O terreno do crime e vingança, especialmente do exercício de represálias após uma agressão sexual, tem vindo a denotar uma nova vaga no cinema global em tempos pós #MeToo, com filmes como “Revenge”, “Promising Young Woman”, “Black Medusa” e este “Violation” a irem uns degraus à frente na aplicação de castigos aqueles que Lisbeth Salander executou no primeiro capítulo de “Os Homens Que Odeiam as Mulheres”, quando marcou no peito de um homem a frase tingida a sangue ,“Sou um porco sádico e violador”.
“Violation”, novo produto da plataforma de streaming dedicada ao terror, a Shudder, exibido no SXSW, explora a nocividade reprimida de uma mulher, o que irá despoletar um estado da psique capaz de preparar uma retorcida vingança num jeito que não se vê comumente no cinema norte-americano, mas sim no japonês, com Takashi Miike e o seu “Audition” a vir à cabeça pelo desconforto com tudo que assistimos, sem qualquer triunfalismo ou exuberância justiceira.
E por aqui assistimos primeiro à vingança, com Miriam (Madeleine Sims-Fewer) a seduzir o cunhado, a levá-lo a despir-se totalmente, amarrá-lo voluntariamente, antes de lhe dar com um martelo na cabeça e deixá-lo inconsciente. Depois disso, e claro, a vingança não é assim tão fácil de concretizar, mas no final o resultado letal da ação acaba com ele a ser elevado, tal qual um porco ou vaca, para se preparar o esquartejamento.
Só depois deste ato viajamos à génese dele e que passa por uma violação durante um acampamento em que o cunhado aproveita que ela está inconsciente e a dormir para a penetrar e ter sexo com ela. Não é um ato de violência física extrema que normalmente está associado a este subgénero que teve como filme chave o explosivo “I Spit you on your Grave”, mas aqui o discurso orienta-se para a ausência de consentimento.
Sims-Fewer e o coargumentista, o realizador Dusty Mancinelli, perdem-se um pouco em simbolismos básicos, como a exposição paralela de lobos e coelhos, aranhas e moscas, predadores e presas, mas triunfam completamente na exploração da repressão a que a vítima é submetida, primeiro através da nulificação do ato por parte do agressor (para ele, não foi nada assim que as coisas aconteceram), depois pela sua esposa, irmã da vítima, que não só não acredita nela como passa as responsabilidades para a vítima. E faz isso recorrendo frequentemente a close-ups intensos que obliteram a violência exposta.
Com um ambiente carregado desde a primeira cena (que nos leva a “Get Out” – outro filme de predadores e presas) onde vemos a vítima e o seu marido a caminho de uma zona remota pelo meio das florestas do Quebec, “Violation”, tal como os filmes acima descritos, não inventa a pólvora, mas oferece uma visão perversa do castigo, do fardo psicológico para quem o aplica e do ato em si que despoleta todos os eventos que se seguem.



















