Existem dois aspetos fulcrais a considerar neste “Promising Young Woman” (Uma miúda com potencial), filme de estreia de Emerald Fennell, um dos mais badalados do ano.
Primeiro, a sua vertente artística, como objeto de cinema razoavelmente executado, na direção e argumento, que procura uma identidade própria num universo temático derivativo ao acompanhar a jornada de uma mulher que executa um plano de vingança pelos abusos sexuais que uma amiga sofreu no passado.
Cassie (Carey Mulligan) era uma jovem promissora, pelo menos dentro da definições do sistema capitalista e neoliberal norte-americano, mas esse potencial perdeu-se com a chegada de uma tragédia que motivou o seu afastamento do curso que frequentava. Agora, durante o dia, trabalha num café, bem longe das ambições que lhe apontavam no passado, e à noite veste a pele de vigilante, partindo em busca de predadores sexuais em clubes noturnos, daqueles que aproveitando-se do estado ébrio das mulheres abusam sexualmente delas.
Nessa construção da personagem, mais que uma Lisbeth Salander (da saga Millennium), que tatua no peito do seu abusador o crime (“Sou um porco sádico e violador”), ou da martirizada protagonista de “Revenge”, Cassie – embora distante de assumir um estatuto de femme fatale objetificada – aproxima-se mais de Paz de La Huerta em “A Enfermeira”, uma das figuras hiperbólicas criadas nos anos 2010 para dar rosto à emancipação e vingança feminina, descendente dos filmes exploitation dos anos 70 e 80 (como “I Spit in your Grave“). Essa “enfermeira” caçava homens infiéis à noite, tudo num registo de horror com muito gore, num misto de “Dexter” com “Jovem Procura Companheira”.

A Enfermeira 
Uma Miúda com Potencial
Esta aproximação leva-nos ao segundo ponto a considerar neste filme, a sua vertente comercial, já que apregoa-se como uma peça indie pioneira de ativismo feminista pós-Me Too. Porém, ao colocar a nossa protagonista a vingar-se também de mulheres, claramente reduzidas e obrigadas a agirem de certa forma para sobreviverem no sistema patriarcal que as oprime, a missão de Cassie revela-se acima de tudo pessoal e não global contra um sistema dominante.
Bem sei que essa estratégia era mais uma identidade de marketing criada pelo distribuidor para singrar na época de prémios, isto enquanto trazia simultaneamente para a discussão uma mensagem ainda fulcral de passar nos dias de hoje (o consentimento). Mas a verdade é que esses dois mundos colidem e dão alguma incoerência a todo este objeto, uma espécie de choque entre o “filme que ele pensa que é” e “aquilo que na realidade apresenta”. Isto não transforma “Promising Young Woman” num trabalho fundamentalmente hipócrita, mas apenas iludido com o seu verdadeiro significado, nunca percebendo que também ele está rendido ao sistema neoliberal e patriarcal que acredita atacar.
Voltando ao primeiro ponto, e afastando-me das formas ideológicas, há pontos bem positivos neste trabalho de Fennell, a começar pela sua protagonista, Mulligan, em excelente forma. A argumentista e realizadora tenta também imprimir uma personalidade (trabalho de “autor”) no arranjo estético, triunfando claramente na abordagem visual e em alguns detalhes na narrativa, não apenas através da escolha acertada da paleta de cores, que separa duas realidades, o dia da noite, a empregada do café da impiedosa vingadora, mas igualmente na ponta de romance incutida no guião, que afasta Cassie de qualquer forma de misandria.
Com isso, o filme ganha alguma identidade, fazendo-o sobressair no meio de várias obras tematicamente semelhantes (como Black Medusa ou Violation recentemente), mas estes elementos voltam a perder força com o cariz rocambolesco da ponta final deste filme, onde uma sequência demasiado forçada de eventos, entre a justiça e o sacrifício, apenas parecem ter como único propósito o entretenimento puro, embrulhado num papel lustroso e chamativo de ativismo.

















