Yakuza Princess: Adrenalina e virtuosismo no diálogo com as novelas gráficas

(Fotos: Divulgação)

Mirando-se no espelho pop da Marvel e da DC, que transformou as BDs no veio mais comercial do circuito exibidor nas últimas duas décadas, o cinema brasileiro anda a tirar da estante das gibiterias (nome local dado às lojas especializadas em novelas gráficas) títulos que possam atrair plateias em diferentes plataformas, com foi o caso de “O Doutrinador”, de Luciano Cunha, e de “Turma da Mônica – Laços”, de Lu e Vitor Cafaggi.

A nova incursão audiovisual do Brasil pelas BDtecas é uma (frenética) adaptação de “Samurai Shirô” (editada pela Darkside Books em 2018), de Danilo Beyruth, protagonizada pela atriz e cantora nipo-americana Masumi e pelo galã irlandês Jonathan Rhys Meyers (de “Match Point”). A sua transposição para as telas, chamada “Yakuza Princess”, e já em cartaz na Europa, é uma afinada de mistura de “As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim” com “Kill Bill”, inspirada pela estética dionisíaca das histórias em quadradinhos típica de Beyruth. Ele desenhou o Venom e o Motoqueiro Fantasma em tramas marvetes para os EUA e publicou álbuns no seu país como “Bando de Dois”. No terreno cinematográfico, Beyruth participou da criação dos centauros motorizados de “Motorrad” (2017), filme anterior da produtora Tubaldini Shelling e do cineasta Vicente Amorim, que unem forças uma vez mais.

Montar este elenco foi uma tarefa complexa, quer seja por serem grandes estrelas – sendo algumas de Hollywood e outras de Tóquio -, quer seja pela logística que isso pede”, diz Shelling ao C7nema, depurando a carreira internacional de um filme calcado numa São Paulo digna de Takashi Miike, com imigrantes japoneses, nisseis e sanseis em perigo, entre lâminas afiadas. Laqueado numa direção de arte estonteante, assinada por Daniel Flasksman, “Yakuza Princess” traz cenas de batalha como o Brasil nunca fez igual, derramando adrenalina das lâminas das suas personagens. A sua conexão com o recente “Snake Eyes” é direta, uma vez que ambos operam a partir do fascínio despertado pela atmosfera do submundo asiático. Fascínio esse recentemente renovado com a conquista do Leopardo de Ouro do Festival de Locarno por “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”, da Indonésia. Fascínio esse que data do fim dos anos 1970, a partir das coproduções entre Hong Kong e Coreia com Mun Kyong-sok, mais conhecido como Dragon Lee, e das BDs da Marvel com a assassina Elektra, forjadas na pena de Frank Miller.

Juntamos experiências pessoais das minhas idas ao Japão às trocas que tenho com Gabriel, o meu filho, sobre anime e manga”, diz Amorim, que fez sucesso em solo nipónico com o filme “Corações Sujos”, de 2011, no qual resgata a saga de uma célula nacionalista japonesa no Brasil dos anos 1940, baseada em best-seller de Fernando Morais. “São filmes bem diferentes, mas o que os une é o YAMATODAMASHII, o ‘espírito japonês’”.


Fotografado por Gustavo Hadba (de “Veneza” e “O Grande Circo Místico”), “Yakuza Princess” começa com Akemi (Masumi), uma jovem descendente de japoneses, encontrando um estrangeiro ocidental sem memória, que carrega uma katana, a espada usada pelos samurais. Rhys Meyers é o tal desmemoriado, que estampa no rosto cicatrizes de cortes. A partir desse encontro, Akemi passa a ser perseguida por agentes da Yakuza, a máfia japonesa. Para sobreviver, ela precisa enfrentar seu passado enquanto se arrisca nas ruas paulistanas usando sua destreza nas artes marciais e seus dons como espadachim.

Uma personagem precisa fazer escolhas, muitas delas erradas, para ser interessante, para valer uma história. Todos os heróis, mesmo num filme de ação pop precisam ser meio existencialistas. É isso que procuro nos filmes (e séries, recentemente) que me interessam. Alguns já carregam fantasmas quando começam a jornada que mostro. Outras, como Akemi, vão conhecer fantasmas que estavam escondidos há décadas e, pela espada, criar novos”, diz Amorim, que importou o seu conhecimento sobre geopolítica oriental e o ator Tsuyoshi Ihara. “Interessa-me esse tipo de personagem num contexto meio ‘leviatã’, maior e mais poderoso que ele. Eu busco personagens que vejam o seu entorno como um monstro a ser enfrentado”.


Sintonizado totalmente à explotation que gerou “O Dragão Ataca” (“Enter The Dragon”, de 1973), que, no Brasil, chama-se “Operação Dragão”, “Yakuza Princess” é um novo marco do cinema de ação latino-americano, num padrão de adrenalina que transcende o realismo.

Amorim fez algo similar em “Motorrad”, que lhe valeu elogios no TIFF, o Festival de Toronto. Em seguida, percorreu trilha mais sociológicas para retratar a violência, mas sem abandonar o seu habitual virtuosismo, no híbrido de filme e série “A Divisão”. No meio tempo, dirigiu o italiano Giancarlo Giannini, o eterno Pasqualino das Sete Beldades, “muso” de Lina Wertmüller, em “Duetto”, drama romântico ainda inédito. Mas o que a sinergia entre cineasta e Shelling (que produziu  sucessos na seara da comédia, como “Divórcio” e “O Concurso”) alcançaram agora, dialogando com a obra de Beyruth, é uma linguagem plenamente conectada ao que as BDs têm de mais expressivo plasticamente.

Há tempos, quando recebeu o C7 nas filmagens de “Motorrad”, Amorim apontou que um dos pontos fracos do cinema brasileiro em relação ao domínio da cartilha de género é o fato de lá deixaram a sociologia superar a dimensão psicológica das narrativas. Não é o que se vê agora, em “Yakuza Princess”, que disseca a essência de sua anti-heroína. Ao responder ao C7nema qual é o maior desafio de se manter no registo de ação no Brasil, ele diz: “Dinheiro e produtores que não sejam ‘caretas’. Existem poucas Shellings por aí”.

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