Uma frase, dita numa voz feminina angustiada em Barrio Triste, basta para ancorar a narrativa que, genealogicamente, remete a Caso Norte (1978), de João Batista de Andrade (num olhar mais latino-americano), e a Boyz n the Hood (1991), de John Singleton, numa ótica que Hollywood tornou universal. A tal fala — “Uma mãe nunca descansa quando o filho está na rua” — encaixa-se numa narrativa que faz uma crónica crua da violência nas ruas, numa estética das mais nevrálgicas, onde o descontrolo assume as rédeas do narrado, onde o “mal” faz uma autoficção, ao pegar numa câmara e fazer dela observadora das suas ações… e de ações ainda mais ferozes, num inventário de um fenótipo naturalista da Medellín dos anos 1980.
A Colômbia que ali se desnuda. Desde que Víctor Gaviria abalou Festival de Cannes e o circuito cinéfilo internacional com La Vendedora de Rosas, em 1998, o cinema colombiano habituou-se a olhar para as margens sociais do país sem filtros de embelezamento moral. Esse retrato brutal das crianças de Medellín, abandonadas entre violência, droga e miséria, abriu caminho para uma linhagem de obras em que a precariedade urbana passou a ser matéria-prima estética e política. Vieram depois títulos como Maria, Llena Eres de Gracia (2004), de Joshua Marston, nomeado ao Óscar, ou o abrasivo Los Reyes del Mundo, vencedor da Concha de Ouro no Festival de San Sebastián, em 2022. Entre os dois, surgiu uma coprodução com o Brasil, La Playa D.C. (2012), também revelada pela Croisette. Agora, Barrio Triste — em circulação desde o Festival de Veneza de 2025 — inscreve-se nessa linhagem cinematográfica do seu país, que se mostra interessada em confrontar fantasmas coletivos, embora escolha fazê-lo através de um dispositivo mais febril, próximo do delírio sensorial.
Realizado por Stillz, fotógrafo e artista visual associado ao universo musical de Bad Bunny e Rosalía, o filme transforma a Medellín dos anos 1980 num território espectral, filmado como se estivesse suspenso entre a memória traumática e a ficção científica. Evoca a ideia de luzes que chegam do espaço para estripar as trevas que pavimentam o seu submundo. A premissa nasce de um gesto brutal: um grupo de adolescentes rapa o cabelo, agride um repórter televisivo e rouba-lhe a câmara de vídeo. Fazem o mesmo que as personagens do picaresco Ladrões de Cinema (1977), do baiano Fernando Coni Campos, só que com mais violência. A partir daí, tudo passa a ser registado pelos próprios jovens, mergulhando o espectador numa estética semelhante ao found footage, em permanente instabilidade. É como se uma relíquia do VHS nos servisse de cápsula do tempo para regressar ao momento em que a desarticulação social implodiu de vez.
O que poderia reduzir-se a exercício de estilo encontra, contudo, uma vibração emocional inesperada. Produzido por Harmony Korine (com resquícios de Gummo), Stillz usa a textura granulada das imagens e a crueza digital das cassetes VHS como instrumento de testemunho social. A câmara torna-se extensão daqueles corpos perdidos, condenados a vaguear sem eira nem beira, nem sonho.
Há qualquer coisa de profundamente fantasmagórico em Barrio Triste. Os adolescentes que percorrem aquelas ruas parecem já mortos antes mesmo de o destino os alcançar. Roubam joalharias, incendeiam carros, vagueiam entre ruínas e sonham com extraterrestres ou monstros vindos do céu. O quotidiano mistura-se constantemente com um estado alucinatório, ampliado pela banda sonora de Arca. A sonoridade explode como um ruído industrial vindo do além. É a melodia da desesperança, abordada na chave de um pós-neorrealismo latino, menos melodramático e mais documental. Não há catarse neste videoclip experimental. Mas há alerta. Talvez o alerta tenha, tristemente, tomado o lugar do devir revolucionário do cinema político nas Américas. É o que sobrou.














