Cerca de três meses depois de ter conquistado o Urso de Prata de Melhor Realização em Berlim com “Avec Amour et Acharnement“, uma radiografia sobre os vetores da pandemia nas relações afetivas, a realizadora francesa Claire Denis saiu de Cannes com o Grand Prix du Jury (dado ex aequo também a Lukas Dhont e seu insosso ‘Close‘) por “Stars at Noon“, um projeto que passou 12 anos no seu coração e resulta na prática de um caudaloso diorama da América Central. Fala-se em Nicarágua, mas a trama foi rodada no Panamá, com referências explícitas à Costa Rica, da comida à temperatura, passando pelos códigos de corrupção nas fronteiras. E há uma heroína de carácter crocante (daqueles que fazem ruído quando se quebram) que trata o mundo latino à sua volta com o desdém de Wasp (Branco, Anglo-Saxão e Protestante). Mas uma wasp sempre suada, com álcool nas ideias e de máscara na boca para se proteger da Covid-19. Sim, uma vez mais, Claire traz o horror do coronavírus para o centro da narrativa, com direito a testes de PCR em cena.

Essa tal heroína é uma repórter freelancer, sem trabalho, Trish (Margaret Qualley). Numa das mais viscerais interpretações de todo o Festival de Cannes de 2022, a sua personagem faz dela um tridimensional reflexo dos desapegos juvenis dos tempos que correm. Ela vive mal do Jornalismo, em especial na Nicarágua, vetorizada por dilemas políticos da Costa Rica, para onde escolheu viajar. A viagem partiu de um princípio de indisfarçável xenofobia: “Queria ver o tamanho que o Inferno pode ter, por isso vim”. A sua fala é mais ou menos assim, xenófoba. Há outros comentários, dela e (sobretudo) de homens que se cruzam no seu caminho, e que muito desabonam a América Central. Soa sempre áspero ouvir o que se diz dessa porção da América Latina, mas percebe-se não ser uma visão de Claire e, sim, uma maneira da realizadora de “High Life” (2018) e de “Les Salauds” (2013) – ligada afetivamente ao Brasil, com parentes em Belém do Pará – poder denunciar o racismo e a soberba do Velho Mundo e dos EUA.

Cada fala intolerante ouvida em “Stars at Noon” transborda o miolo existencial de Trish e dos satélites da sua aventura longe dos EUA, em plena pandemia. Transbordar é o verbo central desta personagem, que faz lembrar Jeanne Moreau em “Jules et Jim” (1962) e Miou-Miou em “Les Valseuses” (1974). É uma figura emancipada de liberdade plena, como só Claire Denis sabe construir, em parceria com uma estrela em estado de graça, como Margaret, que se despoja das vaidades de estrela de Hollywood (e do cinema Indie) e vai ao fundo do poço do desejo.

Nenhum dos concorrentes exibidos no Palais des Festivals de 18 a 27 de maio teve o grau de sinestesia que “Stars at Noon” alcançou, a partir da fotografia de Éric Gautier, tanto no modo de enquadrar o espaço, quanto na maneira de enquadrar os corpos. Isso vale tanto para o suor nos cabelos até para um batom mal besuntado, chegado ao clímax da fisicalidade na sequência em que Trish cospe num agente da lei e a saliva escorre pela sua boca, pendurada nos lábios, espumando raiva. É a estética de Claire, que vem da sua experiência como documentarista (vide “Vers Mathilde“) e chega à ficção, com a mesma radicalidade do filme de culto “Beau travail” (1999).

Não por acaso, como a sua nova obra é uma história do agora, há máscaras e cartazes que falam do coronavírus por todos os lados. Mas a menção à doença não inibe o facto de “Stars at Noon” ser uma história de amor. Quase sempre há amor quando se fala em Claire. E o que mais surpreende na sua nova criação, inspirada por um romance de Denis Johnson, é o facto de ela se ancorar no querer em meio a tantas coisas que cercam Trish.

Existe a luta por dinheiro, que arrasta a repórter por mil armações e a uma conversa (genial) via Zoom com um editor, interpretado por John C. Reilly – numa rápida e impagável participação. Existe a CIA, que zumbe como uma mosca sobre a carniça das finanças costa-riquenses. Existem outras autoridades que querem saber por qual motivo Trish ainda não voltou para casa, na América. Há uma dona de hotel que se zanga sempre que a americana pede para usar o telefone. E existe a pandemia. Mas, apesar de tudo isso, o encontro com um inglês de fino trato, Daniel (Joe Alwyn, que substituiu Robert Pattinson em cima da hora, e o fez bem), tira de Trish a percepção do risco, dos precipícios.

Parceira habitual da cineasta, a banda Tindersticks embala a paixão que nasce entre Trish e Daniel com acordes charmosos, que tonificam o gostar sem avassalar a imersão da plateia no mundo à sua volta. E vale ressaltar a participação de Benny Safdie como agente da CIA.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
stars-at-noon-o-clamor-do-desejo-na-pele-da-narrativaQuase sempre há amor quando se fala em Claire Denis. E o que mais surpreende na sua nova criação, inspirada por um romance de Denis Johnson, é o facto de ela se ancorar no querer em meio a tantas coisas que cercam a protagonista