Charlotte Gainsbourg estreou-se na realização com “Jane Par Charlotte”, um documentário que a cantora, atriz e agora realizadora dedica a Jane Birkin, sua mãe, com quem teve uma relação problemática, especialmente depois da morte de Kate Barry [filha de Birkin e irmã de Charlotte].
Parte documentário, parte ensaio, este objeto não escapa a momentos de humor, seja pelas estórias contadas por Birkin que envolvem arcas congeladora ou pelo tom meta que Charlotte incute, onde discute como a escolha da banda-sonora está condicionada ao facto de as duas mulheres (Jane e Charlotte) não deterem os direitos da sua própria música para apresentar aqui. Este é mesmo um trabalho sentido, nunca banal, corriqueiro ou televisivo que se limite a distribuir pedaços de vida e história de Jane Birkin, mas antes uma conversa repleta de intimidade que a leva a ela a revisitar o passado, muitas vezes doloroso.
Surpreende o tom, a abordagem e a estática formal deste exercício, com Charlotte a apresentar diversas conversas dela com a mãe em espaços de intimidade, desde uma cama à famosa casa parisiense onde Birkin viveu com Serge Gainsbourg, e que agora carrega as memórias de uma relação que ainda surge colada a inúmeros artefactos que se amontoam na famosa casa da Rue de Verneiul e que estão agora a ser pensadas como peças de um museu.
A sessão em Cannes foi bastante emocionante, com a presença de mãe e filha na sessão, a qual culminou com uma longa ovação e com a certeza de que temos aqui uma realizadora, artista e filha que soube pegar no material e construir uma bela canção, fotografia e carta de amor à sua mãe.



