“Nenhuma aventura amorosa é estável”, diz Claire Denis

"Com Amor e com Raiva" chegou aos cinemas a 9 de fevereiro

(Fotos: Divulgação)

Confiou-se um Urso de Ouro ao primeiro tratado crítico da ficção cinematográfica acerca da histeria pós-Covid-19: “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental”, de Radu Jude, que observava a pandemia pelo prisma da pornografia, da moralidade e do cancelamento. Mas isso foi em 2021 quando a Berlinale teve que mudar as suas atividades para uma URL e realizar sessões online. Este ano, em que tudo voltou a ser presencial, com recurso a uma bateria exaustiva, quase traumática de testes antígeno, a crónica sobre o modu operandi pandémico que interessa à competição alemã envolve mais do que o desejo, com romantismos rasgados envolvidos. Foi o caso de “Avec Amour et Acharnement”, outrora chamado “Feu”.

Realizadora de filmes de culto como “Nenette e Boni” (Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, em 1996), “Bom Trabalho” (1999) e “Bastardos” (2013), a cineasta veio para vencer, narrando um turbilhão afetivo na vida de um casal: a radialista Sara e o empresário Jean (Juliette Binoche e Vincent Lindon). A paz do casal pode ser abalada quando um antigo amor do passado de Sara, François, vivido por Grégoire Colin, reaparece. Na conversa a seguir, Claire – envolvida em “Stars at Noon“, estreado no mesmo – explica ao C7nema como este projeto foi idealizado, como uma resposta ao isolamento imposto pela Covid-19.

Qual é a dimensão romântica que rege o triângulo de “Avec Amour et Acharnement”?

Existem, sim, três pessoas, mas eu não as vejo como um triângulo. Vejo um filme sobre uma questão do passado que não se resolveu. E mais do que isso: vejo um filme sobre intimidade e sobre confiança. Nenhuma aventura amorosa é estável.

Como é a prática do seu trabalho com a banda inglesa Tindersticks que assina a banda sonora de “Avec Amour et Acharnement” e sua canção central: “Both Sides of The Blade”?

Esse é o título internacional do filme. É o título preciso para uma tradução que expressão alguma em inglês consegue traduzir o sentido por trás de um filme cheio de palavras para dar conta de muitas coisas. O pessoal da Tindersticks só precisa do meu primeiro passo. Aproximo-me, digo o que quero, mostro o que é a história e eles apresentam uma proposta que me toca.

Existem momentos de “Avec Amour et Acharnement” em que parecemos estar diante um filme documental sobre a pandemia e os sentimentos que ela deflagrou. Qual é o senso de realidade que guia um cinema sensorial como o seu?

Essa sensação vem do facto de não ter tentado mascarar o que se passava. Queria mostrar o que estávamos a viver, como era… aliás, como é. É a realidade, é a vida e o cinema é parte dela. No início dos anos 1990, rodei, em Nova Iorque, um filme de uns 40 minutos chamado “Keep it for yourself”, num clima frio, sob uma temperatura mais baixa do que a do inverno em Paris. As pessoas tentavam abrigar-se do vento gélido como podiam. Ali, vi atores como Vincent Gallo a contorcer-se na demanda por calor. Fui prestando atenção nos corpos e vendo o quanto um rosto pode ser uma paisagem cheia de espaços a serem investigados. Esse contato ampliou a minha perceção das diferenças, que já vinha do fato de ter crescido em África. Era uma menina branca numa escola onde a minha cor, e o passado colonial por trás dela, gritavam. Mas esse grito não abafava o meu interesse pelo outro. Naquela vivência de infância, assimilei África como parte de mim. Não importa onde filmo, não observo o espaço à minha volta. Vivo esse espaço. Ele torna-se parte da minha subjetividade.

Há quatro anos saiu premiada de San Sebastián pela Fipresci por “High Life”, que firmou a sua relação com Robert Pattinson, com quem quase filmou “Stars at Noon“. Escolher um género como o sci-fi é uma escolha política? O seu cinema é político?

Existe uma diferença simbólica estrutural entre fazer filmes e fazer cinema. Algo conceitual. Cinema é algo miraculoso, a abstração, o sonho do artista. Filme é a matéria viva, o objeto. Existem questões sociais em França que me rondam a cabeça, como existem questões em África. Isso tem, sim, uma componente político. Mas a noção que me guia é outra. O realizador Jacques Rivette dizia que, independentemente da ideologia, um artista sempre manifesta-se sempre por UM ponto de vista, uma escolha moral. A minha verdade, no confronto com as diferenças, talvez seja a cartografia do que os corpos expressam, do que um rosto revela sobre a intimidade de cada um. Nunca imaginei fazer um projeto de ficção científica. Mas resolvi desbravar o género, num filme feito em estúdio, analisando a intimidade de pessoas presas numa nave. O espaço da minha narrativa não são as estrelas, mas o espaço do amor.

Como ficou o projeto “Stars at Noon”?

Está em montagem. Ainda no começo. E, por favor, não me apresse. Fazer cinema é uma coisa bem complicada. Ainda este em edição, baseado num romance de Denis Johnson, que li há uns doze anos. Tenho a Margareth Qualley comigo no elenco. É a minha protagonista. Este projeto já estava planeado antes do “Avec…” sequer ter sido idealizado. Há uns quatro anos comecei a fazer verificar espaços na Nicarágua, onde a história decorre, mas, por uma série de questões políticas, de eleições no local, não pude filmar lá. Robert Pattinson ia ser o meu protagonista, mas ficou preso no projeto “Batman“. E a Margareth bateu o pé para continuar comigo. É uma grande atriz. Mas tive a sorte de encontrar um ótimo ator, o Joe Alwyn. É uma produção em inglês e espanhol, mas com presença francesa.

Últimas