James Longley nasceu no Oregon (EUA), em 1972. Estudou na Universidade de Rochester, em Wesleyan, e no Instituto Russo de Cinematografia em Moscovo. Aí recebeu o prémio anual Students Academy Award da Academy of Motion Pictures, Arts and Sciences pelo documentário Portrait of a Boy With a Dog. Essa curta-metragem retratava a vida de um rapaz num orfanato russo. Gaza Strip é o seu primeiro documentário de longa duração, produzido on location na primavera de 2001.
Quais foram as principais razões para fazer este tipo de documentário? Porquê a Palestina?
Quando comecei o projeto do filme sobre a Faixa de Gaza, era apenas uma das várias ideias que tinha para documentários – justamente aquela sobre a qual eu tinha menos experiência. Inicialmente, considerei sobretudo o facto de Gaza raramente ser mencionada nos Estados Unidos: o que se passa ali tende a passar despercebido nos meios de comunicação social. Essa ausência de cobertura, intencional ou não, deu-me a oportunidade de mostrar algo novo sobre um conflito que preocupa muitas pessoas – foram estas as minhas razões. Porém, quando cheguei à Faixa de Gaza, tornou-se claro que eu tinha uma obrigação moral, como cidadão norte-americano e contribuinte indireto para a ocupação israelita, de relatar o que estava a acontecer. A situação era muito pior do que eu esperava.
Mohammed é a principal voz do filme. Como foi o processo de falar com ele? Como foi persuadi-lo, a ele e a outros, a aparecer no filme?
Mohammed Hejazi – que tinha 13 anos quando filmei – ficou muito entusiasmado por alguém querer fazer um filme com ele. Ficou feliz por ver que alguém se interessava pelo que ele pensava. Conheci-o quase por acaso, num local chamado Karni Crossing, no norte de Gaza. Pouco depois de ter chegado, deparei-me com um grupo de miúdos a atirar pedras a tanques através da rede da fronteira. Mohammed foi apontado pelos outros como porta-voz. Era claramente articulado e apaixonado nas suas convicções, e foi isso que despertou o meu interesse em incluí-lo no documentário. Mais tarde falei com os pais dele, que autorizaram a sua participação.
Considera Mohammed a voz do povo palestiniano?
Mohammed é apenas uma voz entre milhões. No entanto, muitos dos seus pensamentos são partilhados por outras pessoas e, mais importante ainda, penso que o seu espírito representa o espírito de resistência dos palestinianos contra as forças de ocupação israelita.
Quando Mohammed fala de Arafat, chama-lhe espião. Há ou não uma autoridade palestiniana?
Nem todos os palestinianos detestam Arafat, claro. Mas quase todos têm, pelo menos, algo a criticar. Houve grande entusiasmo quando Arafat regressou do exílio, no âmbito das autoridades palestinianas e dos Acordos de Oslo. Contudo, esse entusiasmo esmoreceu rapidamente quando se tornou claro que as autoridades palestinianas estavam a ser corrompidas e que os Acordos de Oslo serviam de pretexto para Israel expandir os seus colonatos nos territórios ocupados. O que Mohammed diz sobre Arafat no filme reflete a opinião de muitos palestinianos, mas não de todos. É importante salientar que o poder das autoridades palestinianas tem sido sistematicamente enfraquecido por ataques militares, principalmente do governo de Sharon – ataques que destruíram as infraestruturas do governo e da sociedade civil palestiniana nos territórios ocupados.
O que foi mais chocante em tudo o que viu?
O mais chocante que presenciei foi um ataque com gás no campo de refugiados de Khan Yunis, levado a cabo por militares israelitas em 2001. O ataque levou cerca de 200 palestinianos ao hospital com convulsões e outros sintomas que sugeriam tratar-se de um gás bastante mais perigoso do que o lacrimogéneo comum. Foi extremamente perturbador para mim que as autoridades israelitas recorressem a isto, e talvez ainda mais perturbador que os principais meios de comunicação norte-americanos não tenham noticiado o “incidente”.
O que foi mais assustador? Ser um ocidental num “campo de guerra” muçulmano ou os ataques israelitas durante as filmagens?
Não entendi bem essa formulação. Passei a maior parte do meu tempo em Gaza num campo de refugiados, não num “campo de guerra”. Além disso, há muitos cristãos e ateus entre os palestinianos – portanto, não é correto usar o adjetivo “muçulmano” para descrever toda a população. Os palestinianos que conheci trataram-me com enorme hospitalidade e paciência. Já os soldados israelitas dispararam contra mim diversas vezes enquanto eu filmava. Os ataques constantes a jornalistas têm, de facto, um efeito “silenciador” nas reportagens. O absoluto desrespeito pelas leis internacionais e pelas regras de conduta por parte dos israelitas foi particularmente perturbador de testemunhar.
Existe uma mensagem política neste documentário?
Espero que as pessoas que vejam o documentário cheguem às suas próprias conclusões. Mas, depois de viver em Gaza e filmar o que filmei, é para mim muito claro que a ocupação israelita deve terminar antes que haja qualquer esperança de paz na região. A ocupação tem de acabar.
Tenciona voltar ao território palestiniano?
Sim, gostaria muito.
Tem projetos para o futuro?
Tenho, de facto, algumas ideias, mas não quero entrar em detalhes. Basta dizer que estou interessado em fazer filmes sobre assuntos que revelem algo novo ao público.
Entrevista realizada em 2002 por Cátia Simões e Jorge Pereira

