muito, especialmente aos fins de semana na sua casa. Depois disso tornei-me muito tímida na adolescência. Gostava de filmar, mas depois voltar para a vida real não me agradava. Odiava o fim das filmagens, queria sempre ficar com a equipa técnica.
O que acha que levou a essa timidez?
Coisas pessoais levaram-me a transformar-me em alguém tímido. Comecei a ficar embaraçada pela minha aparência e antes disso não ligava a isso. Achava que não era bonita, algo que acontece a muitas adolescentes. Não era feia, mas também não era bonita. Era tipo “meh”. (risos). Foi um problema para mim, porque na minha família a estética era importante para a perceção das pessoas.
Mas essa timidez e percepção da sua beleza mudou com o tempo?
As coisas mudaram ao longo dos tempos, mas nunca fui feliz com a minha aparência. Apenas soube melhor lidar com isso. O que tinha em mim era a jovialidade. Sempre fui a pessoa mais nova. Consegui manter a juventude por muito tempo, mas de repente passei para velha (risos). Não creio que tenhamos de dizer boas coisas sobre si próprio. Há altos e baixos. Não fui, de todo, infeliz. As coisas que fiz adorei e gosto muito de trabalhar. Sinto-me madura, mas ainda com uma certa ingenuidade que me agrada. Gosto de ser ingénua, não gosto de ser desconfiada. Prefiro acreditar que as pessoas são boas e não estar sempre a pensar no lado mau das coisas.
Recentemente fez o “Suzanna Andler”, obra de época onde desempenha o papel de uma mulher à beira de uma separação. Neste, separou-se mesmo. O que a atrai a este tipo de papéis?
O filme do Benoit Jacquot foi algo muito pequeno. Filmamos numa semana. Era um filme de época, mas eu era uma mulher burguesa. Para mim foi um trabalho muito intelectual, baseado na obra da Marguerite Duras, e tive de entrar num mundo que não era o meu. Este filme tem muito mais a ver com as coisas do mundo “normal”. Creio que esta era a história que Michael Hers queria contar, o de uma família normal, genuína e tocante. Liguei-me muito à forma solitária da minha personagem e o facto dela ser um pouco ingénua. Ela não tem medo de dizer que não sabe fazer as coisas, nem tenta ser o que não é. Encara de frente as dificuldades. Creio que é um filme muito verdadeiro no que diz respeito ao que uma mãe tem de lidar depois da separação: das dificuldades monetárias à educação dos filhos, até à saída dos miúdos de casa.

Mas ambas as personagens partilham a dependência em relação aos maridos…
Sim, mas uma tem dinheiro e a outra não. Neste filme, a minha personagem tem de procurar trabalho, não tem experiência, mas finalmente encontra na rádio uma oportunidade.
Em ambos os filmes interpreto mulheres da minha idade e, quer no “Suzanna Andler” quer no “Passagers of the Night”, o envelhecer está em destaque. Esta idade da personagem é complicada, mas senti que o Mickael foi muito gentil e generoso com ela, especialmente com os seus sentimentos e emoções. E, se virmos bem, existe em todas as personagens uma bondade. Creio que o Mickael é uma pessoa muito gentil na vida. Para mim era estranho, mas sempre que acabava de filmar uma cena ele dizia obrigado e dizia que adorava um ou outro detalhe. Inicialmente até pensei que era piada, mas ele genuinamente agradecia.
Disse que a sua idade é complicada. Porquê?
Talvez para os homens seja diferente, mas para as mulheres, nós pensamos que estamos no nosso melhor, no máximo aos 38 anos. Entrar nos 40 ainda é bom, mas depois começas a decair rapidamente. Tens de aceitar mudanças na pele, na elasticidade, e confesso… não gosto disso. Claro que gosto de mulheres mais velhas, de olhar para elas e ver que aceitam a sua idade, ver isso em nós é difícil. No caso das atrizes, elas não gostam de se ver assim no grande ecrã. Quando a iluminação é boa, não há problemas, mas quando esta não é notas que já não és tão bonita como eras.
Partilha então a opinião da Nicole Kidman, que disse que, em Hollywood, depois dos 40 anos “estás acabada”?
Sim, o meu agente disse-me isso. Perguntou-me o que eu esperava depois dos 40 anos. O problema é que só agora percebo um pouco como funciona este mundo da atuação. Sei que é tarde demais, mas gostava de refazer certos filmes que fiz no passado. No outro dia estava a falar com o meu parceiro (Yvan Attal) e ele dizia precisamente isso. Porque não fomos tão relaxados nos sets de filmagens como agora. Hoje em dia, mesmo que goste de ser meio estranha, não tentar ser o que não sou e sentir-me frágil, não sou tão tímida como era no passado. Para mim, antigamente, ir para um set era algo aterrorizante. Agora já não. O mesmo passa-se na música, nos concertos. Ainda fico nervosa, mas já não finjo que está tudo bem.

E agora também é realizadora, depois de assinar o “Jane por Charlotte”. É uma profissão para continuar?
Não me considero uma realizadora a sério. Este documentário que fiz ao longo de quatro anos era uma busca pela minha mãe. Não havia guião e ela disse que aceitava fazer o filme, mas depois disse que não. Esperei dois anos e ela finalmente disse que podia avançar. Foi algo muito espontâneo
Mas o “Jane por Charlotte” tem qualidade, porque não se considera uma realizadora a sério?
Porque é melhor escaparmos com essa desculpa, ou seja, gosto de permanecer a fazer isso de uma forma não profissional, um trabalho. Se puder continuar a fazer isso, tudo bem.
E escreve guiões?
Não, não escrevo, mas se encontrar uma forma de continuar a realizar, adoraria.
Voltando à atuação e falando do futuro, o projeto em que vai ser a Simone Beauvoir, ao lado do Matt Dillon, “An Ocean Apart”, em que situação está?
Não filmamos ainda, nem sei quando o vamos fazer. Com a Covid-19 é muito difícil prever as coisas. Dizes sim a muitos projetos, uns avançam, mas outros não. Mas estou desejosa de o filmar.

