Inspirado em eventos que ocorreram há alguns anos numa pequena cidade polaca, a estreia na realização de longas-metragens de Damien Kocur é de uma impressionante maturidade no controle da atmosfera de tensão e captura de espaços parados no tempo e dominados por uma toxicidade tratada como elemento natural. E embora esteticamente o filme demonstre alguma inconsistência, com influência no ritmo e consequentemente na atenção do espectador, não há dúvidas que entre prós e contras de “Bread and Salt”, as mais valias e a urgência temática colocam o filme no campo dos objetos a seguir com particular atenção.

Para se entender a urgência temática, temos de voltar a repescar o caso real que gerou o filme. No passado, na tal pequena localidade da Polónia, um imigrante esfaqueou um jovem polaco de 20 e poucos anos até a morte. Após a tragédia, a comunidade local e todo o país convenceram-se de que o assassinato foi baseado em motivos religiosos, havendo pedidos para boicotar os restaurantes árabes, ou mesmo para matar muçulmanos, tendo o episódio sido usado para veicular pensamentos de uma extrema-direita oportunista que descontextualizou a agressão para vender a sua agenda xenófoba.

É a partir disto que Kocur fabrica a história de Tyme, um jovem talentoso pianista, aluno da Academia de Música de Varsóvia, que regressa à sua pequena cidade natal para passar as férias. Reencontrando os amigos, a maioria dos quais decidiu permanecer no local, fechando assim os horizontes, ele divide o seu tempo entre diversão e aulas de piano. Um dos pontos de encontro destes amigos é um bar de kebab recém-criado, onde Tymek testemunha um conflito crescente entre os irmãos árabes que gerem o negócio e os seus colegas do bairro, os quais frequentemente têm atitudes xenófobas, manifestadas através de um bullying constante que sai das fronteiras do restaurante.

Filme com múltiplas camadas sociológicas por “descamar”, “Bread and Salt” serve igualmente como desconstrução de uma personagem que já alargou os seus horizontes, mas que os volta a cerrar para não se sentir ele mesmo um estranho, um deslocado, perante as gentes da sua cidade. Por isso mesmo, o filme encontrou imenso sucesso no Festival de Antalya, onde ganhou a competição internacional, seguindo uma linhagem de filmes locais (Snow and The Bear; Burning Days, Black Nights), onde semelhantes temáticas e desenlaces trágicos atingiam pequenos lugarejos, os quais reagiram violentamente a recém chegados, quer por razões homofóbicas ou xenófobas.

Por isso, e principalmente devido ao seu último terço, de exposição e ascensão material de um conflito que carbura aos poucos até eclodir, sempre com não-atores a conduzir um enredo preocupado em seguir dinâmicas relacionais, “Bread and Sal” é um filme que merece a atenção do espectador e o conduz a uma reflexão sobre a pequenez da mente e a necessidade eliminar as barreiras que nos levam a falar dos “nossos” e dos “outros”.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
bread-and-salt-nos-e-os-outros“Bread and Sal” é um filme que merece a atenção do espectador e o conduz a uma reflexão sobre a pequenez da mente e a necessidade eliminar as barreiras que nos levam a falar dos “nossos” e dos “outros”.