Num ano em que “Promising Young Woman” (Uma Miúda com Potencial) –  com Carey Mulligan no protagonismo – faz furor na época dos prémios com a sua narrativa de vingança no feminino, numa era pós #MeToo e #TimesUP, a Tunísia leva ao Festival de Roterdão “Black Medusa”, primeiro filme de ismaël e Youssef Chebbi, no qual acompanhamos Nada, uma mulher que durante 9 noites “caça” homens na noite de Tunes, num verdadeiro ritual de massacre do sexo masculino, qual SCUM Manifesto, qual quê. 

As suas motivações não são claras e a sua misandria vai exponencialmente ser manifestada, dia a dia, homem a homem, cada vez com mais violência e menos critério, como que dizendo ao espectador que não há inocentes num regime opressor. É nas entrelinhas periféricas da ação que vamos encontrando algumas pistas e respostas, todas ligadas uma sociedade que, mesmo depois da sua Primavera Árabe, continua num registo de poder patriarcal e normalização de ações entre dominantes (homens) e dominados (mulheres) –  com o piropo constante, a objetivação e o engate forçado a serem apenas pequenos (grandes) sintomas de uma doença bem mais grave, incrustada igualmente através da religião. 

Black Medusa” revela também ser uma viagem à Tunes contemporânea com uma visão moderna da sua vida noctívaga e que contrasta com uma sociedade que vive o dia de forma tradicional e enraizada no estereotipo do lugar destinado a cada género na sociedade. A própria personagem de Nada – como a sua cidade e país – mostra também ela ter uma vida dupla, passeando de dia por entre edifícios estatais, espaços de arte ou trabalhando pacificamente, até que de noite veste uma nova capa e parte para a sua missão de extermínio.

Esteticamente elaborado com um recurso frequente a imagens pausadas, que nos oferecem fotogramas estáticos “do real” ensaiado, “Black Medusa” é carburado num preto e branco entre as sombras e a luminosidade, sendo invariável falar em influências do cinema noir e no poder de atração das suas femmes fatales. A isto, a dupla de realizadores acrescenta um toque giallo que trascende-se numa sonoridade imersiva e sufocante, que funciona como alto contraste com todo o silêncio que a protagonista carrega, que reflete igualmente as mulheres do seu país. (ver a cena abaixo do filme, que serve de alegoria para isso mesmo)


Na verdade, não foram raros os momentos em que “Promising Young Woman”, “Nurse 3D” e até o filme que acelerou o discurso de vingança no feminino nos anos 70 (I Spit on Your Grave) vieram à cabeça, tal como traços da negritude estilizada, importada de Jim Jarmusch, Frank Miller e F. W. Murnau, que Ana Lily Amirpour aplicou no seu fabuloso “A Girl Walks Home Alone at Night”. E talvez – inconscientemente – essa seja mesmo a maior influência deste filme.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
black-medusa-mais-uma-miuda-com-potencialNum ano em que "Promising Young Woman” (Uma Miúda com Potencial) faz furor na época dos prémios com a sua narrativa de vingança no feminino, “Black Medusa”continua o discurso contra o patriarcado em mais um filme de vingança pós #MeToo